1 de dezembro de 2006

Motivos conceptuais

Porque rejeitamos um estatuto com conteúdos que sempre defendemos?

As associações profissionais de professores, interlocutores do ME formalmente constituídos para as questões cientifico-pedagógicas, e apenas para estas, defendem há anos grandes mudanças na formação e na avaliação dos professores. Perante a proposta do ME do novo ECD, como é que o desejável se tornou inaceitável?

O conceito de escola – Apesar de sermos favoráveis a uma ocupação formadora dos tempos dos alunos ocasionalmente libertados por ausência de alguns professores, a noção de escola-depósito de alunos, onde convém permanecer o maior número de horas, merece o nosso desacordo pela sobrecarga ocupacional de todos, pela incapacidade de todas as escolas proporem actividades enriquecedoras e pela consequente fadiga mental de uns e de outros. Fica ainda a perder em tempo e em qualidade o trabalho individual que terá sempre de ser realizado em casa de cada um. Realmente, o que interessa é dotar as escolas de espaços e recursos que possibilitem a realização por alunos e professores, numa interacção rentável, de actividades ricas, independentemente de serem desenvolvidas dentro ou fora das aulas curriculares.
O conceito de aula – Uma aula não existe fora da relação – que é única – entre um professor e os seus alunos, pois só ele sabe quando e como deve valorizar tal ou tal etapa do desenvolvimento de uma competência, pois só ele é conhecedor desse processo, com os seus pequenos ou grandes sucessos, com os seus obstáculos. Igualmente pessoal é um plano de aula. Que o professor que falte deixe ao seu substituto propostas de actividades de reforço das aprendizagens, é de toda a conveniência. Deixar o plano da aula, que é um percurso de ensino em princípio desenhado para entendimento do próprio professor e não para ser comunicado a terceiros (a não ser em situações particulares, como o acompanhamento de professores em formação), exige um trabalho suplementar de adaptação da linguagem e de explicações detalhadas de estratégias e actividades que não estamos certos de que o substituto domine da mesma forma, além do tempo acrescido que exige. Quando igualmente se sugere ou se manda que professores com horário zero corrijam trabalhos de avaliação de alunos de outros professores, está patente o desconhecimento de que a avaliação de cariz formativo não é um exame, elaborado, aferido, executado e corrigido com critérios que intencionalmente se destinam a correctores que desconhecem os examinandos.
O conceito de professor – Somos (des)considerados agentes não pensantes, sobre cujo trabalho, agora legalmente espartilhado, todos podem emitir opinião e a quem se quer roubar o que é peculiar e distintivo da profissão.
O conceito de formação de professores – O direito a faltas justificadas apenas para a formação contínua oferecida por organismos da tutela, relegando para fora do horário escolar (que já ocupa a maior parte do dia dos professores), para as férias ou fins-de-semana a frequência de formações organizadas por outras instituições, algumas propostas pelas suas respectivas associações profissionais, é um evidente cercear da liberdade de um profissional que se pretende responsável. Um professor tem de facto a obrigação de se formar para responder às necessidades da sua escola (e será que oferta do ME é capaz de lhes dar resposta?!), mas deve ter o direito de poder escolher o programa de formação que lhe interesse ou mais se lhe adeqúe, desde que ligado à sua especialidade. Nesta conformidade, o ECD esquece que os professores podem usufruir de actividades ou participar em projectos internacionais integrados em programas da União Europeia, que decorrem muitos deles em tempo de aulas.
O conceito de avaliação – Classificar! Punir! Nunca formar! É o que consta da proposta de ECD. As associações de professores sempre defenderam a existência de um dispositivo sério e rigoroso de formação e de avaliação do desempenho de cada professor.
Nesse dispositivo a tónica seria posta na auto-avaliação e na observação de aulas por colegas da escola e um avaliador externo, sempre com a possibilidade de se dar um tempo ao professor avaliado para melhorar e passar por uma segunda fase da sua avaliação. O que temos no ECD são o coordenador do departamento, o presidente do conselho executivo e uma comissão de coordenação de avaliação do desempenho a dizerem se o professor é Insuficiente, Regular, Bom, Muito Bom ou Excelente, sem haver uma hipótese de refazer o percurso. E que formação terão esses colegas, inevitavelmente numerosos, para garantirem esse processo? Como serão preparados para avaliadores, função que não prescinde de conhecimentos profundos e actualizados de metodologias pedagógicas e didácticas, de um grande, objectivo e rigoroso treino de observação de práticas lectivas diversificadas, da capacidade de distinguir o essencial do acessório no leque riquíssimo que é o trabalho dum professor, que não prescinde, enfim, de uma personalidade bem estruturada e isenta que não vacile em matéria tão delicada?
Relativamente às cotas para acesso às classificações de Muito Bom e Excelente, elas merecem igualmente o nosso desacordo. Se o sistema de avaliação for sério, isento e rigoroso, as classificações máximas não serão naturalmente numerosas. Para quê acrescentar mais critérios burocráticos e alheios à qualidade do desempenho de cada um?
Face ao exposto, as associações de professores abaixo-assinadas manifestam a sua discordância.

Lisboa, 20 de Novembro de 2006
Associações subscritoras:
ANPEE, Associação Nacional de Professores de Electrotecnia e Electrónica
APEDI, Associação de Professores para a Educação Intercultural
APEVT, Associação de Professores de Educação Visual e Tecnológica
APG, Associação de Professores de Geografia
APH, Associação de Professores de História
APM, Associação de Professores de Matemática
APP, Associação de Professores de Português
APPA, Associação Portuguesa de Professores de Alemão
APPF, Associação Portuguesa de Professores de Francês
APROCES, Associação de Professores de Ciências Económico-Sociais
CNAPEF, Conselho Nacional das Associações de Professores e Profissionais de Educação Física

In: CRIAP-ASA S@ ber nº 32 - 1 de Dezembro de 2006

Espero que esta declaração esclareça todos aqueles que consideravam que o problema do ECD se restringia a um diferendo laboral entre sindicatos e patronato.

29 de novembro de 2006

Justiça...

O princípio da justiça coloca questões cuja resposta deve desaguar na ética do professor. Quais as referências para conformar a justiça do professor? Os interesses do aluno ou os do sistema educativo?...

Teoria da conspiração

Tenho um grande amigo, que por acaso é enfermeiro e pai [que grande injustiça… está bem, nada disso foi por acaso], e com o qual tenho mantido as discussões mais prolongadas e duras sobre tudo e sobre nada. Como grandes amigos que somos, não temos por hábito poupar as críticas e os desabafos. Confesso que muitas das discussões que alimentamos não têm ponta que se lhe pegue para quem nos vê e ouve ao perto, porque é frequente começarmos pelo fim. Isto é, como é longo o histórico da controvérsia, o tema mal é lançado, partimos de imediato para as conclusões. Por vezes chega a ser surreal.
Isto para dizer que hoje fui procurá-lo para cuidar de algumas maleitas típicas de um desportista enferrujado. Ainda não tinha acabado o cumprimento, depois de lhe revelar que a minha escola fora fechada a cadeado pelos alunos, já o primeiro disparo provocador tinha sido lançado:
- Não me digas que os professores estiveram por detrás dessa rebelião?… Negas que reprovam a iniciativa?
Afinal, limitava-se a reproduzir a teoria da conspiração veiculada na comunicação social pelos nossos responsáveis políticos. De seguida, enuncia alguns exemplos mais ou menos caricatos em sectores de actividade onde o empregador cuida de substituir o empregado nas ausências de curta duração. Aproveitei para o conduzir ao seu mister para ver se a luz aclarava o seu temperamento neoliberal:
- Se um ortopedista faltar no dia da operação devidamente agendada, é ou não legítimo ser substituído por um otorrinolaringologista? Ou na melhor das hipóteses por outro ortopedista que se liberte de meia dúzia de consultas de rotina?
- … Um cirurgião?... Um enfermeiro está habilitado para substituir um colega em qualquer serviço.
- …
Pois… afinal fora mais um desabafo!

Adenda: O Vento Mudou e a Censura Voltou! Ou não?

Director da Pontos nos ii alega intervenção nos conteúdos.
O director da revista mensal sobre educação Pontos nos ii, desenvolvida pela Texto Editores, afirma que a editora decidiu interromper a publicação na sequência de divergências sobre os conteúdos editoriais.

27 de novembro de 2006

Já li… e aconselho

  • Cinco armadilhas para a educação
Artigo publicado na edição portuguesa de «Le Monde Diplomatique» (Outubro/2000)

Instada a responder sozinha ao desafio da promoção social, a escola vê-se progressivamente desacreditada e sujeita aos desideratos de mercado de trabalho. Na “sociedade do conhecimento” – onde a promoção de novas tecnologias é pensamento único – a educação já não é mais do que o instrumento de legitimação de uma divisão social desigual. Esta visão redutora esquece que a escola é, antes de mais, o local onde se constrói o laço social, onde deve elaborar-se a “democracia da vida”. [Continuar a ler aqui…]
Riccardo Petrella
Professor na Universidade Católica de Louvain (Bélgica); conselheiro na Comissão Europeia

  • A educação foi evacuada do debate político
[…] Que consequências advirão, para a Escola e para os docentes, da conflitualidade latente que marca o momento actual do sistema educativo?
Eu não tenho uma visão patológica, disfuncional, do conflito. Penso que o conflito é esperável e legítimo numa sociedade democrática. O que espero é que haja capacidade das partes envolvidas, ministério e plataforma sindical, para dirimir os conflitos de forma democrática.
Porque não vale a pena impor unilateralmente um estatuto aos educadores e professores, que devem ser dotados de grande autonomia do ponto de vista científico, pedagógico e relacional. Não é pensável que profissionais altamente controlados, subordinados, alienados, possam contribuir para a autonomia dos educandos, para a autonomia das escolas e para a democratização da Escola.
Se houver bom senso, creio que se fará o que for necessário para chegar a uma postura negocial que exige cedências de ambas as partes. E aí, as organizações sindicais são absolutamente centrais, não só na defesa dos pontos de vista profissionais, mas também na descodificação e explicitação de determinadas mudanças aos próprios professores.
Portanto, eu diria que é preciso, efectivamente, construir um novo estatuto, mas construí-lo negociando e evitando rupturas definitivas, que não interessam a ninguém e que se arriscarão a desprofissionalizar os professores – se os professores tiverem um estatuto no qual não se revêem, que é um estatuto outro, relativamente ao qual se alienam, o que é que se vai fazer com ele?
Neste momento conturbado, já tenho ouvido dizer de professores que estão no 9º escalão que a sua carreira acabou aqui, que jamais se proporão a um concurso para professor titular, por exemplo. Eu compreendo as razões, mas se isto acontecer, se os mais experientes, se os que neste momento estão no topo da carreira se alienam de vir a ocupar posições, isso será um indicador de que o estatuto se insucedeu completamente.
Claro que há sempre excepções, gente muito nova com uma capacidade de intervenção notável e gente em final de carreira que continua a ter uma energia extraordinária.
Mas quem está nas escolas e quem estuda as escolas sabe que quem mexe, quem aguenta isto, quem investe, é uma geração que está entre os 35-45 anos. Se estes “motores das escolas” ficarem abaixo da categoria actual de professor titular, não sei quem é que vai levar isto para a frente... [Ler a entrevista…]
Licínio Lima (pp.14 a 23)

Liderança ou lideranças?

Não acredito em líderes heróicos nas organizações complexas, como é o caso das organizações escolares. Prefiro um líder que se empenhe em induzir a liderança nos outros e nunca me revejo num líder que concentra em si o poder e o protagonismo da mudança. Nenhum sistema de controlo pode ser mais eficaz do que o comprometimento pessoal de cada um dos actores. Um líder que cultive a liderança nos outros sabe que a organização crescerá para além da sua presença ou da sua saída. Ora, não é este líder que é reclamado pelo ECD imposto pelo ME. O ECD imposto pelo ME procura líderes heróicos: Na figura do presidente do conselho executivo e na figura do coordenador do departamento estão representados os líderes mais competentes e com melhor estatuto remuneratório. Ao limitar a liderança escolar a apenas dois níveis de aplicação não é crível que emirja um envolvimento genuíno de todos, tanto mais que se apela a um sistema de partilha concorrencial assente num sistema de incentivos pouco claro e ambíguo [e nem precisamos de ver (ainda está por regulamentar) o novo sistema de avaliação].

Aos motivos que me levam a discordar do ECD imposto pelo ME, junto este: o tipo de liderança que o ECD promove gera entropia e não cria as condições necessárias ao desenvolvimento individual e organizacional.

24 de novembro de 2006

Outro olhar…

Esta semana desafiei um aluno a lançar o seu olhar sobre a disciplina de Educação Física. Ele aceitou e foi suficientemente mordaz, como se pode ler aqui. E acabei com vontade de o convidar a opinar sobre as mudanças em curso, nomeadamente, a proliferação dos cursos profissionais, as aulas de substituição, e as recentes alterações do "clima" de escola [o clima é um bom indicador de qualidade, ou não?].
Bom fim-de-semana.

Adenda: Ontem, logo pela manhãzinha, uma boa parte do professorado começou a sentir náuseas…
Hummm… ficaria muito mais tranquilo se o mal-estar estivesse relacionado com… dores de crescimento.

22 de novembro de 2006

União!

Se há algo que este ME se pode orgulhar é o de ter conseguido juntar na mesma mesa e na mesma luta 14 sindicatos de professores conotados com forças políticas desiguais. Ao beliscar a dignidade dos professores, o ME acabou por conseguir algo impensável antes da discussão deste ECD. De todo o processo negocial este é o facto político mais importante, muitas vezes desvalorizado pelos arautos neoliberais que, percebendo o alcance deste acontecimento, pressentem na força associativa um obstáculo para o avanço das suas políticas.
A fragmentação sindical dos professores tem sido apontada, na escola situada, como uma das causas da degradação da imagem do professorado junto da opinião pública, acabando por servir de álibi para o alheamento de alguns professores pelas lutas da classe.
Chegamos a um ponto de viragem!
Imagino constrangimentos conceptuais, dificuldades organizacionais, feridas que a história abriu e que ainda não cicatrizaram completamente. Conjecturo imensas teses ortodoxas dentro de cada uma das estruturas sindicais. Antevejo, compreensivelmente, hesitações…
Chegamos a um ponto de viragem!
Há que aproveitar o balanço desta luta que já demorou o tempo suficiente para justificar uma reflexão profunda acerca da possibilidade de concretizar a união formal dos 14 sindicatos.
Chegamos a um ponto de viragem?!

21 de novembro de 2006

Poderes políticos medíocres e míopes…

“[…] o estatuto social e profissional do professor degradou-se extraordinariamente nas últimas duas décadas, constituindo um verdadeiro processo de proletarização da função docente. Podem os poderes políticos medíocres e míopes pensar que assim fazem as sociedades poupanças com a educação, que é um investimento social caro. A verdade é outra: é que as sociedades nada ganham com educação sem qualidade, pois tal não significa senão população sem qualidade.
Urge, pois, revitalizar, ao mesmo tempo que a qualidade profissional dos docentes, o seu estatuto social, profissional e remuneratório.”
Manuel Ferreira Patrício (1997). Visão prospectiva para o professor para os anos 2000 In: Formar professores para a escola cultural no horizonte dos anos 2000. Porto Editora.

19 de novembro de 2006

Prestação de contas

A crónica de António Barreto (AB) no Público [19/11/06] vale-se do sistema educativo para fazer um elogio à prestação de contas.
Não considero que este texto do prestigiado cronista reedite [embora subliminarmente isso possa acontecer] a retórica da agenda económica dos discursos gerencialistas, discursos esses que partem do pressuposto de que o aluno é uma matéria-prima da escola e que é a partir dessa matéria-prima que todo o sistema deve ser avaliado. O que se depreende deste texto é que a prestação de contas deve ser feita a uma entidade exterior ao próprio sistema como garantia de independência. “Prestar contas não é apenas mostrar as despesas e as receitas, assim como a honestidade e a falta dela. É também mostrar o que se faz e o que não se faz. Se se fez bem ou mal. Se se fez tudo o que deveria ser feito ou não. Se os resultados são os previstos ou perversos.” A prestação contas que não se confunde com avaliação, procura discriminar avaliados e avaliadores, requer comprometimento.
Não fosse uma pequena incoerência no discurso de AB, subscreveria este texto. Diz AB que “nada muda só por motivos interiores. Não há melhoramentos sem intervenção exterior. […] Ora, enquanto as escolas não prestarem contas a entidades autárquicas, às comunidades e aos pais [..] podemos ter a certeza de que os orçamentos são mal gastos, que a irresponsabilidade reina e que a impunidade é a regra”.
Se a escola deve prestar contas a alguém exterior ao sistema, pergunto se as autarquias, a comunidade e os pais não fazem parte deste sistema? E a quem serve esta escola que exclui a comunidade local?

18 de novembro de 2006

:(

Depois de um apagão repentino que me terá deixado com cara de parvo, recorri ao velhinho portátil para vos dar conta de uma pausa forçada. Na 2ª feira será feito o diagnóstico ao enfermo…
Um bom fim-de-semana.


[Imagem: Office - ClipArt]

17 de novembro de 2006

[Des]Qualificação

O Guia de Orientações dos Cursos Tecnológicos propõe este conjunto de parâmetros de avaliação para os alunos estagiários:
  • INTEGRAÇÃO NA ENTIDADE DE ESTÁGIO
  • APREENSÃO DOS CONHECIMENTOS
  • APRENDIZAGEM DE NOVOS CONHECIMENTOS
  • INTERESSE PELO TRABALHO QUE REALIZA
  • RAPIDEZ NA EXECUÇÃO DO RABALHO
  • QUALIDADE DO TRABALHO REALIZADO
  • SENTIDO DE RESPONSABILIDADE
  • AUTONOMIA NO EXERCÍCIO DAS SUAS FUNÇÕES
  • FACILIDADE DE ADAPTAÇÃO A NOVAS TAREFAS
  • RELACIONAMENTO COM A CHEFIA
  • RELACIONAMENTO COM OS COLEGAS
  • RELACIONAMENTO COM OS CLIENTES
  • ASSIDUIDADE E PONTUALIDADE
  • CAPACIDADE DE INICIATIVA
  • ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO
  • APLICAÇÃO DE NORMAS DE SEGURANÇA E
  • HIGIENE NO TRABALHO
Dos parâmetros sugeridos pela tutela, noto que as questões da formação profissional não dispensam o sentido educativo. A autonomia, o relacionamento, a iniciativa, a assiduidade e pontualidade, a integração no contexto, enfim, aspectos de natureza sócio-afectiva que dão esse sentido educativo à formação. Só não percebo a razão dos discursos oficiais que insistem em diluir as questões da educação ao problema do desenvolvimento de competências. Não percebo como é que o discurso da qualificação dos alunos possa ser reduzido ao problema da formação profissional.

16 de novembro de 2006

“Fast-food” lectivo

Os alunos da minha escola decidiram protestar contra as aulas de substituição. Não se trata de uma greve [não quero corroer o termo] precisamente porque o protesto é ilegal e não se limitou às aulas de substituição, já que se estendeu às restantes actividades escolares. A acção dos alunos pareceu determinada e foi pacífica o que contrastou com aquela notícia que dava conta de uma acção semelhante numa outra escola do país e que exigira a intervenção das forças de segurança. Por aqui as portas continuam abertas, alguns alunos vagueiam pela escola, outros recolhem alguns haveres nos cacifos individuais para regressar a casa. Alguém dizia acertadamente [não me lembro quem ;)] que todos temos o direito à indignação: Os alunos não estão satisfeitos e os professores também não…
Alunos e professores [presumo que os encarregados de educação estão devidamente informados] estão de acordo quanto à inexequibilidade desta medida. Por um lado, não é possível formar uma bolsa de professores em cada área disciplinar para suprir as ausências ocasionais. Por outro lado, as actividades educativas exigem, de igual modo, tempo para o planeamento e preparação. Já ouvi exemplos de escolas que se organizaram no sentido de preparar estas actividades de modo a reduzir este tempo, servindo-se das temáticas da educação para… a saúde, ciência, cidadania, ambiente, educação para isto e para aquilo. A ideia é deixar ao professor um conjunto de materiais do tipo “fast-food”, previamente elaborados por uma equipa de trabalho criada para o efeito, para serem consumidos pelos alunos durante esse tempo. Espera-se do professor versatilidade, domínio de técnicas de persuasão e… obesidade [intelectual].
Resta saber qual é o preço a pagar pelos abusos.

Adenda: Última alteração do ECD – 15 de Novembro 2006

14 de novembro de 2006

Escola minimalista…

Alguém questionava a inexistência de uma visita de estudo para o corrente ano. Antes de se fazer ouvir um comentário do professor, choveram ideias de locais e entidades apelativas. Todas interessantes, todas susceptíveis de induzir os alunos a aplicarem conhecimentos, todas capazes de provocar a motivação para as temáticas da disciplina.
Presumira o aluno que houvera esquecimento e que o professor se teria descuidado. Afinal, o problema fora reduzido a uma simples conta de merceeiro: O tempo de escola do professor não chegaria para dar uma volta ao primeiro quarteirão da cidade. Não chegaria sequer para planear a visita e fazer o respectivo relatório.
Eles perceberam e conformaram-se! O que é uma pena!

Racionalização de meios, digo eu!

12 de novembro de 2006

Medalhas de cortiça? Ou a cenoura? …

"Prémio Pitágoras vai premiar bons professores da disciplina

[...] Porque não premiar aquele professor de Matemática que tem as melhores práticas pedagógicas? Ou o outro que a associação de pais sabe que dá aulas de uma qualidade excepcional? Ou o que os alunos adoram? Ou o que os outros professores reconhecem ser o que obtém os melhores resultados? [...]" In: Público (12/11/06)


E se antes de ser anunciado o prémio se explicitasse o que é um bom professor?
Hummm… vou escolher a primeira hipótese: Será que aquele professor de Matemática que tem as melhores práticas pedagógicas e não satisfaz a associação de pais que considera que ele não dá aulas de qualidade, e os alunos detestam, e os outros professores não reconhecem ser o que obtém os melhores resultados [presumo que a notícia se refere aos resultados dos alunos], tem direito ao prémio?

11 de novembro de 2006

A ponte…

A questão da violência em contexto educativo [familiar e escolar] é complexa porque cruza formas directas e indirectas [1]; é interessante sob o ponto de vista analítico, suscitando inúmeras incursões académicas - teses de mestrado e doutoramento -; é inquietante porque nos coloca nos papéis de agente e de vítima potencial da sua proliferação.

Um registo de conflituosidade caracteriza alguns discursos dirigidos às relações entre a escola e as famílias. São assinaladas barreiras, enfatizadas as desconfianças, o que traduz uma necessidade perversa de procurar “bodes expiatórios” para legitimar fragilidades de um e outro agente educativo. Com a violência sucede exactamente o mesmo o que exige da nossa parte algum bom senso para adoptarmos uma atitude afirmativa face ao problema. É isto que se pretende com a Educação para a nãoviolência.
Clarificando o conceito, podemos afirmar que a Educação para a nãoviolência tem como sinónimo a Educação para a paz. O objectivo é desenvolver uma cultura de nãoviolência que ajude as pessoas a olhar criticamente a realidade, a situar-se nela, a resolver os conflitos de forma não violenta, e que favoreça o desenvolvimento pessoal numa direcção positiva. A nãoviolência não é apenas a simples negação da violência, é muito mais: é uma maneira de pensar, uma forma de entender o homem e as suas relações, uma maneira de actuar, etc. É, definitivamente, uma filosofia de vida.
A nãoviolência não é um património da escola. É, atrevo-me a afirmá-lo, a principal ponte entre a escola e a família.

De que é que estamos à espera?

[1] A violência pode entender-se de duas formas: violência pessoal ou directa – situação em que uma pessoa comete um acto violento; violência estrutural ou indirecta – quando a violência precede a estrutura social e afecta a distribuição desigual de poder, recursos, oportunidades, relações, etc. e, definitivamente, cria uma situação de injustiça social. (Mosquera Conzález e col, 2000)

10 de novembro de 2006

Cá, como lá…

“[…] Vários especialistas internacionais estão reunidos na cidade espanhola de Valência a analisar até amanhã o assunto "Família e Escola: um espaço de convivência".
Os participantes no encontro, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas, o que obriga a "um esforço conjunto da sociedade. […]”
In. Público 10/11/06
O debate que se está a produzir neste momento em Espanha - a crise de autoridade familiar na origem do aumento da violência escolar – transferido para o nosso pequeno rectângulo seria uma pedrada no charco na campanha de degradação da imagem do professor, campanha essa motivada pela criação de condições para a anuência pública da revisão [em baixa] do ECD . Deslocar para fora da escola a origem de alguns problemas educativos, num momento de discórdia marcada entre os professores e o ME, significaria debilitar uma clara estratégia de isolamento da classe profissional na opinião pública. Por este facto, é que não espero qualquer reacção do ME e da CONFAP acerca desta problemática, até porque seria necessário reconhecer-se, em primeiro lugar, que ela existe por estas bandas. Ora, como não aparece na imprensa um estudo científico que questione a crise de autoridade familiar no oásis em que vivemos, o problema continuará circunscrito à vizinhança…

Bem, não sei se hei-de rir ou chorar… ;)

9 de novembro de 2006

Associação Portuguesa de Doentes com Fibromialgia

Respondo prontamente ao apelo da Teresa… há que divulgar este post!

"09 Novembro 2006

Atendendo a que está a ser cada vez maior o número de Doentes que são remetidos pelas Juntas Médicas a que são sujeitos para retomarem a sua actividade laboral em estado deplorável de incapacidade e atendendo também que quase nunca essa actividade coincide com as possibilidades físicas de um Doente Fibromiálgico, está a ser maior o número dos casos em que os mesmos não conseguem prosseguir essa actividade, vendo-se obrigados a desistir, sem qualquer subsistência económica ou qualquer tipo de apoio social.
São já inúmeros os casos de Doentes que sobrevivem à custa da caridade de familiares e amigos, sob um clima de elevada frustração e vergonha, para quem tanto trabalhou durante tantos anos para todos os outros, esquecendo-se de defender a sua própria saúde, (característica desta patologia) e vendo-se sujeito, depois de tantos anos de trabalho e descontos para o Estado, a pedir esmolas a quem não tem o dever de as sobrecarregar.
Até quando esta vergonha???
Acaba de acontecer um caso grave que a APDF não poderá calar nem deixar impune! Mobilizaremos todos os nossos esforços para que os responsáveis assumam a responsabilidade do que acaba de acontecer!
Um nosso Sócio, funcionário da construção civil e Doente Fibromiálgico há muitos anos, acaba de ser apresentado a uma junta médica, já como recurso. Foi OBRIGADO a apresentar-se ao serviço no dia seguinte!
1º dia de trabalho: Desmaiou ao fim de duas horas; 2º dia de trabalho: com muito custo, aguentou até duas horas antes do términus do dia, tendo já, com a autorização e compreensão da entidade patronal (o que nem sempre acontece); 3º Dia de trabalho: mal se mantendo em pé, teve uma vez mais a compreensão da entidade patronal, fazendo o seu máximo e o seu melhor; 4º dia de trabalho: logo na primeira hora da manhã de trabalho, ficou com o braço esquerdo preso numa máquina, tendo ficado sem a totalidade do seu dedo polegar, uma fractura do indicador e uma atrofia muscular em todo o braço. Para a melhoria desta atrofia, seria necessária uma fisioterapia adequada, para a qual está a ser extremamente difícil porque colide com as dificuldades da Fibromialgia, provocando dores insuportáveis no Doente.
..."

Quem quiser ler alguns testemunhos de doentes com fibromialgia, veja aqui. Será mais fácil entender o sofrimento que se pode ter.
  • Porque a fibromialgia é uma doença reconhecida há poucos anos;
  • Porque ainda há médicos que não dão importância à doença;
  • Porque é preciso lutar contra situações como as referidas no artigo da APDF;
  • Porque é preciso informar as pessoas e dar a conhecer a doença.

8 de novembro de 2006

Flexibilizar…

Apesar de respirar [é mesmo esta a expressão adequada] alguns dos problemas que afligem os professores, ainda não me senti sufocado com o espartilho horário e funcional imposto pelas recentes orientações do ME. Duas razões justificam a aparente serenidade em que me encontro:
  • A “excentricidade” dos cursos tecnológicos que me permite leccionar 3 áreas [disciplinares e não disciplinares] em simultâneo e que, cumulativamente, absorvem 18 horas lectivas do meu horário semanal;
  • A proposta do departamento disciplinar, legitimada pelo conselho pedagógico e ratificada pelo conselho executivo, que reclama a autogestão das horas relativas ao trabalho de escola.
Este estado atípico é, paradoxalmente, instigador de maior responsabilidade. Não me limito a cumprir uma função ocasional [uma substituição por exemplo] num tempo predeterminado, prefiro prestar contas pelo cumprimento de um plano de actividades, previamente avaliado pelo órgão de gestão, mesmo que esse plano exceda, como normalmente acontece, o tempo que à priori lhe havia reservado. A flexibilização do espaço e do tempo de trabalho do professor está nos antípodas das orientações prescritivas que estupidificam a função docente.

É um facto inquestionável que a rigidez da organização escolar piramidal, CENTRALIZADA e subversiva, facilita o controlo e a inspecção. Só que o formato perverte o sistema. Ao invés de ser a inspecção a ter de encontrar instrumentos de avaliação adequados à singularidade da escola, é a escola que se molda aos instrumentos de avaliação. E esta improficiência do modelo – “pronto-a-vestir” – desresponsabiliza em vez de comprometer a iniciativa e a criatividade dos professores…

Bem, não sei se hei-de rir ou chorar…

7 de novembro de 2006

…

O discurso repetitivo e incoerente da Ministra da Educação deixa-me entediado. É um discurso que não resiste às críticas que lhe são dirigidas, refiro-me concretamente às que apontam a iniquidade da proposta de revisão do ECD e falta de justeza dos motivos, e que por isso não merece ser levado a sério.

Enquanto persistir a toada, não estou disposto a dar guarita à propaganda!…

O todo!

O Henrique apela e bem à resistência. Aqui e ali à força… com a velocidade que o tempo impõe. O meu desejo é que a flexibilidade não abandone as outras três capacidades, para que o movimento seja coerente e cadenciado.
Nesta luta, o todo será maior que a soma das partes!


[Adenda: A coordenação… Sem ela, o todo seria sempre menor do que a soma das partes. Obrigado pela achega, Henrique.]

Que a diferenciação [cinestésica] das medidas tenha como referencial a singularidade e a orientação [espacial] dos sujeitos. Que o ritmo das mudanças e a imprescindibilidade de rupturas no equilíbrio do sistema não tenha como consequência o esmorecimento da reacção dos actores.
Nesta luta, o todo será maior que a soma das partes!

6 de novembro de 2006

Alerta vermelho!

O primeiro terço do ano lectivo está prestes a esgotar-se. Falta pouco mais do que um mês para um balanço inicial da aplicação das medidas “inovadoras” que o ME introduziu no sistema, nomeadamente, o prolongamento das actividades educativas nas escolas do 1º ciclo, o plano de acção para a Matemática, o Desporto Escolar e as aulas de substituição. Cada escola deve pronunciar-se, no âmbito das suas estruturas pedagógicas mesmo que o ME não o requeira, sobre o modo como interpretou as determinações superiores, e a entropia expressa no clima escolar. Para além de uma referência objectiva aos ganhos e às perdas de qualidade das práticas, é essencial fazer um levantamento dos casos de burnout.

Perguntar-me-ão o que fazer com o relatório da situação. Não consigo abarcar as possibilidades desse trabalho. Mas estou certo de que os princípios inerentes à colaboração e ao fortalecimento dos professores sairão reforçados no final deste exercício.

"Gracias profesorado, sin vosotros no seria posible" (1)

À epígrafe subjaz uma das muitas diferenças que explicam como, tão perto, estamos tão longe. Foi escolhida pela Consejeria de Educación da Junta de Andalucia, da vizinha Espanha, para lema de uma campanha na imprensa, rádio e televisão, visando prestigiar, reconhecer e valorizar socialmente a profissão de professor.
A Consejeria está para o governo autonómico da Andaluzia como o nosso Ministério da Educação está para o governo do país. A sua titular, consejera (ministra) Cândida Martinez, considerou o conjunto dos 112.000 professores sob sua tutela "o elemento central do sistema educativo" e quis, com esta campanha, "agradecer em nome de toda a sociedade o trabalho que, em cada dia, realizam estes docentes" nas suas escolas.
É caso para dizer, ironicamente: lá, como cá! Lá, 20 anos de adesão à Europa transformaram a Espanha numa das 10 maiores economias mundiais e 45 milhões de habitantes em cidadãos. Apesar do atraso, da presença de nações distintas e dos antagonismos linguísticos. Aqui, primeiro-ministro, ministra da Educação e sequazes, tudo têm feito para dividir os 10 milhões de habitantes em bons e maus, produtivos e vilões. Porque a cidadania é escassa, o populismo destes pequenos políticos resulta e espelha-se nos fóruns da TSF e Antena 1, nos correios dos leitores da imprensa escrita e nos comentários dos blogues. Os professores são hoje, infelizmente, para muitos portugueses invejosos e pouco esclarecidos, os novos párias da sociedade.
O anunciado prolongamento das negociações entre a plataforma sindical e o Ministério da Educação sobre o estatuto dos professores está obviamente condenado ao insucesso. Os sindicatos reclamaram-no para não serem acusados, mais do que já são por alguns, de intransigência. O ministério aceitou-o porque a lei assim obriga. Ambos sabem que o resultado vai ser nulo. Mas o tema justifica algumas considerações, entre tantas possíveis, que ofereço à reflexão de quem pensa que os sindicatos não passam de forças de bloqueio e os professores de desavergonhados privilegiados.
Para reunir cerca de 30.000, vindos de todo o país em dia feriado, e conseguir uma adesão da ordem dos 80 por cento a dois dias de greve, tem de haver um número esmagador e bem superior de professores descontentes. Esta realidade está bem para além da influência do PCP ou dos sindicatos. Significa uma ruptura absolutamente única entre o corpo docente e o Ministério da Educação.
Pouco importa que o primeiro-ministro, alardeando insensibilidade política e sobranceria pessoal, fale de humor quando devia aproveitar, democraticamente, para reflectir sobre a natureza da mensagem. Pouco importa a boçalidade das gargalhadas da ministra quando interrogada sobre o facto. Os atentos sabem que não há concerto possível para esta política de reformas, que assenta no ataque a determinados grupos profissionais, instigando terceiros contra os "privilégios" por aqueles adquiridos.
Falemos de "privilégios". Qual é o vencimento liquido dos professores, depois de 16 anos de estudo, pelo menos, a que acrescem formações periódicas obrigatórias, pós-graduações, mestrados e doutoramentos em número já significativo, pagos do próprio bolso? Em inicio de carreira são cerca de 760 euros, 1000 ao fim de 13 anos de serviço, 1400 ao fim de 23 anos de trabalho. Com 30 anos de serviço chegam aos 1700 euros. Será isto escandaloso?
O impacto da diminuição salarial proposta pelo Ministério da Educação, projectada ao longo da carreira, chega a atingir verbas da ordem dos 300.000 euros. Não deverão os professores lutar por estes "direitos adquiridos"? Para justificar esta rapina, os novos justiceiros falam de justiça social. Estranha maneira de fazer justiça, radicada no cortar, no diminuir e no vilipendiar os que já têm algo. Por que não escolhem aumentar os que têm menos, em vez de lhes alimentar ressentimentos? Que progresso é o deste país, que anda para trás em nome da justiça social?
Qualquer professor tem 35 horas de serviço semanal, como qualquer funcionário público. As 13 dessas horas que não são de aulas são insuficientes para realizar as tarefas que cabem a um professor. Por favor, peço aos portugueses mais distraídos que façam alguns exercícios fáceis. Estejam atentos ao próximo teste que os vossos filhos levem para casa. Leiam-no e reescrevam as anotações que os professores lá exararam. Pensem que ter 200 alunos é uma média corrente. Se o professor fizer dois testes por período e gastar 15 minutos a corrigir cada um, necessitará de 100 horas. Quer isto dizer que lhe sobram 50 horas, nesse período de três meses, para reuniões na escola, preparar lições, atender pais, etc., etc. Onde vai esse tempo?
Por favor, preencham duzentas daquelas fichas idiotas que os professores têm que preencher. Cronometrem o tempo.
Experimentem um só dia espreitar para o interior de uma escola, daquelas em cujas imediações a policia apreendeu, desde o inicio do ano lectivo, 1159 doses de heroína, 1406 de cocaína e 3358 de haxixe. Não falhem uma daquelas onde há rapazinhos com pulseiras electrónicas no tornozelo.
Se não mudarem as ideias sobre os privilégios dos professores, digam-me, que eu sugiro mais exercícios, de tantos que poderão clarificar o que é ser professor, hoje, em Portugal.


(1) Santana Castilho
Professor do ensino superior
[in: Público 6/11/06]

5 de novembro de 2006

Conversas de domingo…

A Isabel [presumo que o seu anonimato na entrada anterior não foi mais do que uma pequena desatenção ;)] lança um desafio: pede-me que esclareça em que tipo de sublevação Brecht me fez pensar. Pois bem, evocar Brecht é apontar um caminho sério, sem fingimentos. Das suas palavras emerge um homem desiludido mas nunca irremediavelmente perdido. É um homem livre e com esperança.
Será que preciso de mais motivos para o recordar?

"Este homem sabia elaborar um plano, e caiu. Estroutro
Mostrou coragem, e caiu. Quanto a nós, congratulamo-nos
Com o plano e com a coragem, e choramos.

Alegrámo-nos porque eles se batiam
E choramos porque eles caíram e não
Porque eles se bateram.
Ah, nem todo o homem que regressa a sua casa é um vencedor
Mas não há vencedor que não regresse a sua casa."

Bertolt Brecht

Quem é o teu inimigo?

O que tem fome e te rouba
O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo
Mas não saltas ao pescoço
Do teu ladrão que nunca teve fome

Bertolt Brecht

4 de novembro de 2006

Ronda pela impensa

Fiquem atentos ao blogue do Rui Tavares – Vale a pena ler o texto que ele deixou hoje no Público…

[Enquanto o texto não é importado para o seu blogue, aqui fica um excerto]

"A grelha queimada
Rui Tavares

"geração rasca" está mais velha e o mesmo jornal que celebrizou o termo - este mesmo onde escrevo - trazia há dias uma notícia curiosa. Segundo o PÚBLICO, o número de artigos assinados por portugueses nas revistas-padrão do mundo científico, a Nature e a Science, ultrapassou as quatro dezenas no último ano, ou seja, a Nature e a Science publicaram mais artigos de portugueses no último ano do que em toda a história de ambas as revistas. Os números não estão pormenorizados por idade dos cientistas, mas como a quase totalidade dos nomes de portugueses não aparece (ainda) como primeiro autor dos textos, a conclusão natural é a de que se trata de investigadores "júnior", ou seja, em torno dos 30 anos. Aposto que, se fôssemos a olhar mais de perto, descobriríamos que grande parte destes cientistas fez os seus estudos durante os anos 80 e 90, precisamente aqueles que a opinião dominante considera terem sido de "terra queimada" na educação. Estão de parabéns os autores dos artigos e muito em particular um cientista que, tanto quanto me lembro, nunca acreditou na tese da "geração rasca", José Mariano Gago.
Por que não foi esta notícia mais comentada pelos colunistas que costumam escrevem sobre educação básica, ensino superior e investigação? A resposta pode estar naquilo a que a ciência cognitiva chama de "enquadramento" (framing), mas que é já de há muito conhecido sob outras versões, como a de "grelha de leitura". Ora acontece que, quando temos uma grelha de leitura muito vincada sobre um tema, ela tende a anular os factos que a contradizem, mesmo que eles estejam debaixo do nosso nariz. É isso que se passa com o debate sobre a educação em Portugal, de tal forma dominado ideologicamente que não há facto contraditório que sobreviva ao rolo compressor da "terra queimada". Talvez por isso uma notícia destas não mereça comentário: se a geração rasca é assim tão rasca, como é que publicam nas revistas de referência internacionais como nenhuma geração de portugueses antes dela o fez? […]"

ECD… o Contra

No início da tarde, participei num programa de uma rádio local que versava o tema da revisão do ECD. Fui acompanhado por dois colegas, uma dirigente sindical e o presidente do conselho executivo da minha escola, que participou no debate na sua qualidade de professor e não como representante da tutela.
Se há tempos atrás criticava o facto de ter assistido a um debate televisivo que ficará conhecido como o programa do Prós, hoje terei de admitir, o programa em que tive a oportunidade de participar foi um programa do Contra. Se tivesse o auditório da RTP1, o tempo de antena que lhe foi destinado, e pudesse recuperar a oportunidade do momento em que o Prós foi para o ar, diria que uma mão lavou a outra. Mas não foi isto que aconteceu. E não imagino quantos programas teriam de ser realizados para reparar os efeitos perversos que o Prós gerou… mais vale tarde….

Nota: Têm sido inúmeras as ocasiões em que divirjo das opiniões do presidente do conselho executivo da minha escola: Pelos papéis que desempenhamos, pelas visões de escola porventura distintas, pelas crenças que nos influenciam, pelos lugares de onde nos situamos para lançar um olhar para o mundo. Será justo dizê-lo, hoje demonstrou uma grande coragem em assumir publicamente as suas opiniões pessoais, tanto mais que sabia à priori, que elas se afastariam das posições oficiais. Um bem-haja!

2 de novembro de 2006

Mercado sem regras… (versão minimalista)

Como ocupo o meu Tempo de Escola [tempo de escola?... então, o tempo que dedico aos meus alunos durante as actividades lectivas é um tempo de quê?] com actividades de outro calibre, não tenho pensado muito nas aulas de substituição. Ouvi dizer de fonte fidedigna que não são bem aulas nem tempos de entretenimento, que são coisa séria, que são explicações do mesmo tipo das que se pagam no mercado paralelo. Bem, se a ideia é combater as explicações do mercado paralelo, então porque razão sujeitam os explicadores na escola pública a trabalho em condições desvantajosas? É que não conheço nenhum centro de explicações que imponha a um explicador mais de vinte alunos por hora. O mínimo que se pode exigir é que as regras do mercado sejam claras e justas. Ou não?

Bem, não sei se hei-de rir ou chorar…

1 de novembro de 2006

Reverências ou tendências?…

Eduardo Cintra Torres tem aclarado com competência o funcionamento da máquina de propaganda deste governo e o modo como a comunicação social amplifica as notícias agradáveis. Percebe-se que o poder político se sinta atraído pelo poder da comunicação e que procure extrair proveitos dessa relação. Quase todos os governos o tentaram fazer, embora nem todos creditassem benefícios. Este namoro de conveniência exige da comunicação social uma atitude de constante vigilância para que o seu papel tenha relevância social, atendendo a que é muito ténue a fronteira entre a perversidade e a transparência na coabitação. Os constrangimentos de recursos e a escassez de meios para cobrir o fluxo informativo colocaram a fasquia dos objectivos da comunicação social no seu nível mínimo: a lealdade. E não é uma utopia, a meu ver, apelar à neutralidade no modo como se elegem as notícias, no destaque ou na indiferença pelos acontecimentos, na forma como se reconstrói a realidade, na mostra ou não do contraditório, na montra diversa de convicções nos artigos de opinião. E quando as diferenças de qualidade nos órgãos de comunicação passam a ser determinadas por critérios deontológicos, é um sinal inequívoco de que a comunicação social se encontra numa fase de purgação. E como eu gostaria de ver outros critérios de apreciação do trabalho dos jornalistas. Detesto duvidar da seriedade dos profissionais que me trazem uma parte da informação que consumo. Mas, por outro lado, este sinal de definhamento da democracia acaba por ser relativizado pela emergência da blogosfera que é um amplo espaço alternativo de informação, de liberdade e de cidadania. Valha-nos isso.

Nota 1: Vem a propósito este artigo de opinião de um jornalista do Jornal de Negócios [de uma pobreza argumentativa confrangedora] onde o seu autor apela aos leitores para que deixem a ministra da educação trabalhar e que lhe dêem uma nova oportunidade.
Nota 2: Vem a propósito este editorial do DN.

Bem, não sei se hei-de rir ou chorar…

30 de outubro de 2006

Dilemas...

O ECD em vigor e a proposta de revisão coerciva do ME apelam a um profissional reflexivo. O conteúdo funcional do professor requer um profissional que desenvolva competências pessoais, sociais e profissionais para conceber respostas inovadoras às novas sociedades do conhecimento; Reclama do professor uma fidelização às orientações de política educativa num quadro de formação integral do aluno. Exige responsabilidade profissional e autonomia técnico e científica, assente numa lógica de participação activa na comunidade escolar, na comunidade local e com outros parceiros educativos.
  • Com que direito o docente se pode opor a políticas de educação, quando é um assalariado, obrigado pelo estatuto [como referi atrás] a respeitar as orientações de política educativa, resistindo a reformas democraticamente decididas por um poder legítimo?
  • Em que medida o docente se pode considerar livre de se demitir do que se lhe requer, quando essa exigência lhe parece contrária aos seus valores ou que o que se lhe pede está para além das suas forças?
  • Qual é a fronteira entre uma perspectiva individualista, confundida muitas vezes com uma perspectiva estritamente sindical e que pode ser entendida, pela opinião pública e pelos próprios, como uma defesa de regalias e interesses meramente pessoais, e uma perspectiva altruísta, que visa defender a cultura, os interesses e a formação integral dos alunos, e o serviço público?

29 de outubro de 2006

28 de outubro de 2006

Sugestão de leitura

Olhe que vale a pena ler este texto do crack!

Adenda: As técnicas da nova propaganda (2) - Continuação do artigo de opinião da semana passada do Eduardo Cintra Torres.

É um projecto é!

Na página da DGIDC o destaque é o projecto é! Depois de ler a sinopse do projecto fiquei convencido de que se trata de mais uma iniciativa redundante do ME. "O Projecto é! é um projecto de acção global da escola de educação para o empreendedorismo. A Educação para o empreendedorismo é!: Educação transversal para a vida; centrada na acção; focalizada no processo e nos resultados; coerente e constante; integrada multidisciplinarmente; contextualizada; auto-construída pelos/as alunos/as."
O projecto é! é, a meu ver, mais um apelo à faceta utilitarista da escola. Depois da promoção dos cursos profissionalizantes que visam a mão-de-obra qualificada, era necessário promover as competências-chave e o espírito empreendedor para os gestores do futuro: “Autoconfiança/Assumpção de riscos; Iniciativa/ Energia; Resistência ao fracasso; Planeamento/Organização; Criatividade/Inovação; Relações interpessoais”.

A linearidade do pensamento dos decisores políticos é confrangedora: Penso num problema social, económico, ecológico, ético, estético,… crio uma comissão que engendra um projecto, nasce um plano para ser aplicado na escola - uma educação para…. , faço uma apresentação pública com mais ou menos pompa e circunstância, envio às escolas uns prospectos e informações com mais ou menos detalhe,… e espero pelos resultados… e como não tenho tempo para esperar porque sou uma pessoa muito ocupada e a minha função é de curto prazo, o melhor é regressar para o gabinete porque o mundo reclama a minha presença… e os meus projectos.

Que triste sina…

26 de outubro de 2006

Discursos da treta...

Adenda: A imagem que já se encontrou aqui, à esquerda, foi desviada para outra entrada...

25 de outubro de 2006

Conversa da treta…

Foi através do blogue Ensinar na Escola que li um excerto da entrevista do Nuno Crato (NC) ao www.educare.pt. Do diagnóstico dos problemas da Educação, NC destaca “o centralismo ministerial que retira às escolas a possibilidade de contratarem os melhores professores, arranjarem soluções adequadas às suas especificidades, etc.”
Não vou questionar o “modus operandi” da selecção de professores que NC advoga, nem o sistema de competição das escolas pelos “melhores professores”, nem tão-pouco me irei interrogar se há algum aluno que mereça ser contemplado com um mau professor [presumo que na hierarquia dos professores seleccionados alguém teria de ficar no fundo da tabela mesmo admitindo que muitos dos maus professores fossem excluídos do sistema].
O que me interessa destacar desta afirmação é uma incoerência de fundo que convém esclarecer, sob pena de NC poder ser acusado de adoptar o mesmo tipo de discurso que ele próprio repudia e que legitimou a edição do seu livro “Eduquês”:

É que o tipo de ideologia que produz situações de competitividade e de selecção entre escolas, professores [e na mesma linha, os alunos], resultam numa recentralização do poder de decisão sobre as escolas (político-administrativamente), ao invés da realização do tão proclamado princípio da descentralização e da autonomia.
O apelo a mais exames, mais avaliação, mais avaliação externa do tipo contábil, mais formas punitivas, mais vigilância, exige modelos positivistas e formas de organização universais que não admitem diversidade de processos e de referências contextuais. E neste sentido, onde está a autonomia?

Adenda: O ECD da Sra. Ministra - versão apressada

Ufffa...

... 35 horas? Pois...

Tal e qual como cá!!!!

Educación difunde una campaña para reconocer y prestigiar socialmente la profesión docente
GINÉS DONAIRE - Jaén

La Consejería de Educación pone en marcha desde hoy martes en prensa, radio y televisión una campaña de apoyo al profesorado con el objetivo primordial de "reconocer, valorar y prestigiar socialmente la profesión docente", según dijo ayer en Jaén la consejera Cándida Martínez. La campaña, que va dirigida a los 112.000 profesores que ejercen en la comunidad, lleva el lema Gracias profesorado, sin vosotros no sería posible, porque, a juicio de la consejera de Educación, el profesorado "es el elemento central del sistema educativo". Por eso, añadió, otro de los objetivos que se persiguen es "agradecer en nombre de toda la sociedad el trabajo que cada día realizan estos docentes en los colegios y en los institutos".

Martínez desvinculó la puesta en marcha de esta campaña con las agresiones a profesores y la conflictividad en las aulas durante el último curso. Tras recordar que hace algunos años ya se hizo otra campaña similar, la consejera precisó que se trata de dar cumplimiento a uno de los acuerdos suscritos en el llamado Acuerdo por la Educación en Andalucía, que la Junta rubricó con los sindicatos CC OO, UGT y la Confederación de Empresarios de Andalucía, un pacto que también trajo consigo el plan de salud laboral en el que se recogen medidas específicas orientadas a aquellos profesores que puedan tener algún problema en el aula.

Ahora bien, Cándida Martínez admitió que "se tiene que valorar más a los profesores" y se mostró satisfecha si esta campaña "sirve para aumentar la autoestima" de los docentes. La consejera destacó el interés de la Junta por "poner soluciones para erradicar la violencia en las aulas", para lo que demandó "la implicación de las familias y de toda la comunidad educativa en su conjunto".

En relación a las denuncias de los docentes por agresiones, Martínez aseguró que la Consejería de Educación "es la única que está registrando las incidencias que se producen en los centros escolares andaluces" -lo hace a través del programa Séneca- y destacó las medidas de apoyo jurídico al profesorado en el caso de que puedan ser objeto de agresiones en el ejercicio de su actividad docente.

La consejera sintonizó con la opinión de la ministra de Educación, Mercedes Cabrera, que, este domingo, en una entrevista en El PAÍS, decía que tendrá "mano dura" contra la violencia escolar. Cándida Martínez destacó las iniciativas puestas en marcha en este sentido por la Junta, como el decreto de derechos y deberes del alumnado, el Plan de Cultura de Paz, medidas de apoyo al profesorado, así como el incremento de 34 nuevos mediadores y orientadores sociales "para mejorar la convivencia en lo centros escolares", dijo.

In: EL PAÍS - 10-10-2006

24 de outubro de 2006

Abaixo-Assinado

PLATAFORMA DE SINDICATOS DE PROFESSORESExcelentíssimos Senhores
Presidente da República
Presidente da Assembleia da República
Procurador-Geral da República
Primeiro-Ministro
Ministra da Educação

NÃO À CHANTAGEM, SIM À NEGOCIAÇÃO!

Os professores e educadores abaixo-assinados consideram que a proposta entregue pelo ME à Plataforma Sindical que congrega as organizações representativas dos docentes, não só não introduz alterações significativas em nenhum dos domínios que têm conduzido à luta esta classe profissional, como constitui uma intolerável intromissão na livre capacidade de organização e funcionamento das suas estruturas sindicais.
Condicionar ligeiras alterações das suas propostas - sob a ameaça de retomar posições anteriores - ao compromisso dos sindicatos travarem a conflitualidade e a luta, de que as propostas do ME têm responsabilidade exclusiva, é uma inqualificável atitude de chantagem sobre os docentes e uma ingerência directa e arrogante na própria vida sindical. Esta é uma atitude imprópria do Portugal democrático em que vivemos e não se coaduna com o sentido de Estado exigível a qualquer governante, pelo que merece não só a repulsa como a denúncia activa de todos os educadores e professores portugueses.


Assinar online
__________________

Assinatura (formato papel):
Nas escolas dos 2º/3º ciclo e Secundárias, sugiro que o abaixo-assinado circule por grupo/departamento. Para que ninguém fique esquecido [inclusivamente, os mais distraídos… ;)], bastará um ou dois colegas entusiastas e um colaborador em cada grupo/departamento.

...

Lembro uma passada incerta que mal disfarçava o desassossego. Queimava os cigarros sofregamente. E foram muitos. Não se pode falar de um parto fácil até porque o planeado não fora cumprido integralmente… Eis que a tomei nas mãos, e vi a imagem mais bonita que a minha memória inscreveu.
Quando regressares da escola, dar-te-ei um abraço ainda mais demorado.
Parabéns princesa.

23 de outubro de 2006

Equidade ou a falta dela

O problema da repetição do exame à aluna que entregou uma providência cautelar depois de a tutela ter permitido que os alunos pudessem repetir as provas de Química e Física na segunda fase de exames devido aos maus resultados registados na primeira fase, não se resolverá apenas com a repetição dos exames aos restantes alunos que correram atrás de providências cautelares por todo o país.
E os outros alunos cujos encarregados de educação não tiveram as mesmas condições de acesso à justiça? Quem é que os defende?

22 de outubro de 2006

Spam político…

"A primeira técnica da nova propaganda é criar uma central. Santana Lopes caiu no erro, felizmente, de anunciar a sua criação. O Governo de Sócrates não caiu no erro de anunciar - e criou-a. Os seus principais responsáveis estão nos gabinetes, mas mantêm-se na sombra. Como referiu António Barreto (PÚBLICO, 15.10), Sócrates tem "ao seu serviço (...) uma imbatível organização de comunicação" e "a organização da propaganda e das relações públicas, servida por centenas de profissionais, tem-se revelado impecável".
[…]
A segunda técnica da nova propaganda é a do encharcamento dos media com informação. O Governo produz diariamente "agenda" que ocupa tempo dos jornalistas - não lhes permitindo investigar outras coisas - e espaço e tempo nos conteúdos mediáticos. Para conseguir a eficácia deste agendamento - isto é, o controle da importância hierárquica das notícias - o Governo necessita de controlar a marcação da cobertura e atenção mediáticas. Noutro Governo, Jorge Coelho fazia-o através da TSF. Agora, a Lusa é, neste domínio, de capital importância. Controlar a agenda pela Lusa pode significar a inundação dos outros media com informação governamental, deixando de fora acontecimentos previstos que não interessa ao executivo noticiar.
[…]
Uma terceira técnica da nova propaganda visa "tapar" notícias que desagradem ao Governo. A oposição tem previsto fazer isto ou aquilo? O Governo anuncia uma medida qualquer, mesmo que fora do tempo. Os sindicatos fazem greve de grande impacto? Arranja-se uma manchete importante para esse dia, de forma a encher os noticiários e a esvaziar da agenda outros órgãos do Estado, a oposição ou a sociedade civil. Dado que o Governo não pode evitar a atenção dos media às outras instituições e partidos, usa a técnica do abafamento dos outros no espaço público. "

Eduardo Cintra Torres In: Público (22/10/2006)
Espero que mantenham a vigilância não depreciando o súbito aparecimento de spam político [uma metamorfose do publicitário] na blogosfera… ;)

21 de outubro de 2006

Ranking...

Bluff II

“[…] As candidaturas ao Programa (expressas nas fichas de candidatura anexas) são realizadas em duas fases. A primeira tem como objecto a Medida 1 (actividade interna) e as candidaturas foram apresentadas, junto das DRE pelos Estabelecimentos de Ensino até ao dia 16 de Outubro.

A Fase 2 de candidaturas, a decorrer em período a anunciar, contemplará as candidaturas à Medida 2 (actividade externa) e novas actividades a integrar na Medida 1 com vista ao total aproveitamento dos recursos disponíveis.

As candidaturas a cada uma das medidas são apreciadas pelas DRE e negociadas caso a caso com os estabelecimentos de ensino, após o que serão submetidas a aprovação por parte da Comissão de Acompanhamento do PDE06/07.” In: Programa do Desporto Escolar
É o Simplex!

Mas nem todas as culpas podem ser imputadas à tutela por não ter realizado atempadamente o trabalho de casa. É certo que antes do brilharete do anúncio público das medidas ou reformas, os responsáveis políticos devem garantir que a estrutura de apoio às escolas está operacional. E não foi isso que aconteceu. Por essa razão, tem pairado a indefinição do sentido das mudanças, o que fomentou a indecisão nos conselhos executivos, alguns dos quais ainda aguardam informações precisas da tutela para autorizarem o início das actividades.

É verdade que muitos conselhos executivos também ajudaram à festa. Por falta de audácia ou receio do “fantasma” da inspecção, não souberam aproveitar uma brecha no programa que diz claramente que “Sempre que os estabelecimentos e ensino reúnam as condições necessárias, as actividades e as modalidades propostas devem ter início a partir do primeiro dia de aulas, devendo, pelos mais diversos meios (ordem de serviço interna, informação às turmas, cartazes, etc.), ser feita uma alargada divulgação das actividades e horários de funcionamento.”

O programa do desporto escolar leva cerca de duas décadas de execução. A reforma do programa é, a meu ver, inevitável e urgente, mas não pelas razões que levaram o governo a intervir. Os motivos de ordem conceptual deviam ter colocado as razões de natureza economicista em 2º plano. Exige-se um desporto escolar verdadeiramente inclusivo sem equívocos e ambiguidades organizacionais. O sistema piramidal é exclusivo e, apesar de se evocar a actividade interna como a bandeira do DE, esta nova versão privilegia as actividades externas. E não precisamos de grande acuidade analítica para confirmar esta tese. Basta observar a redução horária dos professores com actividade externa e interna para percebermos o que é verdadeiramente importante para o ME.

20 de outubro de 2006

Bluff

O desporto escolar ainda não chegou a todas as escolas… mas isso interessa alguma coisa? Já foi anunciado e as pessoas já se esqueceram!

Em Julho dava alvíssaras a quem encontrasse o programa do desporto escolar. Ninguém as reclamou. Em Outubro, lá o encontrei… os alunos é que ainda não, ou melhor, os alunos é que continuam à espera, não do programa mas das actividades! É porquê? Porque há escolas que esperam a autorização da tutela para conceder a creditação horária aos professores. E, por enquanto, sem professores não existe desporto escolar.
Como presumira na altura, o programa do desporto escolar anunciado com pompa e circunstância pelo secretário de estado ainda antes das férias fora, afinal, um bluff.

Uma rotura anunciada?…

Neste momento, as organizações que integram a plataforma de sindicatos de professores respondem, em conferência de imprensa, à 4ª proposta de revisão do ECD e às declarações do Secretário de Estado Adjunto e da Educação, em que subjazem diversas ameaças quanto ao futuro do processo negocial de revisão do ECD.
Como não acompanho em directo a conferência de imprensa e não tenho nas mãos o baralho todo, a meu ver, a plataforma sindical não terá outra alternativa para prosseguir na “negociação” a não ser exigir a eliminação da obtusa condição de condicionar um compromisso com o termo da conflitualidade que se tem desenvolvido em torno das propostas do ME e da actuação dos seus dirigentes.

O ME continua a defender que a 3ª proposta de revisão do ECD é aquela que melhor defende o interesse público, que melhor serve o objectivo de promover a qualificação dos portugueses e que mais contribui para um bom desempenho do sistema educativo. Mas não tem sido nada fácil camuflar os verdadeiros objectivos da mudança: a redução da despesa pública tomando de assalto os vencimentos dos professores [e disso, o ME não está disposto a abrir mão].
Esta 4ª proposta visa, apenas, criar a ilusão de um recuo do governo fazendo passar para a opinião pública a ideia de que se encontra de boa-fé no processo negocial e que, a existir uma rotura negocial, a responsabilidade não lhe poderá ser imputada. E creio mesmo que este documento pretendeu acelerar essa rotura negocial. E porquê? Porque desse modo desobstruirá o caminho ao processo da mudança legislativa e garantirá o cumprimento dos prazos do combate à redução do défice; porque não poderá ceder na questão da divisão da carreira e a margem de manobra negocial está próxima do limite; porque não acredito na tese de ingenuidade política para explicar uma redacção do documento que deixa perpassar uma chantagem à acção sindical.

É uma pena que os que se excluem do dispositivo negocial ou o utilizam de maneira oportunista não assumam a sua auto-exclusão.

Aprender a negociar a mudança…

… porque nunca é tarde para aprender!

Perrenoud(1) formula a velha questão retórica «A quem pertence a escola?» para responder de forma pragmática: a escola pertence aos que trabalham para lhe dar coerência e pertinência. O autor reconhece que não há uma resposta clara e definitiva e que esta pergunta ressurgirá em todos os momentos de crise da negociação, retirando-se então uns com o direito que lhes confere o estatuto, os outros com a força que lhes dá o número e a mobilização dos seus aderentes.
“[…] Que ninguém seja excluído do dispositivo. E os que se excluem ou o utilizam de maneira oportunista assumam a sua auto-exclusão.”

(1) Perrenoud, P. (2002). Aprender a negociar a mudança em educação – Novas estratégias de inovação.Asa. Porto.

19 de outubro de 2006

Sinais…

Vários bloggers têm assinalado mudanças, mais ou menos pronunciadas, no discurso nos fazedores de opinião assalariados, no diferendo entre o ME e os professores. Parece ter chegado ao fim uma fase marcada pela exaltação da ministra [diria por tudo – pelas medidas anunciadas - e por nada – pela simples aparência] e emerge uma nova fase que posso designar de reprovação [em alguns casos ainda envergonhada] das suas competências de comunicação. Mas não são apenas as competências individuais da ministra e da sua equipa que têm merecido reparos pouco abonatórios dos distintos comentadores. É questionada a eficácia da estratégia [de confronto] e a eficiência dos processos negociais. O caminho, a meu ver, parece irreversível. Se ainda é cedo para aferir o alcance dos danos colaterais deste diferendo [e estou a pensar no que significa uma perda de credibilidade da equipa ministerial], é tempo de desmontar a retórica perniciosa [e que bem que esse trabalho está a ser feito pelo Paulo e pelo Henrique na blogosfera] que assenta num discurso da “crise”, que foi muito bem retratado pelo historiador Rui Tavares. É tempo de conservar uma atitude pró-activa, de vigilância e de abnegação. É tempo de lermos a 4ª versão da proposta de revisão do ECD...

Adenda: Enquanto folheava a pseudo 4ª proposta, não me saía da cabeça aquela música dos Trabalhadores do Comércio “TAQUETINHO OU LEBAS NO FUCINHO”…

16 de outubro de 2006

Professor em greve.

Regresso na 5ª feira!

Adenda: 3ª feira (manhã) – 60%; 3ª feira (tarde) - 88%

Adenda II: Alguém viu o Prós e Contras desta 2ª feira? É que fartei-me de rir com a peixeirada…

Adenda III (ou agenda ;)): 4ª feira (manhã) - 66% - turno único

Serviço público: Divulga os dados da tua escola, aqui ou no teu espaço!

15 de outubro de 2006

Não façam só alguma coisa, fiquem parados

“Os debates sobre a escola (…) e a confusão que frequentemente os marca, mais do que a complexidade da “crise da escola”, exprime uma crise do modo de pensar a escola.” (Canário, R.)
A Teresa descobriu o blogue do historiador Rui Tavares para destacar este belíssimo texto - Não façam só alguma coisa, fiquem parados.
É de enaltecer a extrema lucidez do historiador... Vale a pena ler até ao fim!

13 de outubro de 2006

Vagueando pelo relatório das Taipas *

“III – Domínios chave do desempenho educativo - Síntese e classificação
1. Resultados
A escola define como objectivo central a aproximação entre os resultados nos exames nacionais e as classificações internas e vários interlocutores enfatizaram o facto de ser “a melhor do ranking no concelho de Guimarães”. In: RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO EXTERNA - ESCOLA SECUNDÁRIA DE CALDAS DAS TAIPAS (p.3).

Três breves comentários:
1. Um dos grandes problemas que se colocam às escolas que estabelecem os seus objectivos orientados para os resultados dos alunos nos exames nacionais é o perigo de se começarem a delinear estratégias defensivas que lhes possam assegurar um lugar no ranking, nomeadamente: “convidar” os alunos a desistirem [“sugerindo” anulações de matrículas] não os levando a exame; e a adopção de critérios “apertados” para que muitos alunos não acedam aos exames…

2. Que lugar ocupam as disciplinas que não entram nesta grande competição nacional?

3. Finalmente, este objectivo deixa de fora uma multidimensionalidade de problemas que não são traduzíveis em provas de exame.

* Nota: Porquê esta incursão pelo relatório das Taipas? Ao contrário do que possa parecer, este destaque não se deve ao desempenho do seu presidente na aparição pública no programa do Prós. Foi o critério de proximidade geográfica que ditou a minha escolha.

12 de outubro de 2006

Avaliação externa das escolas...

"Além da observação directa e da análise documental realizada pela equipa externa, a Escola procedeu à sua própria apresentação de acordo com um guião previamente definido (Anexo 2). Em sequência, foram entrevistados e ouvidos em sucessivos painéis, as estruturas de direcção, gestão e administração bem como as de orientação pedagógica da escola, representantes dos serviços de orientação e apoios educativos, dos alunos, dos funcionários não docentes e de pais e encarregados de educação. "
In: RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO EXTERNA - ESCOLA SECUNDÁRIA DE CALDAS DAS TAIPAS.
Preciso de mais tempo para analisar os relatórios de avaliação às escolas e agrupamentos, o que me obriga a suster os comentários.
Procurei nos documentos de suporte ao piloto de avaliação externa, sem sucesso, informação detalhada sobre os critérios de escolha e constituição dos painéis das entrevistas.

Hummm… gato escaldado…

Adenda: Ofício dirigido ao Secretário de Estado e a versão integral da contraproposta sindical para o ECD [a contraposta foi rejeitada pelo ME].

O importante é chegar a professora titular. *

Foi com este pensamento que tracei a rigor o meu destino, há tantos anos atrás. Filhos, tê-los-ei aos quarenta, antes nem pensar pois quatro meses de licença de maternidade lançar-me-iam irremediavelmente no nível Regular impedindo-me a tão desejada progressão na carreira.
E assim foi. Tudo me correu lindamente até ao décimo sétimo ano de leccionação. E ao longo desses anos aprendi a agradar a todos, aos alunos, aos pais e ao executivo da escola.
Porque chegar a professora titular implicava uma escolha entre outros muitos candidatos, a quem tudo tinha corrido igualmente bem.
Cheguei, inclusivamente, a ter alunos que passavam o fim-de-semana comigo e com a minha família. E eu até lhes passava as t-shirts a ferro e fazia trancinhas no cabelo das meninas.
E um dia a televisão bateu-me à porta para fazer uma reportagem, assim inesperadamente. Era eu de avental a servir-lhes a sopinha, a dar-lhes conselhos e a fazer-lhes festinhas na cabeça.
E o jornalista até me perguntou se também lhes cantava canções de embalar e eu disse-lhe logo que sim, que até lhes lia os "Versos de fazer ó-ó" do José Jorge Letria e que depois de adormecerem aproveitava para lhes ir lendo o "Memorial do Convento".
E expliquei-lhes que a leitura durante o sono era um método totalmente inovador em que tudo se apreende de forma suave e que assim não havia o trauma de o livro ser grande ou de os jovens não perceberem as palavras e terem de ir ao dicionário, que isso dá muito trabalho, coitadinhos!
Tudo me corria às mil maravilhas até ao dia em que uma apendicite aguda me levou à cirurgia. Oh, maldita apendicite!
E voltei à escola ainda com os pontos fresquinhos, a pensar que só tinha dado cinco faltas. Mas enganara-me nas contas com a história da anestesia. Afinal eram seis as faltas, seis! E já não teria Bom na avaliação, somente um Regular. E já não passaria a professora titular.
Foram mais seis anos de espera.
Deixa, aos quarenta e seis ainda vou a tempo de ser mãe. É uma gravidez de risco mas isso que tem, se há já quem tenha os filhos aos cinquenta, aos sessenta e qualquer dia aos cem!
Mas aos quarenta e cinco foi a hérnia discal. Oh, maldita hérnia discal!
Ainda pensei em ir de cadeira de rodas ou se necessário fosse, de maca, mas o médico chamou-me louca e reteve-me dez longos dias no hospital.
E foi assim que somente aos cinquenta e dois cheguei a professora titular. Era tarde demais para ser mãe.
Mas, meu Deus! Eu era professora titular!
Fiquei tão radiante que até me lembrei de bordar em todos os lençóis de renda, em arabescos graciosos, "professora titular", "professora titular" e em toalhas e em quadros de ponto cruz, "professora titular", "professora titular" e depois mandei gravar em todas as minhas canetas e no estojo dos lápis, "professora titular", "professora titular" e na porta do meu carro e no guarda-chuva e no guarda-sol porque, faça sol ou faça chuva, eu sou professora titular!
Agora que sou professora titular tenho, além das aulas, muitos e variados cargos que me dão tanto que fazer.
Mas ainda vou arranjando um tempinho para ir aconselhando os novos e vou-lhes ensinando como se chega a titular e como é importante ir ao médico todas as semanas e levar todas as vacinas possíveis e imagináveis e como é totalmente recomendável andar com um triplo airbag no carro.
E digo-lhes e repito-lhes: " professor prevenido vale por dois". Mas apesar de todos os meus conselhos e avisos ainda há os que, desprezando-os, se vêem de repente em maus lençóis.
Foi o caso de um brilhante ex-aluno meu, brilhante universitário, brilhante estagiário, brilhante professor que tendo passado com distinção o Exame de Estado e tendo obtido aprovação na entrevista, não conteve os seus impulsos mais genuínos e românticos durante o ano probatório, fruto da sua juventude e inexperiência e não se cansou de defender o indefensável, a exigência, o rigor, a disciplina, criticando com excessivo entusiasmo o facilitismo reinante e não se cansou de duvidar e de contestar.
E eu que lhe dizia: " Meu filho, tem tento na língua, como queres tu chegar a professor titular? Vá aprende comigo e diz "Ámen"! "Ámen"! Mas ele que não me ouviu. E deu-se o caso, vá lá saber-se porquê, de o jovem brilhante professor obter, no final do ano probatório, a infeliz classificação de 6.8 quando precisava apenas de 6.9 para integrar o quadro. E foi assim exonerado da profissão.
E teve de arranjar logo umas tabuinhas para se ir juntar aos outros muitos professores, desempregados e exonerados, lá debaixo da ponte Vasco da Gama porque ele me dizia que preferia a terra firme, senão tinha arranjado um botezinho como os outros fazem.
E certa manhã ajudei-o a levar as tabuinhas e a construir a cabaninha debaixo da ponte.
Era um dia brilhante, de cores perfeitas, em que o sol resplandecia sobre o rio azul e o sapal era verde marinho e gracioso, salpicado de aves pernaltas. Mas lá estavam as centenas de cabaninhas e os milhares de botes pacientemente amontoados. E ali tudo era cinzento e triste.
E foi nesse momento que caí em mim e vi a injustiça daquilo tudo. A minha luta para chegar a professora titular parecia-me agora absolutamente vazia e sem sentido.

Eu deveria ter lutado sim mas contra o "novo" estatuto da carreira docente de 2006!!

Por isso, como era urgente recuperar o atraso de trinta anos, transformei-me em gigante Adamastor e peguei nos milhares de professores e respectivas famílias que viviam nos botezinhos e nas cabaninhas e levei-os para o Ministério da Educação.
Todo o edifício estremeceu à nossa chegada porque nós trazíamos uma tempestade de mil dias.
Mas o "novo" estatuto depressa sucumbiu, de medo e de vergonha, porque muitas tinham sido as injustiças que criara.
Adeus "novo" estatuto! Vai e não voltes nunca mais porque nós queremos mudança mas não queremos injustiça!

*
Cristina Neves

10 de outubro de 2006

...


Adenda:
Para memória futura…


Esta entrada é um hino e um tributo à dimensão estética que radica em cada um de nós. A busca da perfeição é algo que nos transcende desafiando-nos à descoberta permanente do que somos. A música e um corpo humano podem ser a expressão dessa perfectibilidade e constituir, simultaneamente, um triunfo sobre a insensibilidade e a incompreensão…
Um bem haja...

9 de outubro de 2006

Banalidades…

Ontem ouvi o Professor Marcelo na RTP1 e li a crónica do Vasco Pulido Valente no Público. Ambos os comentadores deixaram algumas notas sobre o ECD e um deles confessou mesmo ter lido o documento, o que não deixa de ser fantástico.

O primeiro disse que a ministra tem razão na substância da “reforma”, nomeadamente, a utilização de um sistema de cotas para limitar o acesso dos professores ao topo da carreira. Não disse, contudo, o porquê [presumo que não teria argumentos ali à mão]. Condena a ministra pela forma áspera e rápida como pretende impor as mudanças sem contar com a colaboração dos actores. Desse modo comprometerá o sucesso das mesmas.

O segundo disse que os professores não têm razão porque rejeitam a avaliação e o “ano à experiência” o que, continuando a citar o autor, “não seria útil nem sensato acabar com ele”. Diz também que há um ponto em que a fúria dos professores se compreende: “A tentativa de regular e dirigir um sistema tão extenso, pesado e complexo de um prédio da 5 de Outubro deu, e dará sempre, um péssimo resultado”. Ora, o que devia vir por aí era um”mercado de ensino” porque “ […] o mercado, embora imperfeito e limitado, ajudaria a devolver alguma responsabilidade ao sistema: aos pais porque pagariam, aos filhos porque a violência, a indisciplina e a preguiça custariam caro, e aos professores porque a concorrência lhes traria uma autoridade real.”

E assim se faz a opinião neste país… banal q.b.

Nota: Ah… o professor Marcelo lembra os professores que as greves são a pior forma de ganhar a opinião pública porque terão os alunos e os pais contra eles. Pela parte que me toca agradeço o aviso, caro professor. Evidentemente farei greve!

8 de outubro de 2006

Autismo…

Os reitores portugueses não foram informados sobre o acordo entre Governo e a universidade norte-americana Massachusetts Institute of Technology (MIT), que prevê projectos de formação e investigação em engenharia e gestão em sete universidades e 26 centros de investigação.

"Há algo indispensável para este tipo de projecto ser eficaz: as pessoas serem postas a falar umas com as outras. E os reitores deviam ter sido informados também", lamenta o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), José Lopes da Silva, acrescentando desconhecer os critérios da escolha das universidades envolvidas. "Fui sabendo pelos colaboradores da minha universidade", refere.

A notícia é apenas mais um exemplo de uma governação autista. Este governo PS parece ter regressado à sua adolescência política. É como se pretendesse viver as mudanças típicas desta fase da ontogénese, como se buscasse uma nova identidade: ora apela à herança genética socialista que sempre foi dialogante e de proximidade; como cede aos caprichos de um tempo marcadamente individualista, hostil, pouco solidário. Parece fugir da sua natureza a troco de uma popularidade fácil e de uma governação a qualquer preço.
Dir-me-ão que este comportamento denota a influência das novas amizades… Até aqui tudo bem, não fora a delapidação do capital de confiança acumulado na primeira juventude!...

Adenda 1: Este texto do MJMatos [um bom companheiro de viagem :)] é intemporal!

6 de outubro de 2006

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner
“No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79

4 de outubro de 2006

Desfaçatez!…

Será possível manter os níveis salariais?
“É possível desde que haja o Bom como princípio para a progressão e o exame de mérito. Os professores podem até chegar muito cedo ao topo. Aqueles que tenham avaliações consistentes de Muito Bom e Excelente e façam o doutoramento, chegam ao topo da carreira em 12 anos e não em 18 (período normal mínimo para candidatura a titular). Aqueles que cumprem o mínimo não têm direito a desenvolver carreira e poderão perder dinheiro.” (Jorge Pedreira in: JN)
Adenda 1: Resisto à chalaça com o nome do personagem...

Adenda 2: ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE - ALTERAÇÕES À PROPOSTA DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO DE NEGOCIAÇÃO COLECTIVA (4/10/2006)

Adenda 3: Vou participar na marcha nacional… evidentemente!

3 de outubro de 2006

Ambíguo, eu?…

No quadro da política educativa encontramos ambiguidades significativas: Nos discursos, nas medidas legislativas, nas práticas, nas reformas, nas contra-reformas, etc.
É evidente que essas ambiguidades geram expectativas contraditórias ou mesmo equívocos, alguns dos quais promovem a descrença nas virtudes do sistema. Sendo a hipocrisia algo de condenável, a organização exposta a conflitos “insanáveis” que não se consegue comportar de forma hipócrita sentirá mais dificuldades em relação a outra organização que esteja habituada a usar essas estratégias. Agora que a escola pisca o olho à gestão e organização empresariais, há que começar a perceber o comportamento organizacional que sobrevaloriza o resultado escolar. E quanto mais a escola se preocupar em justificar a qualidade dos seus produtos [venham lá esses exames… ;)] mais ficará vulnerável aos ataques externos de outras organizações cujos resultados são contáveis. Diria que quanto mais a escola se preocupar em satisfazer as exigências externas da (ir)racionalidade empresarial mais se afastará da sua vocação. E se entenderem do que disse que defendo a balcanização escolar, isso só pode significar que o meu discurso já está inquinado…
Que grande nóia!

2 de outubro de 2006

Dou alvíssaras…

… a quem esclarecer o que se passa com o Desporto Escolar (DE). Há escolas que suspenderam as actividades internas e externas do DE só porque ainda não receberem autorização da tutela para distribuir o crédito horário pelos professores. Que sentido é que isto faz?
É que ainda não esqueci o pomposo anúncio do reforço de verbas para o DE realizado pelo secretário de estado da educação antes das férias…

[O assunto da entrada anterior será retomado brevemente…]