9 de maio de 2006

O(A) senhor(a) que se segue…

Há qualquer coisa que não está a funcionar bem no Ministério da Educação. Existe uma determinação em abstracto do que se deve fazer, mas uma compreensão muito escassa da realidade concreta.
[…]
O problema reside em considerar os professores como meros funcionários públicos e colocá-los na escola em sumária situação de bombeiros prontos para ocorrer à sineta de alarme. Mas a multiplicação de reuniões sobre tudo e mais alguma coisa não permite que o professor prossiga na sua formação científica. Quando poderá ler, quando poderá trabalhar, quando poderá actualizar-se? Não é certamente nas escolas que existem condições para isso.
[…]
A escola transforma-se num espaço de batalha campal, com o apoio da demagogia dos paizinhos, que acham sempre que os seus filhos são angelicais cabeças louras. E com a cumplicidade dos pedagogos do ministério. Quando precisaríamos como de pão para a boca de um ensino sólido, estamos a criar uma escola tonta e insensata
”. [Público - serviço reservado a assinantes.]

As palavras de Eduardo Prado Coelho (EPC) têm sido insistentemente repetidas por professores em diversos fóruns de discussão, a ponto de eu próprio ter suspeitado que já estavam gastas, alertando para os problemas que derivam da reconceptualização do tempo e função docentes.
Foi com estranheza que observei um elevado consenso entre analistas e fazedores de opinião em torno da catadupa de medidas anunciadas pelo ME. E a minha estranheza não decorre tanto do sentido das opiniões mas, bem pelo contrário, pela unilateralidade dessas opiniões. Não defendo nenhuma teoria da conspiração, mas não considero comum, numa democracia plena, que um tema tão susceptível à divergência de pontos de vista, como é o caso da questão educativa, fosse agregado a uma voz, por sinal a voz do ME. Foi um verdadeiro coro de personalidades oriundas de diversos quadrantes políticos, sociais e culturais, que se congratularam pela coragem do governo revelada no confronto com a corporação docente. Passou muito bem a ideia de que se travava de um combate contra o corporativismo e que passou a ter um rosto - o movimento sindical. Após a persuasão de um sector da “inteligência”, do qual faz parte EPC, num ápice, a opinião pública adoptou o discurso oficial.

O problema que se coloca, a meu ver tardiamente, é que o fluxo hostil sobre a imagem dos professores não só retarda o sucesso de qualquer reforma, como degrada a qualidade da oferta educativa. EPC parece, finalmente, ter percebido esta simples evidência.
Estou muito expectante para ver quem é o(a) senhor(a) que se segue.

8 de maio de 2006

A escola é a/na comunidade…

Parece-me evidente que o meu olhar tem andado orientado para as questões da organização, da forma e da instituição escolar; das políticas; dos discursos; da comunicação social; dos sentidos da educação. A ideia que passa [mas será que passa?] é que tudo isto parece um olhar estrábico centrado em questões acessórias. Confesso que só não fico incomodado por ver imergir a ideia de desviar o meu olhar do elemento central [criança ou jovem] do acto educativo [ao invés de procurar gastar aí as minhas energias] porque encontro aconchego na crença de que só burilando as lentes que me permitem ver o mundo “distante” é que posso ambicionar ver o mundo que me é “próximo”. E como só vemos o que os nossos conhecimentos permitem, há que aprimorar todos os instrumentos de análise, todas as lentes.

Dizia eu que não tenho dedicado muito tempo, neste espaço público, ao contexto educativo. Porém, é nesse espaço que tudo se concentra. É na interacção com o sujeito que o professor consubstancia a sua actividade. E a eficácia da interacção decorre da capacidade de ler a acção educativa, de a interpretar, de lhe dar valor, de a desconstruir.

Evoco uma actividade concreta como elemento de uma realidade situada. Trago aqui uma história que me tem absorvido: A preparação de uma actividade de referência para o percurso de um conjunto de alunos. Refiro-me concretamente a uma apresentação de um trabalho colectivo que tem envolvido onze alunos de uma turma de um curso tecnológico, durante 8 horas por semana, ao longo de dois períodos lectivos.

Nesta actividade, da qual resultará um produto, têm sido testadas competências de organização, conhecimentos, atitudes e capacidades. A apresentação do trabalho à comunidade educativa [alunos, pais, professores, comunicação social local, autarcas, representantes associativos,…] é a apresentação de um produto que se deseja de qualidade, que faça transparecer esforço, dedicação, entusiasmo e solidariedade. A qualidade desse produto deverá reflectir a qualidade do processo. Mas, por que razão me preocupo tanto com o processo? Destaco duas razões, uma de natureza ética e outra de natureza filosófica: Para ter a certeza que não vendemos gato por lebre, isto é, para poder garantir que o produto não é uma embalagem, uma marca e um acto efémero; Para dotar de autonomia os produtores!

7 de maio de 2006

Bluff

A escola portuguesa tem sido subordinada a uma administração hierárquica tipicamente piramidal baseada num modelo burocrático, normativo e de procedimentos. E um modelo que reclama um tipo de liderança forte, muitas vezes associada a um estilo autocrático. No quadro em que se desenvolve este tipo de liderança, os órgãos de gestão devem fazer cumprir as normas superiormente determinadas, que lhes absorvem o tempo, remetendo-os a funções cada vez mais burocráticas. Os conselhos executivos transformaram-se assim em mangas-de-alpaca que não têm tempo para liderar pessoas, mobilizar vontades, acompanhar o desenvolvimento do projecto educativo [parece que o conceito saiu de moda], serem líderes de líderes.

Foi este o caminho que o ME escolheu para governar as escolas. É um modelo que não suscitará as mudanças profundas que carece o sistema escolar. É um modelo que serve desígnios economicistas de curto prazo do governo mas que fará perigar o desenvolvimento educativo nacional a médio e longo prazo. Porquê? Porque não se vislumbra uma forma de adquirir uma performance sustentável do sistema sem a existência de lideranças a todos os níveis da organização.

O paradoxo é demasiado evidente: Enquanto o governo vai dando sinais de querer concentrar nos órgãos de gestão mais poder para controlar as escolas [e domar o professorado] obriga os conselhos executivos a um acréscimo de trabalho burocrático que os afasta dos contextos de prática educativa.

Não acham isto muito estranho?

Mãe


Para ti!...

5 de maio de 2006

Neo-taylorismo...

A reunião entre a ministra da educação e os presidentes dos conselhos executivos permitiu clarificar [para os mais desatentos] o papel dos presidentes dos conselhos executivos no novo figurino organizativo do ME. São os olhos que o ME sempre quis ter nas escolas. São os chefes de secção de uma organização taylorista. São os homens e as mulheres do sistema, funcionando como uma espécie de correia de transmissão, que se encarregarão de controlar a produção de cidadãos em série.
Definitivamente, este ME adoptou o neo-taylorismo como o seu modelo de organização escolar. Eles sabem os riscos que correm…

[Imagem retirada de um trabalho da Carlinda Leite]

Adenda: Entro no fim-de-semana com uma satisfação enorme. Após cerca de um ano de ausência por motivo de força maior, o meu colega José Manuel Faria recomeça a participação na blogosfera. É com imenso prazer que te vejo por cá, caro Zé Manel.

2 de maio de 2006

Concentrar…

A ministra da Educação anunciou hoje a criação de um conselho nacional coordenador de todos os conselhos executivos dos agrupamentos escolares do país, numa estrutura que pretende reforçar o papel das escolas na definição das políticas educativas.[…]
«O conselho coordenador vai ser criado ao longo deste ano para que as escolas possam ser constituídas parceiras na definição das políticas educativas e não apenas parceiras na sua execução», disse a ministra.


É com algum preocupação, mas sem surpresa, que vejo a ministra da educação reconhecer publicamente que os conselhos executivos têm sido, unicamente, excelentes parceiros da execução das políticas educativas. É um dado inquestionável que o cerco à autonomia das escolas tem sido cada vez mais apertado. É um dado inquestionável que se ouve falar cada vez menos de projecto educativo nas escolas. É um dado inquestionável que as escolas são cada vez mais iguais, na sua forma e organização.
Se o conselho coordenador dos conselhos executivos (CCCE) esvaziará ou não a acção das Direcções Regionais de Educação é o que veremos muito brevemente. A meu ver, as DRE’s são prescindíveis a partir do momento em que os conselhos locais de educação exerçam as competências que estão previstas na lei, nomeadamente na definição da rede escolar. Por outro lado, o CCCE permitirá ao ME garantir o controlo da gestão escolar diminuindo o peso da máquina administrativa.
Parece-me claro que sob o signo do reforço da participação das escolas na definição das políticas educativas, o ME garantirá uma maior eficiência na execução das políticas educativas.

Hummm… ter os conselhos executivos sempre à mão é ter os professores na mão. Ou não?

27 de abril de 2006

Divulgação versus propaganda…

Inexplicavelmente, a divulgação das “boas práticas educativas” tem sido uma medida preterida no rol das tentativas de obstar a má imagem publicada dos docentes e das escolas. Assistimos diariamente nos órgãos de comunicação social ao desbaratar do exíguo capital de confiança que a escola e o docente eram depositários, pela acção executiva que se deixa ordenar por políticas de “terra-queimada”, pela acção mórbida de uma comunicação social acomodada à notícia fácil do quanto pior melhor, pela acção dos próprios actores educativos que vivem virados para dentro dos muros das escolas insistindo numa atitude defensiva autofágica.
Parece-me claro que é pelo lado da divulgação das “boas práticas”, preferencialmente na comunidade local, que se requalifica a imagem do professor e da escola. É na escola situada que este desafio terá de se colocar. As “boas práticas” têm de saltar os muros das escolas para contagiar a comunidade local. E se há espaço em que os manga-de-alpaca e aos “fazedores de opinião” se sentem desconfortáveis é esse mesmo, bem longe dos seus gabinetes. É nesse terreno que se constrói o edifício da credibilidade.

25 de abril de 2006

As nossas queridas professoras

"As nossas queridas professoras

Não posso deixar de vir aqui publicamente expressar a minha profunda indignação pelo ataque que está a ser infligido às nossas queridas professoras, no sentido de as obrigar a cumprir o horário de trabalho.
Trata-se de enorme violência para as próprias, para os alunos, suas famílias e população em geral.

Sim, porque não são só as professoras que sofrem com esta despudorada medida, que lhes coarcta o legítimo direito a dar umas voltinhas pelo shopping para espairecer de terem de aturar a cambada de energúmenos que se sentam nas carteiras das salas de aula e lhes limitam fortemente a possibilidade de desenvolver acções de formação permanente mediante o visionamento na televisão de vários programas instrutivos e outros que espelham bem o sentir da sociedade em que nos inserimos, como é o caso das telenovelas e dos concursos onde os docentes iam actualizando os seus conhecimentos.

Aos alunos a medida também não agrada, já que o grau de irritação dos professores tende a aumentar exponencialmente, diminuindo o nível de tolerância às graçolas e aumentando a repressão que sobre eles se abate.

A população em geral tem também vindo a sofrer as consequências, já que não há família em Portugal que não tenha no seu seio uma prima ou uma tia pertencente à prestimosa classe docente que lhes seringa constantemente os ouvidos com a injustiça que sobre eles recaiu. Toda a gente sabe que a grande motivação para passar uma vida a aturar miúdos malcriados era a possibilidade de ter umas férias decentes e de não gastar mais do que meio dia nas aulas ficando com o resto do tempo por conta. Se querem agora obrigar os desgraçados a picar o ponto de sol a sol lá se vai o interesse da função. Uma das grandes preocupações das professoras em relação a este novo regime que as obriga a ficarem na escola para além das aulas é não saberem muito bem como é que poderão ocupar aquelas horas, já que, como é óbvio, ninguém está interessado em usá-las a trabalhar, quanto mais não seja por pirraça e para chatear o ministério.

Para minorar a sua dor, posso dar aqui algumas sugestões para o melhor uso do tempo disponível. A actividade mais apropriada é a de curtirem com outros professores do sexo oposto, que também andam por ali sem saber o que fazer.
As escolas são em geral pródigas em recantos escuros e salas vazias que propiciam o desenvolvimento da prática. O único óbice resulta do reduzido número de homens, pelo que a coisa só pode ser feita em regime rotativo ou fica reservada só para as mais dotadas, com exclusão dos camafeus e das que esgotaram o prazo de validade. Uma outra actividade a que se podem dedicar é ao jogo da lerpa. Para além de ser de fácil aprendizagem, propícia um grau de excitação próximo da sugestão anterior com a vantagem de o sexo dos jogadores ser irrelevante. Para os que não são capazes de uma coisa nem de outra posso alvitrar umas sessões de espiritismo com uma roda de professoras efectivas à volta de uma mesa pé-de-galo, a estabelecerem comunicação com almas penadas vindas do além."

Manuel Ribeiro
Economista
in notícias magazine

O direito de resposta...

"Caro Manuel Ribeiro,

Li, entre atónita e indignada, o seu artigozinho ? o diminutivo, acredite, não é um mimo. Li, reli e só não decorei porque esse tipo de escrita é indigesta e corrompe a credibilidade jornalística.
Assim, querido Manuel Ribeiro ? amor com amor se paga ? senti-me na urgente necessidade de responder à sua croniqueta com piropos semelhantes àqueles com que, jocosamente - senilmente ? - resolveu mimosear as docentes ? no seu vocabulário deve apenas existir a palavra (in)decentes - deste país.

Para ser absolutamente sincera, o meu primeiro impulso foi votá-lo ao desprezo. Os seus escritos, e não apenas este, revelam a sua principal característica ? o senhor é ? ou julga ser ? um marialva provocador, engraçadinho e digno de figurar, como herói topo de gama, nas revistas aos quadradinhos. Rara é a crónica em que não desabafa e deixa sair esse complexo de Édipo tão exacerbado que até mete dó. Raro é o texto onde não se constata que a suprema felicidade para si ? e a solução para os muitos problemas que a sua personalidade apresenta ? passa pela abolição dos direitos das mulheres ? todinhos ? e por uma carência doentia de acolher o maior número possível de ?escravas? ? moças desvalidas é como costuma apelidá-las, certo? ? no seu ?abrigo? ao qual, liricamente, chama de paraíso. Se eu não tivesse a certeza de que o meu amigo é um refinado idiota, seria tentada a crer que seria uma nova versão da madre Teresa ou, no mínimo, convertido ao poder de sedução das palavras do psicólogo Eduardo Sá, passara a ter como lema ? chega-te a mim e deixa-te estar.
Num ponto estamos de acordo, amigo Manel: na profunda indignação que, ao que parece, ambos evidenciamos. A sua, pelo que li, resultante de um qualquer recalcamento tido na infância ou na adolescência ? Freud explicar-lhe-ia melhor; a minha? provocada pelo seu impudor, má formação, falta de nível , falta de carácter e, sobretudo, por um ego balofo, repugnante e anémico.
Refiro-me ao seu, claro.
Sinto-o uma espécie de intelectual naftalinado a necessitar urgentemente de ser reconhecido pelo notário, acredita? Um beija aqui, beija acolá, pegajoso e incompreendido, predestinado à glória do? esquecimento. Ah? a só-literária vulgaridade!
Por outro lado, o desconforto que me causou o seu blak-out à minha profissão assenta num terrível receio que, em abono da verdade, me está a provocar náuseas e tonturas. Muito mal vai o país cujos jornais mais conceituados permitem que um qualquer aprendiz de aprendiz a jornalista se outorgue o direito de insultar, caluniar ? a título de provocação? Não me faça rir? -
com toques virulentos de sordidez e pouca vergonha, profissionais que, ao que tudo indica, não estiveram presentes no seu longo e penoso processo de aprendizagem? à distância. Tão à distância, amigo Manel, que nem uma gotícula de educação transparece no seu sebáceo discurso.
Dar-se-á o caso de esse complexo, essa raiva desmedida contra as professoras deste país ter a sua origem em algum caso mal resolvido com alguma delas? A minha curiosidade aguça-me o espírito e a maledicência. Teria sido com uma dessas a que, carinhosamente, cataloga de camafeu ? Seria com uma , segundo as suas vernáculas palavras, com prazo fora de validade? Ou, pelo contrário, com uma, seraficamente, apelidada de bem dotada? Assim a modos que mente sã em? corpo são, não? Creio que me faço entender? Não adianto mais este meu interessante périplo porque, pelo que li, cowboys que gerem de um modo diferenciado os seus afectos não fazem parte da sua lista? Honni soit qui mal y pense!

Ó Manuel Ribeiro, então o meu amigo pensa que os professores deste país andam por aí a jogar à lerpa? Está muito enganado. Logo o senhor que se diz um exímio conhecedor de almas e de... professoras e professores. Citando Saramago ? o do prémio Nobel? não sei se conhece? - ? O professor, hoje, é um herói. Precisa de ser corajoso, por vezes até a nível físico?. E como o grande escritor está coberto de razão! Ser professor, nos dias que correm, é uma verdadeira missão. Sem estímulos adequados, sem remunerações compatíveis e muitas vezes sem condições nenhumas, os bons professores são todos aqueles que não desistem de ensinar. E de aprender. Que é uma coisa que um aprendizeco a jornalista não pode compreender porque lhe falta inteligência. E muita sensibilidade. E carradas de polimento. E montanhas de originalidade e de talento.
Por outro lado, orgias e outros bacanais afins estão mais indicados a serem praticados em pasquins e, de preferência, tendo como jogadores economistas maníaco-depressivos e com um trauma compulsivo contra? mulheres.
Quer um conselho de amiga? Se fosse a si, não vá uma dessas queridas professoras dar-lhe um pontapé igual ao que escolheu como marca prestigiosa dos seus artigos ? o que demonstra que o meu amigo além de asno, é um asno violento - fazia como o Dâmaso Salcede. À cautela, ia-me raspando para o Iraque! Acredite, as queridas professoras, reconhecidas, agradeciam!

De uma fervorosa admiradora,
Ana Rodrigues

Nota: Concordo quando afirma que, no ensino, predomina o sexo feminino. Às mulheres sempre coube a graça de dar à luz e de ser fonte de luz. Espero que, de igual modo, concorde com o meu atento reparo ? economistas, em Portugal, é carreira onde predomina o chamado sexo forte. Será que com tanta crise ? basta ver-se a nossa economia ? os tais jogos de sedução que nos
aconselha não se aplicarão mais a quem - habituado a números que nada dizem - usa as palavras como o prelúdio de uma grande façanha amorosa que, invariavelmente, se resume a? nada vezes nada?!"

É uma professora do Norte, carago! Um cumprimento especial para ti, Ana.

?

Será uma heresia reconhecer que não tive pachorra para ouvir o primeiro discurso do novato Presidente da República?

Se entenderem que é, de facto, uma blasfémia, eu tenho uma atenuante:
É que este homem nunca nos deu cavaco!...

32 anos depois

... não faltará muito.

24 de abril de 2006

Há uma pulga atrás da orelha

Inesperadamente[?], tenho encontrado alguns colegas preocupados [refiro-me àqueles que acumulam o seu papel de encarregados de educação nas próprias escolas onde leccionam]. O alvoroço começa a alastrar pelos corredores para acabar num recanto da sala de professores. De facto, já ouvi este eco em fóruns de discussão:

“…e não é que a nota de Educação Física conta para a média de acesso ao Ensino Superior?! Valha-me Deus!”

É a "razão visceral" a mais falar alto.

23 de abril de 2006

A paranóia lectiva…

Colégio britânico vai dar aulas de felicidade aos alunos
Um dos mais conhecidos colégios privados do Reino Unido vai ensinar os seus alunos a serem felizes. Os estudantes (entre os 14 e os 16 anos) terão já no próximo ano lectivo, uma vez por semana, aulas de felicidade. Como gerir sentimentos como o medo, a frustração, a solidão ou a vergonha? - são apenas algumas das perguntas a que estas lições tentarão dar resposta."As escolas têm uma profunda responsabilidade de ajudar os seus alunos a transformarem-se em seres humanos felizes e realizados", justifica o Wellington College, em Berkshire, no seu site na Internet
.” (Público de hoje)

Hummm… uma vez por semana, aulas de felicidade?
Posso deduzir que no restante tempo escolar nada se faz para gerir esses sentimentos?

Será que esta gente não se enxerga?

22 de abril de 2006

Fóruns da treta…

O fórum “Ensino Secundário em Debate” é uma iniciativa da Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular. No momento em que escrevo esta entrada estão inscritos 240 participantes, distribuídos por 71 temas de discussão, e a entrada mais concorrida mereceu apenas 23 comentários [uma média de 3 comentários por assunto]. Os temas incidem preferencialmente nas questões relacionadas com os exames, acesso ao ensino superior, exames, cálculo de médias de exames, exames desta ou daquela disciplina e mais exames. As preocupações com o ensino superior reflectem, por um lado, um determinado perfil de participante no fórum [encarregados de educação e professores de alunos orientados para o prosseguimento de estudos], e por outro, um evidente desinteresse pelos cursos tecnológicos. É sobre este desinteresse que me ocupo.

Os cursos tecnológicos são, efectivamente, o refugo do ensino secundário. Acompanho com bastante proximidade uma turma de alunos de um curso tecnológico e não encontro um aluno, um apenas, que não deseje prosseguir estudos. Paradoxalmente, não encontro um aluno que projecte no curso tecnológico um ingresso para uma profissão. São raros os casos [obviamente que me reporto a alunos do ensino secundário] em que a saída de um aluno do sistema escolar é concretizada por iniciativa própria. O que eu encontro são muitas saídas compulsivas desencadeadas pela intervenção [tardia?] dos encarregados de educação que desesperam quando tomam consciência que os seus educandos vagueiam sem norte no sistema educativo.

Os cursos tecnológicos sofrem de um problema intransponível: não são vocacionados para a formação profissional [e concorrem com as escolas profissionais que estão melhor apetrechadas e recebem os alunos mais motivados para a saída profissional] e não são vocacionados para o prosseguimento de estudos [porque limitam o acesso dos alunos a determinados cursos do ensino superior]. É o tal refugo que dava conta mais em cima.

Mas voltemos ao fórum. Como instrumento de aferição dos problemas de aplicabilidade de uma dada reforma ele é muito débil por três razões principais: Pelo reduzido número de participantes que mobiliza, pelo deficiente alcance da tecnologia utilizada que ainda é inacessível a um elevado número de interessados pelo processo educativo, pela falta de visibilidade nas comunidades educativas. É um facto que o ME tem realizado [poucos] encontros através das direcções regionais de educação com alguns professores e representantes dos conselhos executivos. É um facto que as estruturas intermédias do ME são pouco eficientes porque são pesadas e pouco ágeis na relação com as escolas. É um facto que as lógicas burocráticas atrasam os processos de mudança. Por tudo isto e sabendo de tudo isto, o ME terá de desconfiar das auscultações que faz e das aferições que resultam dos processos que ele próprio engendra. Por tudo isto, e enquanto não ocorrer um SIMPLEX na educação [tem direitos de autor esta expressão], o ME estará condenado a um “autismo endógeno”.

Que triste sina!

20 de abril de 2006

O conflito é uma oportunidade…

Desloco o foco que norteia a minha reflexão para a escola situada. É que já me doía o pescoço de tanto procurar fora da escola motivos para reflectir a minha prática profissional. É difícil determinar com exactidão [até porque a memória já me atraiçoa… esta lamechice era escusada] o número de conflitos que ocorreram em apenas três dias de aulas. A proximidade da relação educativa foi ainda maior: Os alunos viveram durante estes três dias um enorme stress competitivo que lhes fez emergir o bom e o mau que carrega o seu carácter. Aprender a lidar como a derrota e com a vitória, conviver com o prazer do sucesso e com a dor do insucesso, é um treino que urge intensificar na escola e na família.
Se não fui suficientemente claro, deixo-vos alguns exemplos que marcam a tipologia dos conflitos:
Jogadores autoritários que não deixam jogar os outros; Que ocupam, habitualmente, maior espaço nas instalações desportivas sem justificação; Que mostram condutas violentas (gritos, insultos, empurrões, pontapés nas bolas, etc.) diante os seus próprios companheiros o diante elementos da equipa contrária; Que não respeitam as regras estabelecidas; Que prescindem das normas de cortesia uma vez finalizado o jogo; Que simulam faltas e recorrem a comportamentos anti-regulamentares como forma de evitar golos; Que não escutam conselhos, instruções e decisões do professor; Que quando se sentam no banco amuam e não incentivam os seus companheiros; Que não aprenderam a aceitar os resultados negativos e encaram a derrota como um fracasso pessoal ou colectivo que afecta e condiciona a sua vida quotidiana;…
Não faltam oportunidades para fazer uma Educação para a nãoviolência!

Agora, preciso de um fim-de-semana para recuperar.

Adenda: O gajo tem intermitências. Isto é, são as intermitências ou o novo [por enquanto] blogue do Miguel Sousa.

Adenda II: Educação e Críticas... No plural. É o blogue do Henrique Santos.
Ao ler os discursos de várias entidades sobre a educação e os seus vários actores, deparo com duas atitudes muito generalizadas: -generalizações abusivas, tipo: os alunos de hoje são...; os professores...; -afirmações peremptórias e arrogantes, da parte de quem pouco conhece do que fala. É para combater um pouco estas atitudes (que considero erradas e enquistadas), e tentando não cair nelas que o autor criou este blog. Daí o seu nome.

19 de abril de 2006

Semana aberta

Desgraçadamente, as escolas curriculares só se deixam abrir uma semana por ano lectivo. Abrir a quem e para quê?
Será que esta brecha, timidamente consentida por um sistema educativo retrógrado, pretende demonstrar que a festa e alegria são incompatíveis com o rigor e a excelência apregoados pelos arautos da escola mercantil?

Há dois anos que procuro acrescentar ou porventura alterar o texto. Não sou capaz!

16 de abril de 2006

Espaço e tempo…

Durante este curto período de descanso reencontrei alguns colegas de infância. Creio todos nós já experimentámos sentimentos ambíguos de intimidade e estranheza, de cumplicidade e mistério. Recuperámos imagens através das quais vemos um tempo e um espaço vivido em conjunto enquanto que somos sobressaltados pelas mudanças que o ambiente social e cultural suscitou em cada um de nós.

Fico com a sensação de que nem todos teremos a capacidade de compreender por que motivo manifestávamos diferentes formas de ser nesses momentos temporais. É como se de repente se abrisse um fosso de espanto…

13 de abril de 2006

Um breve olhar para a actualidade educativa

Manuais adoptados pelas escolas vão ser válidos por seis anos.

[…] todos os editores terão de submeter os seus manuais a comissões de peritos (integrando docentes, investigadores, membros de associações pedagógicas e sociedades científicas), a quem caberá certificar os livros. O processo será supervisionado por um conselho de acompanhamento, a ser criado no âmbito do Conselho Nacional de Educação.

Com este sistema, a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, diz ficar «assegurada a efectiva qualidade dos manuais escolares, garantindo a sua adequação ao currículo nacional e aos programas em vigor, assim como as regras de rigor científico e pedagógico».”

Notas soltas:

  • Seis anos de ciência bolorenta [na prática serão oito anos - como relembra Vasco Teixeira da Comissão do Livro Escolar da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros - se atendermos aos dois anos para a concepção, certificação e produção do livro escolar, mais seis anos de vigência no mercado]?
  • Seis anos sem alterar programas e planos de estudo? Ficamos a saber que o alargamento da escolaridade obrigatória conservará os actuais planos de estudo do ensino secundário.
  • Era escusado o teor paternalista das declarações da Sra. Ministra quando refere que esta comissão “deslocalizará” [o vocábulo invoca um período político circense…] a pressão exercida pelas editoras. Hummm… creio que se enganou na prescrição… que disparate… na corporação.

Adenda:

7 de abril de 2006

:)

O meu disco, de dois em dois meses, tem de ser formatado. Nem todos os discos conhecem este processo. Morrem como nasceram. E nunca deram oportunidade ao tempo para lhes inscrever algo de novo. Vivem iludidos de que ainda conservam o seu estado puro e que esse estado lhes basta para enfrentar as exigências do quotidiano.

O meu disco, cedo se convenceu de que seria pequeno para abarcar as possibilidades da vida. Tenho de formatar o disco! Tenho de varrer uma enormidade de lixo que o distrai e faz desperdiçar energia.

Voltarei para a semana. Boa Páscoa!

5 de abril de 2006

Contra-relógio…

As reuniões de avaliação estão transfiguradas. O professorado foi, paulatinamente, envolvido em autênticas provas de contra-relógio. O objectivo é simples: preencher formulários no menor tempo possível. Diante de resmas de papelada para despachar, o professor vê escassear o tempo e a paciência para discutir o que realmente importa discutir - o aluno.

É óbvio que para um burocrata zeloso, enformado por uma visão maniqueísta, este tipo de prova [contra-relógio] permitirá separar o trigo do joio: Há que conter o professor negligente e tudo fazer para que as más práticas não incidam na classificação do trabalho do aluno. Porém, neste contra-relógio cuja distância [entenda-se… monte de papelada] não pára de aumentar, há um convite dissimulado à desistência dos corredores. E só alguns aguentarão!

Uma vez mais, o ME ao pretender atingir uma parte acaba por envolver o todo docente mas não deixa de revelar um sinal de desconfiança na capacidade profissional dos professores.

Se os responsáveis do ME estivessem realmente convencidos de que o incremento da burocracia em torno da actividade escolar é um factor essencial para a melhoria da qualidade das aprendizagens dos alunos, seria forçoso apetrechar as escolas de auxiliares administrativos. Nos departamentos disciplinares e nos conselhos de turma, os professores seriam assessorados por técnicos e concentrar-se-iam nas tarefas que envolvem a formulação de juízos acerca dos alunos, na investigação das causas dos problemas que afligem o acto educativo e na determinação das melhores estratégias para debelar esses problemas.

Se o ME estivesse interessado em melhorar a qualidade do trabalho docente preocupar-se-ia em garantir, como é seu dever, as melhores condições para o exercício profissional em vez de as deteriorar. Houvesse vontade!

Adenda: Tem 4 meses o blogue Estados d'alma. Segui-lo-ei bem de perto…

4 de abril de 2006

Abnoxio

Não conheço pessoalmente o Ademar. Não importa para o caso. Já comentei no seu blogue no tempo em que a caixa de comentários servia para trocar pontos de vista. Já trocámos por e-mail algumas impressões. Continuo a visitar com alguma regularidade o Abnoxio [vai na sua 3ª edição] e considero o Ademar um blogger genuíno. Escreve o que lhe vai na alma e não lhe noto qualquer fragmento de servilismo. Gosto de pensar que ainda existe gente deste tipo. E também não importa se concordo ou não com o que escreve. Basta-me gostar…
E porque gostei muito desta sua entrada, transcrevo-a integralmente aqui:

“Um problema de autismo (tributo a Mário-Henrique Leiria)...
No início do ano lectivo, o professor, fervendo de autoridade profissional, entrou musculadamente na sala de aula e, antes que disparassem, atirou logo a matar:
- Aqui, ficais já a saber, quem manda sou eu. Aprendereis o que eu quiser, quando eu quiser e como eu quiser! Esta é a minha pedagogia.
Alguma dúvida?...
A turma entreolhou-se ironicamente, ergueu-se à uma, disse em coro "PUTA QUE O PARIU!" e saiu da sala. Ficou, apenas, o Gabriel.
Foi o ano mais feliz da carreira do professor: tinha uma turma com apenas um aluno, que parecia beber em êxtase, todos os dias, os seus acetatos.Só no final do ano lectivo é que descobriu que o Gabriel, o aluno perfeito, era autista. Deu-lhe 5, a nota máxima. E atirou-se da Arrábida, com os acetatos...
Soube-se depois que já tinha pago as propinas do mestrado em administração escolar...”

Ademar Santos

3 de abril de 2006

Sentimento de injustiça (II)

Enquanto a C. implorava pelos objectivos [creio que se referia aos objectivos da matéria a incluir no bem-dito teste] revelava uma lógica hegemónica de preparação e treino de muitos alunos para as provas de conhecimentos. O teste escrito é um instrumento de avaliação normalizado envolto em rotinas que têm como horizonte os exames nacionais. Para além dos períodos agendados pelo professor e comunicados ao aluno com a maior antecedência possível, existe um manancial de pré-testes, exercícios, ou outras formas de automatismos que visam reduzir o grau de imponderabilidade do teste.
Fazer um teste sem pré-aviso é, para muita gente, um acto deplorável. É agir de má-fé, uma cilada, uma forma desleal de avaliar o aluno. Ao ver o problema através de uma única lente, C. foi assaltada por um sentimento violento de vitimação que enformou o seu comportamento.

E já que estamos num período marcadamente avaliativo, vejo alguma oportunidade nesta pequena questão:
Garantido o princípio da equidade, que limites devem nortear o aclaramento do processo de avaliação da aprendizagem do aluno?

Adenda:
Atendendo à falta de clareza no enunciado da questão anterior, sugiro esta simplificação:
Será legitimo que um professor apresente um teste escrito ou um teste oral sem avisar previamente o aluno?

30 de março de 2006

Sentimento de injustiça e educação para a paz.

O director de turma interrompeu a aula e solicitou alguns minutos para falar com a turma.
Os alunos estavam agitados, excessivamente inquietos:

- A professora não deu os objectivos!... O teste é na 6ª feira e, ao contrário do que tem sido hábito, ainda não conhecemos os objectivos do teste. Exclamava a C. ao mesmo tempo que deixava escapar o rubor da face.
- Estás certa de que houve uma promessa de facultar os objectivos do teste? Retorquiu o director de turma num tom de voz calmo e apaziguador.

O burburinho ia crescendo à medida que entrava em cena uma nova versão dos factos. O esforço do director de turma em aclarar posições parecia condenado ao insucesso. A conversa prolongou-se para além dos cinco minutos requeridos pelo director de turma sem se vislumbrar saída para a contenda. Os alunos sentiam-se injustiçados e prejudicados [para utilizar uma expressão proferida obstinadamente pela C.] pela pretensa medida infundada tomada pela professora.

Ficarei por aqui. Aproveito a complexidade desta cena real para destacar uma ideia de fundo: Os conflitos são oportunidades para os actores educativos se confrontarem com a Educação para a paz. E não será necessário conhecer o desenvolvimento do episódio para se extraírem algumas ilações:

  1. A educação para a paz é uma filosofia de vida. O objectivo é desenvolver uma cultura de nãoviolência que ajude as pessoas a olhar criticamente a realidade, a situar-se nela, a resolver os conflitos de forma não violenta, e que favoreça o desenvolvimento pessoal numa direcção positiva.
  2. Educar para a paz implica não suprimir a agressividade, que em princípio é positiva, porque facilita o controlo das tensões e evita que os conflitos se resolvam de maneira violenta;
  3. Educar para a tolerância e para a diversidade releva as diferenças entre as pessoas, ajudam-nos a crescer, a conhecer novas perspectivas e pontos de vista e permitem estabelecer pontos de encontro.
  4. Educar exige um compromisso com a justiça para que, quando apareçam situações contrárias a ela e não desejáveis, se manifeste a desobediência.

29 de março de 2006

26 de março de 2006

Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia

Há alunos do 11.º que sempre vão ter de fazer exame nacional de Filosofia.

Regras relativas ao secundário mudaram mas as provas pedidas pelas instituições de ensino superior mantiveram-se(Público – reservado assinantes)

Esta notícia não revela apenas um problema de comunicação entre dois ministérios. Revela, a meu ver, um problema estrutural de concepção dos próprios ministérios. Se o paradigma Bolonha vier a prevalecer, não encontro razões substantivas para manter separados dois ministérios que têm uma finalidade comum e que me atrevo a sintetizar: cuidar da formação pessoal e profissional dos sujeitos, incutindo-lhes hábitos de autoformação. A ciência e a tecnologia e as questões relacionadas com o plano tecnológico [a que se dedicam as instituições do ensino superior] serão meramente instrumentais se observarmos o papel das instituições de ensino sob o olhar da construção do projecto humano. O argumento antropológico não determina opções políticas. A eventual junção do MCTES e o ME será sempre uma questão política cujo quadro de referência assentará em lógicas de poder inter e intra partidárias mais conjunturais e menos estruturais.

Será o novo paradigma de aprendizagem [que reclama uma nova atitude dos sujeitos aprendentes e novas metodologias de ensino dos professores], que se espera vir a ser hegemónico com a aplicação do Tratado de Bolonha, o motor que desencadeará a fusão entre o MCTES (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) e o ME (Ministério da Educação)?

Como é que será aproveitada a oportunidade para envolver e implicar os principais actores na mudança de atitude?

Irá, uma vez mais, prevalecer a cultura das oportunidades perdidas?

24 de março de 2006

Embuste…

Não resisti…
Fui obrigado a interromper a abstinência blogosférica quando me deparei com este título:
Secundárias sem informação sobre alterações no superior

Nem o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior nem o da Educação lançou qualquer informação sobre o que vai mudar no ensino superior com a entrada em vigor do processo de Bolonha, que prevê a harmonização do ensino superior europeu.”
(Público – reservado a assinantes)
O muro que separa o superior dos níveis precedentes é intransponível. E o problema é que os actores destes níveis de ensino continuam despreocupados e atentos ao seu belo umbigo.
Se é difícil entender a mesquinhez da balcanização que subjuga o professorado, o que dizer da (in)acção dos responsáveis pelos dois ministérios?
Para quem apregoa os chavões do rigor e da competência exige-se, no mínimo, coerência!

Bom fim-de-semana!

21 de março de 2006

...

Submerso por uma avalanche de trabalho, só na 2ª feira me libertarei dos compromissos que assumi.
O encontro na blogosfera está adiado…
Até já!

17 de março de 2006

O que nos vale é a estatística…

"O caso da professora de Informática da secundária Herculano de Carvalho, em Lisboa, que esta semana foi agredida não é uma história isolada. Por todo o país, dizem os sindicatos de professores, há queixas de docentes que foram agredidos ou ameaçados por alunos ou pais. E são cada vez mais. No caso da Herculano de Carvalho o agressor era exterior à escola, mas foi dentro do recinto escolar que esbofeteou a docente.

[…] O Ministério da Educação não tem ainda dados do número de agressões físicas a professores registadas no primeiro período deste ano lectivo, mas a "avaliação qualitativa que o gabinete de segurança faz é que o número de incidentes diminuiu", refere Ramos André, adjunto do gabinete da ministra da educação .” [Público, necessária assinatura]

Hummm… O ME não tem dados mas “a avaliação qualitativa” sugere que o número de incidentes diminuiu… Estou a ver. É tudo uma questão de palpite.
E vamos lá a acreditar, de uma vez por todas, na palavra dos assessores, dos secretários e da ministra. É que já chega de mau feitio.
Esta notícia é relevante porque prova que a estatística tem sido muito útil às vítimas. Se eu a fosse uma das vítimas, e há uma grande probabilidade de isso vir a acontecer, ficaria muito mais tranquilo por saber que há menos cabeças rachadas e escoriações de professores enxovalhados. Deixaria de me sentir inseguro e humilhado. Até porque a solidariedade pública do ME e da ministra ajuda muito.
Bom fim-de-semana.

Adenda: "Braga: Pais obrigam a reforço de segurança em EB 1 - Professora sovada." [Obrigado pela achega, f.]

Estes jornalistas não se enxergam? Será que não percebem que desfiguram o ramalhete, que é composto por um pretenso pacto de não agressão entre o ME e a CONFAP, e mancham o cenário estrambólico delineado para o sistema educativo?
... Eu disse CONFAP? Está tão calada?...

16 de março de 2006

Desintoxicação…

Tenho uma grande dificuldade em resistir a um bom desafio. Creio que esta mania [eu prometi que pouco a pouco revelaria alguns caprichos] deriva de uma relação umbilical que me liga ao desporto. Um desafio pode ser, deve ser, uma oportunidade de comprovação e superação. Um desafio pode serolhado, também, por uma perspectiva hedónica.

A Isabel, uma vez mais a Isabel, lançou o repto e eu aceitei de bom grado: "andam mesmo a desgastar-nos, a stressar-nos (...). Por isso, temos que brincar mais aqui pela blogosfera, quase que propunha um tempo sem temas sérios, só humor, mas... não tenho jeito para isso, faço a proposta ...". Aceitei com uma condição [É óbvio que esta estória da condição foi uma forma coloquial para personalizar o desafio colocando-o à minha medida]:
Ó Isabel, deixar os temas sérios de fora... é perder uma boa oportunidade de os “desconstruir” [digerir?]... não achas? hummmm... é uma sugestão interessante... só espero é que este desafio não me obrigue a confrontar com uma perda: a perda do meu sentido de humor...

Já passaram algumas horas depois deste achaque. E agora que releio o que escrevi posso garantir-vos que considero a clausula única que permitiu a aceitação do desafio um autêntico disparate. Temas sérios? Ferirei susceptibilidades se publicar cartoons sobre a educação? Não?! Então esta série [única] é dedicada ao estimado colega do superior Nuno Crato e aos seus comparsas “Eduqueses”.



(Figuras: Carlinda Leite, 2003)

[PS: Como não foi acordado um tempo para a desintoxicação nunca serei incriminado pela recaída prematura. É que já estou de ressaca…:)]

14 de março de 2006

Enredado na própria teia II

Da obra referida em baixo, Nuno Crato elege como conclusões:
  1. "(...) o ensino não precisa de reformulações drásticas nem de reviravoltas pedagógicas revolucionárias. (…) é necessário consolidar métodos provados e adoptar mudanças apenas para o que a experiência mostrar poder funcionar. [...]
  2. É preciso centrar forças nos aspectos essenciais do ensino, ou seja, na formação científica dos professores, no ensino das matérias básicas, na avaliação constante e na valorização do conhecimento, da disciplina e do esforço."

As ideias defendidas enfermam de dois equívocos:

  1. Porque se centram, em exclusivo, nas questões do ensino como se fossem independentes das questões da aprendizagem. Isto é, assenta no pressuposto de que a aprendizagem é exterior ao sujeito que aprende e que é subordinada, basicamente, ao método - de ensino, de avaliação, de trabalho do professor. Trata-se, no meu entender, de um apelo à forma escolar baseada na revelação e na cumulatividade, como se a forma escolar fosse independente da organização e da instituição escolar.
  2. Porque reduzem os problemas do ensino à função de difusão e incremento do conhecimento e da cultura em geral. Isto é, o autor lança um olhar que torna despiciendos os inúmeros desafios que se colocam à escola, nomeadamente, a fundamentação da democracia, o estímulo ao desenvolvimento da personalidade do sujeito, a inserção dos sujeitos no mundo e a custódia dos mais jovens [sublimada pela acção do actual governo].

Nuno Crato defende a manutenção do actual sistema escolar. Divirjo desta opinião porque não defendo um sistema escolar que se tem revelado ineficiente para as funções reclamadas à escola. E basta observar os discursos políticos hegemónicos, as medidas adoptadas [não precisarei de recuar mais do que 20 anos] e os mesmos chavões de sempre [o rigor e exigência] para se perceber que é reclamado MAIS DO MESMO, embora a estratégia passe por fazer crer que o sistema de ensino tem sido governado por fantasmas dogmáticos construtivistas e românticos rousseaunianos.
E a grande ironia de tudo isto é verificar, dos principais responsáveis pelas políticas educativas dos últimos vinte anos, a anuência pelas teses defendidas por Nuno Crato.

Mas, desenganem-se se pensam que discordo de tudo o que li. Gostei, particularmente, do epílogo: “Os bons professores sabem o que se deve fazer e tentam fazê-lo. Se muitas vezes não fazem mais e melhor, essa limitação não se lhes deve. Deve-se sim às imposições avulsas do Ministério, aos currículos desconexos, aos maus manuais escolares, a um ambiente de desrespeito pela cultura e pela educação.

Fica-lhe muito bem reconhecer o esforço dos professores que ainda são capazes de tolerar os devaneios do poder político!

Por quanto tempo?...

12 de março de 2006

Enredado na própria teia

Ando a ler, pausadamente, o livro de Nuno Crato (NC). Não estou sozinho como seria de esperar. Conheço alguns colegas que já decidiram percorrer o mundo do “eduquês” através de um dos seus defensores. Embora NC procure colocar-se no lado da barricada dos “não-eduqueses”, ele acaba por revelar o seu papel de infiltrado [;-)]. Ora vejamos este pequeno excerto:

O presente texto [refere-se ao seu livro] pretende descortinar, por detrás de posições avulsas e documentos confusos [refere-se aos “eduqueses”], algumas das ideias essenciais que aparecem associadas a essa corrente pedagógica de inspiração pós-moderna e romântica”. (p. 12)

Se buscasse um aspecto secundário do “eduquês” [caracterizado pelo uso de uma linguagem hermética] teríamos aqui um bom exemplo. Mas fixemo-nos no que pretende o autor: descortinar, por detrás de posições avulsas [retiradas do contexto, como é o caso] algumas ideias essenciais [o que não é nada fácil até porque NC reconhece que as ideias se escondem por detrás de uma linguagem hermética] e associá-las a essa corrente de inspiração pós-moderna e romântica. Corrente de inspiração pós-moderna e romântica? Presumo [aí está, sou obrigado a presumir porque o autor não foi claro ao ponto de dizer o que entende por pós-moderna…] que esta corrente pós-moderna é um efeito da pós-modernidade que não é mais do que uma condição social que compreende padrões particulares de relações sociais, económicas, políticas e culturais. Haveria muito a dizer sobre esta afirmação mas fico com a ideia de que o autor está agarrado a um paradigma de modernidade, como se fosse possível regredir no tempo.

NC é um investigador que decidiu opinar sobre a educação. E se lhe deram oportunidade de publicar a sua opinião, fez muito bem em partilhá-la. Podiamos ler a sua opinião num blogue, numa página de jornal ou num comentário televisivo. Num livro sempre é mais rentável para o autor. No fundo, é mais um olhar sobre as questões educativas. E como reconhece NC, o seu texto [em forma de livro] não “constituiu um estudo empírico nem uma síntese de resultados ou das influências práticas das ideias”: Propõe-se criticar ideias e mostrar algumas das suas possíveis implicações. “O que importa são as ideias não são as pessoas”. Eu reforço: o que interessa são as ideias. É talvez por isso que não deixo de me preocupar com as opiniões que desvalorizam a linguagem técnica e com as acções que directa ou indirectamente preparam o terreno para o avanço das políticas educativas de tipo neoliberal. Tenho por NC um enorme apreço pelo seu trabalho de divulgação científica e não sendo um apreciador de “matematiquês” faço um esforço para descodificar a linguagem hermética usada por si e pelos seus pares. Seria bom que NC e todos os infiltrados em “eduquês” fizessem o mesmo esforço e reconhecessem as suas limitações de compreensão nos assuntos que não dizem respeito ao “matematiquês”.

NC defende as suas ideias apoiando-se num exercício de retórica sem apresentar estudos empíricos e dados científicos que as sustentem. NC acaba, assim, por se deixar enredar na teia que construiu porque ao desvalorizar as ideias que não decorrem de estudos empíricos e dados científicos acaba por depreciar a sua própria retórica.

Adenda: Isto a despropósito(?) do tema desta entrada, para quem só vê desgraça no ensino secundário, atente este breve apontamento:
“o ensino secundário tem-se vindo a revelar particularmente apto a desempenhar uma função de formação que ganha sentido à medida que o aluno, enquanto indivíduo, se reconhece como autor do seu próprio sucesso/insucesso escolar e, consequentemente, responsável pelo seu próprio destino.”

Humm.... estranho: Investigação e trabalho empírico de suporte a essa investigação nas Ciências da Educação? Ora, aqui está uma boa notícia para o Nuno Crato e para os seus colegas “eduqueses”…

8 de março de 2006

Dias gloriosos… ;)

Sinto-me imerso numa espécie de caldo, entre o profano e o sagrado.

7 de março de 2006

Os inconvenientes

Já experimentaram as reuniões de urgência [que são sempre tardias se atendermos às necessidades dos actores educativos] promovidas pela tutela? Já tiveram o prazer de participar “ao vivo” nos raros encontros que visam diagnosticar [risos…esta coisa de diagnosticar é apenas uma brincadeira de mau gosto porque os diagnósticos já vêm traçados dos gabinetes “profundos”] o funcionamento dos cursos [reporto-me aos cursos tecnológicos/secundário]?

Admitindo que essa experiência não é singular, não imaginam a minha curiosidade em saber o estado em que regressaram à escola situada.

Admitindo que se lembraram de colocar algumas questões indagando os porquês das decisões e das medidas adoptadas, não imaginam a minha curiosidade em saber o estado em que ficaram os responsáveis visados.

Isto a propósito de algumas dúvidas que importa esclarecer:
Qual é o tipo de professor desejado pelo administrador?
Um professor tem o dever de participar e colaborar com a administração para a execução das políticas educativas. Considerando que a participação e a colaboração são dois conceitos polissémicos; e que as políticas educativas nem sempre são claras e inequívocas, como é que um professor se pode apropriar desse direito de participação e colaboração sem correr o risco de se auto-flagelar com epítetos de inconveniente?

6 de março de 2006

Analogias…

Ao ler as boas novas da Finlândia recordo, com alguma nostalgia à mistura, os momentos de debate que marcaram a minha formação inicial. Os olhares concentravam-se no desporto e buscavam noutras paragens outros modelos de trabalho, de treino, de prática, de organização. Enquanto que os conceitos, ou melhor, os pré-conceitos relativos à minha área de especialização eram, paulatinamente, revisitados à procura de sustentabilidade, a comunicação social fixava-se no espectáculo desportivo deixando escapar sinais de incompreensão pela aparição de uma qualquer Rosa Mota ou de um título europeu de clubes. Aciclicamente, a desgraçada nação desportiva gerava um talento desportivo. Nesse tempo, tal como hoje, as câmaras de televisão mostravam os mesmos especialistas em diagnósticos, de lupa em riste, à procura do SEGREDO do sucesso. Ironicamente, o destino desportivo de um país estéril deixava brotar um resultado de nível internacional. Fantástico! Afinal, mesmo com políticas de desenvolvimento desportivo inócuas era possível gerar talento desportivo e obter resultados; Mesmo com políticas de desenvolvimento desportivo incongruentes com os discursos que as suportam, o modelo de prática piramidal produzia campeões e aqui pouco importava se, por via disso, seriam ou não hipotecados os recursos financeiros para uma prática desportiva generalizada.
Enquanto o circo mediático montado em torno do espectáculo desportivo continuar a alimentar uma política de terra queimada [até porque os recursos são finitos], os modelos dos outros quando observados sob olhares paisagísticos encontrarão resistências nas concepções relativistas de eficácia. Azar o deles!

Adenda - … Azar o deles!? Para ser mais exacto: Azar o nosso!!

Importação de modelos educativos…

O primeiro-ministro quis saber se os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem são ajudados com aulas extra, mas os responsáveis da escola explicaram-lhe que esse tempo lectivo suplementar era considerado desnecessário.”
Desnecessário? Mas que impertinência…

"Numa sala de aula, há sempre mais do que um professor. Logo que um aluno revela uma dificuldade, um dos professores da sala assiste-o", explicou uma das directoras da escola.”
Mais do que um professor na sala de aula? Hummm… e se juntarmos duas turmas numa sala única?… 56 a 60 alunos numa sala… é acanhado mas… que diabo… com o voluntarismo dos professores nada é impossível…

Sócrates ficou ainda mais espantado quando ouviu que na Finlândia os melhores alunos "querem ser professores". "Não é por causa do salário, que não é muito elevado. Ser professor significa respeitabilidade social", explicou uma das directoras da Escola Básica de Ressu.”
Dá para imaginar cara de espanto do primeiro-ministro? O que me deixa espantado é a possibilidade do primeiro-ministro se deixar espantar.

Ora vamos lá preparar a ossada para vestir esse fato!

5 de março de 2006

SOS Professor

Não posso deixar escapar esta oportunidade para louvar uma iniciativa de uma repetente em matéria de inovação: Chama-se SOS Professor - Teia de Apoio e “funcionará como um "arquivo" de apoio (uma "teia" de ajuda) que oferece ligações a documentos/materiais produzidos na Escola EB2,3 de Azeitão e que são úteis às actividades de qualquer professor/escola no processo de gestão do seu trabalho organizacional (não se encontram aqui materiais para trabalho curricular em sala de aula).

É verdade: A Teresa não pára e ainda bem. É que nada melhor do que um banho de pragmatismo e vitalidade para reacender o entusiasmo.

Adenda: O Delfim criou um novo blogue. É o Educar é bom [ http://educarbom.blogspot.com/]

3 de março de 2006

A escola observada deste lado II

E já que estamos em maré de inovação… dê um salto interactivo até ao INTERACT quadros interactivos na sala de aula.

2 de março de 2006

A escola observada deste lado…

“Um conjunto de weblogs dinamizados pela professora Teresa Martinho Marques está a renovar as práticas de ensino e aprendizagem, mobilizando os alunos para uma outra relação com os saberes. ” [in: S@ber n.º 18 - Boletim Quinzenal de Educação – Ed. ASA]

O sabor das palavras chega devagarinho… É o sabor do saber!

28 de fevereiro de 2006

A escola a tempo inteiro disfarça a ausência de educação a tempo inteiro!

O artigo de opinião de Vital Moreira (VM) [Público POL nº 5816 | Terça, 28 de Fevereiro de 2006 – serviço reservado a assinantes] vem exaltar as medidas governativas que foram denominadas junto da opinião pública por “Escola a tempo inteiro”.
Considera VM que:
“[…] O primeiro sucesso foi o de colocar a educação e a escola no centro da agenda política governamental e da discussão pública, o que é um prodígio num clima obsessivamente dominado pelos temas do défice orçamental, da crise económica e do pessimismo social. O segundo êxito é o aplauso generalizado que as medidas governativas nesta área têm suscitado na opinião pública (com as excepções previsíveis). São várias as razões para esse duplo êxito: atacar os problemas concretos, tal como sentidos pelas pessoas; avançar com soluções praticáveis e coerentes; colocar os utentes, e não os profissionais, no centro das preocupações; revelar coragem e determinação em levar de vencida as resistências corporativas e os interesses estabelecidos.”
Estará a educação e a escola no centro da agenda política governamental e da discussão pública? Não estaremos a confundir problemas escolares com problemas educativos? Não estaremos a confundir opinião pública com opinião publicada? Os efeitos da opinião publicada na opinião pública são conhecidos; Para além das produções discursivas apresentadas na imprensa e nos mass media por observadores e analistas políticos generalistas e com grandes audiências, quem é que intervém nesta discussão? Não será uma prova de miopia analítica desprezar o contributo da investigação das realidades socioculturais ao afastar dos órgãos de comunicação social e da discussão pública os verdadeiros especialistas em educação?
Serão merecedoras de aplauso as medidas governativas que resultaram numa campanha populista de imolação da credibilidade dos profissionais da educação [cuja resistência será sempre entendida como uma resistência corporativa mesmo que essa resistência seja motivada por outra razões, nomeadamente, o seu entendimento do que é o interesse e o bem das crianças e jovens], sob a bandeira da eficiência, coragem e acerto das medidas?

Serão demasiadas perguntas que confluem numa resposta: O aplauso generalizado que as medidas governativas nesta área têm suscitado na opinião pública deve-se, unicamente, à argúcia política deste governo, potenciada pelo namoro aceso com a comunicação social e não pela substância das próprias medidas.

“A escola a tempo inteiro” é uma retórica dos políticos e de muitos comentadores “especialistas em generalidades” que procuram a legitimação de certas escolhas políticas utilizando argumentos científicos [das ciências humanas e sociais] e que tentam disfarçar a supremacia das políticas economicistas. Os critérios para a constituição de turmas, a rigidez da gestão do crédito horário dos professores pelas escolas, são dois exemplos inequívocos que colocam no centro da decisão política os interesses económicos e não o interesse dos alunos.
A retórica “A escola a tempo inteiro” serve para ocultar o défice de “Educação a tempo inteiro” do nosso modelo de organização política e social. A apropriação perversa nos discursos políticos do discurso científico faz-me desconfiar da credibilidade das visões monocromáticas que defendem o interesse e o bem dos utentes [não gosto do termo aplicado à educação… mas percebo a oportunidade da utilização], ou seja, as crianças e jovens; da arrogância ideológica que considera a singularidade do interesse e do bem dos utentes; da sobredeterminação ideológica em detrimento do conhecimento factual; das corporações de arautos do bem comum.

Como dizia uma estimada colega: “Eles não brincam em serviço... e nós não podemos dormir em serviço... ou isto vai acabar muito mal.”

Adenda:
Aconselho vivamente a leitura deste texto no crackdown.

25 de fevereiro de 2006

Professores de segunda…

"O PSD quer que os professores desempregados possam ajudar nas escolas, no combate ao insucesso escolar, e junto das comunidades de imigrantes, para integração na sociedade, contando esse trabalho para o tempo de serviço."

Ajudar nas escolas? Ajudar a fazer o quê? Um professor ajudante é um professor ou um auxiliar da acção educativa? Se é um professor e tem condições de desempenhar a função para a qual está habilitado, por que razão há-de ser remunerado com o subsídio de desemprego? Se a moda pega, ainda veremos um programa nacional para a promoção do desemprego.
Proponho que a moda comece no próprio governo e se estenda até à Assembleia da República: Seria uma grande contribuição para a diminuição do défice!

24 de fevereiro de 2006

Afectividade como matéria de ensino…

"… a afectividade não se ensina, pratica-se. Não pode nem deve ser encarada como se fosse um conteúdo…"
Esta afirmação do adkalendas foi enunciada após um prolongado debate que se seguiu ao excerto de Hargreaves. Não seria congruente com as ideias de escola que defendo que deixasse este assunto sem um pequeno acrescento.
Creio que a afirmação foi proferida num contexto em que se coloca a formação académica dos professores no centro das preocupações educativas. A ideia que subjaz à afirmação é, a meu ver, que a deficiente formação académica dos professores no domínio da sócio-afectividade legitima a demissão da escola da sua função formativa.

Parece-me claro que a afectividade é aprendida e desenvolve-se como todas as outras capacidades humanas. Se a escola busca o desenvolvimento integral dos alunos como poderá a afectividade ser destituída de conteúdo? Vejamos: quando um aluno se envolve ou é envolvido num conflito com um colega e/ou com o professor numa sala de aula, quando degrada material escolar, quando hostiliza um parceiro pela ideias que este defende, quando recusa os valores da solidariedade, da cooperação e da entre-ajuda,… o professor deve ou não encarar estas problemáticas como conteúdo/matéria de ensino? Deve ou não incluir no seu plano de trabalho actividades orientadas para o desenvolvimento afectivo? Serão as capacidades sócio-afectivas sensíveis ao treino e à exercitação? Uma formação inicial de professores centrada numa pretensa formação científica que menospreze a integralidade do sujeito pode ou não legitimar a desresponsabilização da escola face ao desenvolvimento afectivo dos educandos? O que é afinal um conteúdo de ensino?

Chegamos, uma vez mais, à balcanização disciplinar!

23 de fevereiro de 2006

Revista à blogosfera adiada

É uma pena que o José tenha interrompido a sua participação na blogosfera. É que esta entrada vem mesmo a calhar:

Uma DÉCIMA sobre a INSTRUÇÃO
Décima atribuída ao “tio” Belchior, (falecido), Estação de Ourique, Castro Verde, in A ESPIGA – uma publicação Nº 1 de 1982, da Escola Preparatória de Beja, coordenada por Abílio, Maria do Carmo, Maria da Conceição Teixeira e Maria Joaquina.

MOTE

A INSTRUÇÃO (NÃO) É PRECISA
A INSTRUÇÃO NÃO CONVÉM
QUE A INSTRUÇÃO EMBRUTECE
A QUEM MUITA INSTRUÇÃO TEM.

Duques, marqueses, morgados
Família de igual medida
É tudo gente instruída
Alguns em direito formados
Lentes e deputados
A morte os harmoniza
Sabe Deus quem autoriza
A conhecer o bem do mal
Para a base fundamental
A instrução não é precisa.

Se todos pudessem estudar
E todos pudessem saber
Quem havia exercer
Por aí tanto lugar
Ninguém queria trabalhar
Cuidar dos gados de alguém
O estudo para quem não tem
Não é útil o seu ensino
Para quem é pequenino
A instrução não convém.

O rico por ter estudado
Não faz trabalhos de peso
Nem encargos de desprezo
Quem os faz é gente rude
O que não sabe faz tudo
é o que menos merece
É àquele que não conhece
De que serve ter aprendido
Há tanto homem instruído
Que a instrução embrutece

Ver-se o pobre ignorante
Não causa admiração
Ele não recebeu instrução
Não vê os erros por diante
Admira é o estudante
Que vai a Coimbra e vem
Não é um são mais de cem
Se a gente os for a contar
Isso é que é para admirar
A quem muita instrução tem.


Adenda:
Professora, posso falar consigo? ... A IHARAH regressou à blogosfera;
O António mudou de endereço. O Tratado das Paixões está aqui -http://www.tratalma.blogspot.com/

20 de fevereiro de 2006

Pausa

Interrompo até 4ª feira a minha participação na blogosfera.
Não é um sinal de protesto pela recente declaração ao jornal Público do Engenheiro José Sócrates: “Aulas de substituição obrigatórias no ensino secundário a partir de Setembro”.
Também não é um sinal de regozijo pela votação nos Blopes.

É uma peregrinação gloriosa e não decorre das cerimónias de Fátima! ;)

Adenda: Ao percorrer este exercício reflexivo da Isabel, fui tomado por um cocktail de sentimentos antagónicos: um mesclado de nostalgia, euforia, cólera e inquietação.

Este estado solidário decorre da minha profunda admiração pelos verdadeiros actores educativos que resistem ao assalto dos pára-quedistas da educação. E quem são? Refiro-me concretamente a um grupo hegemónico de analistas muito bem retratados por Licínio Lima e Almerindo Janela Afonso, no mapeamento das políticas educativas em Portugal:

“De facto, a visibilidade social de muitos analistas e o seu paradoxal afastamento (e muitas vezes desconhecimento) das realidades e especificidades socioeducativas e organizacionais a nível local e institucional, bem como dos processos educativos e pedagógicos concretos, não superado através de uma actividade sistemática de trabalho de campo e de recolha e análise de dados empíricos em contextos específicos de acção, condena-os a visões apenas panorâmicas, tendencialmente englobantes e homogéneas das realidades educativas (e, por essa via, muitas vezes, a análises daquilo que não conhecem, ou só muito parcialmente podem conhecer). Ensaiam, assim, um olhar constante de cima para baixo, sem a procura do desafio inverso (e da eventual vertigem resultante), isto é, sem interrogar as grandes decisões políticas e legislativas (centrais), pretensamente reproduzidas nas diversas unidades de gestão (periféricas), a partir da centralidade da acção educativo-pedagógica que ocorre em contextos e por iniciativa de actores concretos, com a força que lhes advém da acção e com a respectiva margem de autonomia relativa, e por vezes com o interesse e a capacidade de não reproduzir apenas as directivas centrais mas também de lhes conferir, na/pela acção, um estatuto periférico ou marginal.” (p. 11)

[o negrito é meu]

18 de fevereiro de 2006

Abraços

Deixo aqui um largo abraço que envolverá os colegas e amigos, da blogosfera e fora dela, que participam nesta viagem.

Agora, há que aproveitar o fim-de-semana.

PS: E se houver tempo para a escola ainda voltarei às Reformas da Educação Pública.

17 de fevereiro de 2006

:)

Hoje importa falar da vida. Hoje, evoco o momento em que fui lançado para ela. E quando penso na vida, penso nos modos de a enriquecer e de a qualificar. É aí que entra a humanidade que é algo que depende em boa medida do que fazemos uns aos outros. É aí que entra a aprendizagem do trato humano, dos seus significantes e significados. A humanização e todas as formas do trato são um processo recíproco em que ao tornarmos a vida boa para nós não deferirá muito de tornarmos boa a vida. Para os outros, para todos, como diria Savater.
O legado que recebi há 41 anos ultrapassa um cenário de sobrevivência. É um projecto que pretende ir mais longe. É um projecto balizado por padrões éticos e estéticos que desejo ver cada vez mais elevados envoltos por uma matriz hedonista…

14 de fevereiro de 2006

Enredado…

Ainda bem que o adkalendas decidiu retomar a discussão acerca da função da escola e do professor porque permite revisitar a “velha” questão: instrução versus educação.
[Esta pequena entrada não dispensa a leitura do Enovelado.]

Um professor só ensinará aquilo que o aluno estiver na disposição de aprender. Sem entender o aluno, sem estabelecer uma relação afectiva favorável à aprendizagem, sem personalizar o acto educativo, de que vale ao professor o saber específico? É fácil cair em dualismos herméticos claramente desfasados do que é a relação educativa. E a relação educativa é o acto educativo, que terá de ser personalizado. Se assim não fosse, o professor seria prescindível até porque existem outras formas de o aluno aceder ao conhecimento, porventura, mais capazes e mais actualizadas.
Não creio que a ênfase na questão dos afectos minimize a qualidade do acto educativo. Bem pelo contrário, legitima o trabalho do professor. E reduzir o trabalho do professor ao acto instrutivo é, a meu ver, regredir na profissionalidade docente. Ser educador é apostar no desenvolvimento da pessoa do educando e assumir-se a si mesmo como pessoa. Apesar de assistirmos à exigência exacerbada de mais educação na escola, há que procurar retirar da pressão benefícios que se traduzam em melhor escola.
Malogradamente, não tem sido possível encontrar formas de creditar a exigência e a responsabilidade que recai na escola no reforço da qualidade educativa [que não dispensa o reforço dos recursos educativos].

Adenda I – Obrigado pela deixa, Teresa e Isabel.

“Resumindo: continuamos de acordo.E agora? O que fazemos com isto tudo?”

Ora aqui vai uma ideia psicadélica: A luz que radia dos holofotes dirigidos para a escola [pensei num sistema de recuperação da energia solar… ;)] tem sido mal aproveitada sobretudo pelos actores educativos. Usando uma analogia futebolística [e há quem não goste deste tipo de analogias ;)] é preciso saber viver com a pressão. Entrar em pânico nos momentos decisivos [recordo que estamos prestes a renegociar o estatuto da carreira docente que reconfigurará, digo eu, o papel do professor] dificulta a expressão do potencial de cada um [da equipa ou do grupo profissional]. Curvar-se nos momentos em que é necessário assumir riscos [e não podemos esquecer que há divergentes perspectivas e interesses quanto ao papel da escola] é uma fragilidade que afastará os professores dos lugares de decisão da orientação educativa.
Deste modo, é necessário exigir dos nossos representantes associativos [sindicais ou associações profissionais…demarcando as questões laborais das pedagógicas (será possível?)] firmeza e clareza nas posições que adoptarem em sede de negociação ou reivindicação. Obviamente que a tibieza das acções dos nossos representantes legítimos deve ser penalizada pela via da desvinculação ou através da criação de outras alternativas cívicas [a meu ver, a Ordem não é uma alternativa exequível] nomeadamente, as iniciativas do tipo apartidário - Estados Gerais da Educação (???).
Mas não chega exigir dos outros mais responsabilidade. Há que procurar, através das iniciativas locais, sensibilizar e mobilizar as comunidades educativas agregando-as às nossas causas. E isto não depende dos outros. Depende da acção de cada um de nós na escola situada.

Adenda II: Aproveito a oportunidade para deixar o reflexo do colega Delfim Peixoto http://transparenciasereflexos.blogspot.com/ . Bem-vindo.

13 de fevereiro de 2006

Desafios…

A onda mais recente da blogosfera [e se ainda não a apanhou ou foi apanhado o mais provável é que a onda morra na praia] é um desafio "cândido" cujo propósito será: dar a conhecer uma faceta mais pessoal dos bloggers. Exceptuando o caso dos blogues mais intimistas, a discussão dedicada à coisa educativa é mais ou menos hermética ao mundo das emoções e nem sempre revela [e por que teria de revelar?] a face humanizada [peço desculpa pelo palavrão] do blogger. Não atribuo um significado especial a este tipo de actividades, mas reconheço que interferem no CLIMA da blogosfera. Em doses moderadas, estas iniciativas podem promover a agregação de uma comunidade, enredar uma teia de discussão, fidelizar grupos de interesse.
As ondas são como as modas: Só as apanha quem quer! E só participa quem reconhece alguma vantagem nessa participação.
Isto a propósito do desafio que correu a blofosfera, tema da entrada anterior, e da ideia [alegre] da Isabel que sugere uma metamorfose do concurso de “manias”, agora observadas sob o ponto de vista educativo…
Seria um intróito deste género:
Olhar para o professorado entretido com as suas rotinas e destacar as manias MAIS e MENOS proveitosas [hummm… para quê?] para o exercício profissional.
A ideia não passará por reeditar as Virtudes capitais do professor e os Pecados mortais do professor, assuntos muito bem tratados no blogue da Lucília. Seria um olhar mais descomprometido e idiossincrático. Será possível? E como é que isto se faz?

Uma adenda para duas boas notícias:

  1. Parece que os problemas que me ocuparam o espírito durante os últimos dias estão debelados. Há que recuperar energia e a disposição…
  2. O regresso do Manel à blogosfera, De cabeça, vai enriquecer esta excelente tertúlia que se deixou embalar pela coisa educativa.

9 de fevereiro de 2006

Elos…

[Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.]

Olhei para dentro e encontrei algumas rotinas, mais ou menos esotéricas.
A Lucília foi o elo de uma cadeia que percorrerá, num ápice, a blogosfera. Alguns dos seus hábitos também são meus, o que não me surpreendeu. Será a excentricidade plural? Será possível caracterizar uma mania sem denunciar um espaço e um tempo revelador?
Avancemos… excluo das minhas preferências rotineiras o gosto pela escrita e as viagens pela rede porque serão os elementos aglutinadores da teia que ajudo a engrossar diariamente.

# mania de argumentar…
… e buscar fragilidades no argumento.

# mania de usar canetas de aparo…
... e de passar uma boa parte do tempo a encontrar a sua morada.

# mania de considerar a actividade física indispensável à minha sanidade mental.
Eu sou o meu corpo!

# mania de me deixar enlear por um conversa que desagúe num problema educativo…
… e quando não desagua modificar-lhe o curso.

# mania de um sorriso sarcástico ao avistar os cromos snobe e subserviente…
… designadamente, o tipo académico empolado e o “boy” que esfola sete gatos pelo “job”.

# mania de privilegiar o olhar em detrimento do ouvido…
... o que não deixa de ser paradoxal atendendo à insensibilidade cromática e ao ritmo afinado.

# mania de ser excessivo…
…nos afectos, na profissão, nas paixões, nos desencantos, nas virtudes e nos defeitos… e nos desafios.

Os cinco ;)(?) bloggers a quem passo o desafio são:

Miguel Sousa - Língua de trapos
Isabel - Memórias Soltas de Prof
Teresa – Tempo de teia
Manel Cabeça – Crónicas do deserto [provisoriamente]
Teresa - Talvez uma Península
adkalendas – Micómio
Henrique Jorge - Um prego no sapato
crack – crackdown
Tit – O canto do vento
MJMatos – Que Universidade?

Depois de nomear estes cinco cúmplices bloggers fiquei mais tranquilo: A onda prosseguirá o seu destino…

8 de fevereiro de 2006

Um breve passeio pela floresta...

"[…] na maioria dos casos, a relação entre o lado afectivo e o académico pesa infelizmente no sentido contrário. Muitos jovens não irão aprender os conteúdos académicos se não se ligarem afectivamente aos assuntos. Se se sentirem isolados, perdidos e à deriva na escola, eles vão desligar-se da aprendizagem. E sem aprenderem as competências, responsabilidades e recompensas do afecto e da cooperação com os outros, todo o desenvolvimento intelectual do mundo não fará deles melhores pessoas ou melhores cidadãos." (p. 80)

Aspectos positivos:

Teresa: “Não penso que a mensagem aqui deixada indique que o consumo de tempo com o afecto afecte o tempo de aprendizagem do "resto"”.

Teresa Lopes: “Aquele abraço que uma aluna me deu, passados dois ou três anos, quando me encontrou na rua, ainda o sinto”.

Joana: […] "ter/mostrar entusiasmo" e "preocupar-se (caring) com os alunos e com o que eles aprendem".

Constrangimentos:

Formação de professores
Tit: “Sentir a Escola e os Alunos... Algo que é difícil conquistar com Acções de Formação de "caça ao crédito"...

[É levantado o véu da formação contínua perversamente burocratizada.]

Divergências conceptuais – O que é a escola?
Adkalendas: “[…] Mas é preciso não esquecer a função principal da escola.”

[Qual é a função principal da escola? Atrever-me-ei a dizer, de forma simplista, que a principal função da escola é a promoção da aprendizagem conivente com o próprio processo de construção da pessoa. De que servirá uma aprendizagem que seja um enfartamento de um saber alheio à existência pessoal?]

Sistema de avaliação predominantemente orientado para o domínio dos conteúdos
Agostinho: "Mas infelizmente, depois temos os exames e os rankings do PISA que não levam os afectos em conta. Que fazer? "

Ruídos mediáticos e a devassidão do acto educativo
Ana: “Nos tempos que correm, com toda a história de pedofilias e afins, cada vez que toco num aluno, fico com a alma tremendo...”
____________________________

IC: “Qual o perfil do professor cooperativo?”

Tem de ser mais do que um técnico de ensino, tem de ser também um homem-de-pensamento. Tem de ser um intelectual transformador que ultrapasse os limites dos procedimentos de reflexão.

Mas, sem querer desviar-me da questão, será necessário marcar um caminho: Como diria o professor Manuel Ferreira Patrício, o perfil profissional do professor não se define, redefine-se. Depois de responder à questão suscitada pelo Adkalendas – Qual a função principal da escola? –, há que procurar, numa primeira fase, o perfil ocupacional, de seguida, será necessário definir o perfil profissional e por fim o perfil de formação.

É um trabalho árduo e complexo porque exige uma definição política, pedagógica e científica do professor que necessitamos.
E se não existir uma coordenação da definição política, pedagógica e científica?

5 de fevereiro de 2006

Será que vale a pena relembrar?

"O acolhimento afectivo (Hargreaves, et al., 2001. pp. 79-80)(1)

A maioria das reformas escolares parecem não atribuir importância ao afecto. E o trabalho emocional de dar suporte afectivo raramente é reconhecido como central na determinação do profissionalismo do professor. No entanto, conforme defendem autores como Noddings (1992), o afecto não é apenas um pré-requisito essencial para a aprendizagem, é ele próprio uma forma de aprendizagem:
Se a escola tem um objectivo principal, esse deve ser o de promover o crescimento dos estudantes como pessoas saudáveis, competentes, morais... O desenvolvimento intelectual é importante, mas não pode ser a primeira prioridade da escola (p. 10).
Os estudantes, segundo a autora, preocupam-se pouco com aquilo que têm que aprender (um problema do currículo). E queixam-se de que os professores não se preocupam com eles (um problema de apoio). A questão para a escola, sugere, não é o dançar ao ritmo do movimento da eficácia, perseguindo o princípio de que "todos os jovens podem aprender", mas perguntar-se antes o que é que os jovens devem aprender. Segundo Noddings, a afectividade, apreendida quer no currículo formal quer nas relações humanas, é um dos conteúdos mais importantes que os estudantes devem reter.
Existem várias formas mediantes as quais a escola e os educadores podem alargar os seus horizontes para além do plano puramente académico e perspectivar um espaço claro para o afecto na educação dos jovens. Para Noddings, alguns desses domínios-chave, ou centros de afecto, como lhes chama, são:
. Afecto por si/cuidado consigo – para o bem-estar físico (não apenas a "malhação" auto-indulgente, mas também o exercício físico ao serviço dos outros), vida espiritual, trabalho e recreação;
.
Afecto pelo próximo – pelos colegas e namorados, como preparação para a intimidade / vida em comum, pelos amigos e vizinhos, e, não menos importante, pelas crianças, através de oportunidades de trabalho com elas, no quadro escolar;
.
Afecto por colegas e conhecidos – por colegas e comunidades, em relações recíprocas de ajuda e apoio: uma preparação essencial para um bom (e produtivo) ambiente de trabalho e para uma cultura de serviço à comunidade;
.
Afecto pelos animais - pelos animais de estimação em particular, mas também por todo o mundo animal;
.
Afecto pelas plantas e pelo ambiente – para cuidar do próprio jardim, para apreciar a natureza e para cuidar do ambiente;
.
Respeito pela obra humana – pela manutenção dos objectos (contra a cultura do desperdício) e do património estético e arquitectónico no meio rural e urbano;
.
Respeito pelas ideias – pelas paixões do intelecto e da criatividade: não no sentido do processamento indiferenciado de todos os factos, mas no sentido da perspectiva e imaginação que o conhecimento e a reflexão permitem.
Isto não significa que o academismo não seja nada e o afecto tudo. Com efeito, as escolas do interior e as escolas com uma população mais humilde, que procuram providenciar um ambiente afectivo aos seus alunos, mas que não os estimulam intelectualmente, não lhes prestam um grande serviço, a longo prazo (Hargreaves, 1995). Mas, na maioria dos casos, a relação entre o lado afectivo e o académico pesa infelizmente no sentido contrário. Muitos jovens não irão aprender os conteúdos académicos se não se ligarem afectivamente aos assuntos. Se se sentirem isolados, perdidos e à deriva na escola, eles vão desligar-se da aprendizagem. E sem aprenderem as competências, responsabilidades e recompensas do afecto e da cooperação com os outros, todo o desenvolvimento intelectual do mundo não fará deles melhores pessoas ou melhores cidadãos (como o demonstram muitos déspotas de finíssima inteligência).
O afecto é importante. Não nos podemos dar ao luxo de o esquecer."


(1) Hargreaves, A.; Earl, L.; Ryan, J (2001). Educação para a mudança - Reinventar a escola para os jovens adolescentes. Porto Editora.

Adenda: Vá ao outro lado do oceano para conhecer a OFICINA DE PROJETO.

3 de fevereiro de 2006

Votação para os Prémios BLOPEs / Votación para los Prémios BLOPEs

Desconheço o(s) critério(s) para a nomeação e não sei, objectivamente, as razões da escolha. O que eu sei é que o outrÒÓlhar está acompanhado de nove blogues para a votação final dos Prémios BLOPEs.
Atendendo à importância que concedo à cooperação, partilha de experiências pessoais e reflexão conjunta, os colegas e amigos que nos presenteiam com a sua palavra, sempre elevada, e com o seu tempo, estão TODOS nomeados para a melhor tertúlia da blogosfera dedicada aos assuntos da educação. Para mim, já ganharam!
Sugiro que visitem os meus colegas de poltrona porque o que importa... é o olhardooutro!

Melhor Blogue feito por um professor/Mejor Blog hecho por un profesor:
Avalúo y Tecnologías de Aprendizage
Lourdes Barroso
Palavra Aberta
Vivência Pedagogica
Palavra Aberta
Vamos Blogar?
AulaBlog 21
blog de Benedicto
Sabichões da Azeda
outrÒÓlhar

2 de fevereiro de 2006

Olhares de fora…

1. Será a profissão professor susceptível ao isolamento? Admitindo que sim, que a profissão professor é uma profissão de grande desgaste emocional, qual é a verdadeira amplitude do problema? Será necessário propor medidas especiais regenerativas? Será um problema sério de saúde pública [é que cerca de 200000 operários é uma multidão…]? Ou não, que os queixumes de muitos professores tipificam a luta corporativa que visa preservar o estatuto profissional e evitar a despromoção social [isto é, a desvalorização salarial, a perda de regalias, etc.,etc.]?

2. Realizam-se inúmeras discussões a pretexto de um suposto braço de ferro entre os professores e o ME. É raro encontrar no enredo da argumentação um apelo à defesa dos interesses dos alunos. Qual é o fundamento desta corrente de opinião que censura a actuação dos professores? Admitindo que a crítica é plausível, por que razão os professores adoptaram a postura autista que dizem ver na actuação do ME?

3. Admitamos que a actuação política do ME tem sido desastrada. Será admissível que não se vislumbre uma medida que seja a merecer um louvor e o reconhecimento público da parte dos professores?

É que uma crítica decorre de uma autocrítica!