29 de janeiro de 2006
Troca de olhares
Ao contrário do que transparece após uma leitura enviesada dos textos divulgados, não é possível extrair qualquer olhar de cátedra, tanto mais que não existe por cá nenhum depositário. É, paradoxalmente, um olhar despretensioso que marca um trajecto singular, e um olhar ambicioso, plural de sentidos, que busca novas pontas da imensa teia de experiências que enriquecem a vida na escola e fora dela.
Uma entrada pretérita navegação à vista suscitou comentários de 6 companheiros de viagem.
A actualidade e a relevância do tema ensaiado justifica o destaque e, quem sabe, novas participações:
Escreveu a Teresa Homepage 27.01.06 - 8:36 pm #
Riscos: - quando finalmente estiver construída uma auto-estrada com duas faixas de cada lado... vai constatar-se que seriam precisas pelo menos quatro em cada banda...- quando acabar esta legislatura e, se por acaso, não tiver seguimento em tom de rosa mas em tom laranja... nunca se sabe quantos despachos novos vão sair a anular os agora despachados e a despachar...Pena que não se tente gastar um bocadinho de tempo, antes de fazer seja o que for (e de governar aceleradamente por retalhos), a definir uma espécie de pacto educativo concertado, com a participação de todos os envolvidos, e, sobretudo, multicolor... E, note-se, estou a pensar nos alunos ao deixar aqui estas palavritas... Eles precisam e merecem seriedade, continuidade, uma escola excelente - seja qual for o desenho que todos em conjunto venhamos a definir como o futuro mais adequado.(Sendo, simultaneamente solidária com os professores, é claro... mas nós já cá estamos há mais tempo e lá vamos encontrando forma de nos defender das alternâncias sem desígnio, sem projecto que se veja...).
Comentário ao comentário:
... pacto educativo concertado e ainda por cima multicolor. Não sei: Só com uma boa dose de optimismo (que soará a falso) é que se acredita na prova de bom senso dos nossos representantes políticos. O que não deixa de ser absurdo é encontrar na retórica política um apelo ao consenso em torno das questões educativas e o debate político-parlamentar não dar qualquer sinal a favor desse acordo. Recordo a discussão (era ministro da educação o Dr. Justino) gerada pela “reforma” da actual LBSE e a dissonância das posições dos grupos parlamentares da época.
À falta de senso dos representantes políticos, os professores devem responder com mais envolvimento pelas questões de política educativa.
“os alunos merecem seriedade, continuidade e uma escola excelente.”
Uma escola excelente também “produz” alunos excelentes. E que aluno é esse que a escola quer produzir?
Escreveu a IC Homepage 27.01.06 - 11:18 pm #
“Quem não está apreensivo? "Antes de definirmos o perfil ocupacional do professor é necessário definirmos a escola que queremos e o seu lugar na comunidade" - pois é, e eu logo em Junho falei de carroça à frente dos bois e em Agosto estampei no meu cantinho uma carroça à frente do burro, mas depois de ouvir a Sr.ª ministra (todos ouvimos na TV)justificar a sua pressa (leia-se precipitação) porque não podia perder um ano da SUA oportunidade na legislatura, acho que o "ritmo" deste ME ficou percebido e mais preocupante ainda.”
Comentário ao comentário:
Para onde corre a ministra? Foge de quem? Do défice? Estou convencido que ainda não se apercebeu que a manta é demasiado curta e que cobrindo o seu défice acabará por destapar muitos mais.
Escreveu o Paulo 27.01.06 - 11:43 pm #
“Penso ser claro que esta ministra está demasiado preocupada com os resultados. Olha para os pés, para baixo e não para a frente de modo a não cair na maior das armadilhas: encarar a escola como uma organização gerida de modo empresarial com fins sociais. Uma anedota tendo em conta que ninguém mais sabe o que se pretende da escola (um pouco de tudo).
Uma nota: estarão os sindicatos à altura de defenderem, do ponto de vista dos direitos os professores ou continuarão a argumentar que as medidas não são pedagógicas?”
Comentário ao comentário:
Os sindicatos debatem-se com um grande problema de afirmação: não é possível discutir direitos dos professores sem precisar o que é um professor (aqui concordo com o adkalendas). Os sindicatos sabem e o ME também, que um professor desenvolve um conjunto de actividades estruturais e outras conjunturais. E neste braço de ferro que decorrerão as próximas negociações. Parece-me claro que as actividades estruturais devem prevalecer sobre as actividades conjunturais no quadro ocupacional. Por exemplo: As actividades lectivas estruturais (aulas), as actividades lectivas conjunturais (aulas de compensação, vistas de estudo,…), as actividades extralectivas estruturais (clubes escolares), as actividades extralectivas conjunturais (projectos, seminários, …), etc., etc. [E quando me refiro às aulas estou a pensar na forma como o aluno acede à aprendizagem. Não estou a pensar no espaço onde a aula tradicional decorre.]
Nós (posso generalizar?) fomos amestrados para uma escola tradicional que continua a exigir competência ao professor para as actividades estruturais (excluo aqui a participação dos clubes), um profissional absorvido por uma panóplia de actividades conjunturais. Se a ideia é reconfigurar o perfil ocupacional do professor, vamos lá: mãos à obra, mas sem rodeios! E convém que exijamos à escola e ao professor apenas o que podem dar! Não mais do que isso.
Mas atenção: Reclamar uma nova escola pode passar por exigir um novo professor (ainda estou a pensar se o “novo” deve ter ou não um sentido literal). E nesse caso, o movimento sindical terá de reconhecer a inevitabilidade da mudança.
Será que o professado deseja enfrentar uma mudança do seu conteúdo ocupacional?
Escreveu a Matilde Homepage 28.01.06 - 1:00 am #
“ Na verdade não se entende... como se pode discutir o ECD sem antes se discutir o que se quer do professor, o quer se quer da Escola?
Quando, no post anterior, se discutia a falta de uma escola de tertúlia, sinto falta e muito. Na verdade, foi algo que, infelizmente, nunca conheci, mas que considero condição para melhorar a educação.
Quando referes, Miguel, se o ME irá aproveitar a oportunidade da negociação do ECD para "promover uma discussão que ultrapasse os muros da escola e que envolva todos os agentes educativos", considero sem dúvida esse aspecto fundamental, mas eu perguntaria antes disso se essa discussão será "alargada" ao interior dos muros da escola... ou melhor, se os professores irão "alargar-se" nessa discussão, ou se simplesmente vai passar ao lado, como passa a leitura de Despachos Normativos fundamentais, orientando-se a conduta pelo que se ouve na Comunicação Social...Já o adiantei na "Teia" da Teresa... hoje estou particularmente rezingona, mas isto passa (às vezes acho que o problema é esse... o facto de "passar"...)”
Comentário ao comentário:
“a discussão será "alargada" ao interior dos muros da escola... ou melhor, se os professores irão "alargar-se" nessa discussão, ou se simplesmente vai passar ao lado, como passa a leitura de Despachos Normativos fundamentais, orientando-se a conduta pelo que se ouve na Comunicação Social...” Tenho sido uma voz crítica no interior da organização a que pertenço (aliás, a que pertencemos) pela nossa indiferença (para não dizer desprezo) face aos normativos. Sabemos que a produção legislativa neste sector é tão intensa que é inexequível a um professor acompanhar a actualidade. Mas, uma coisa é reconhecermos a nossa incapacidade para acompanhar o ritmo dos vários governos, outra coisa bem diferente é o alheamento completo. É verdade que os órgãos de gestão e administração das escolas fazem a filtragem da informação. Também não deixa de ser verdade que nem todos os colegas que desempenham estes cargos sabem interpretar correctamente o seu papel e as filtragens de informação servem outros desígnios.
Os professores não podem continuar a permitir que as regras do jogo sejam descodificadas por terceiros: órgãos de gestão, sindicatos, ou quem quer que seja.
Escreveu o adkalendas Homepage 28.01.06 - 12:24 pm #
Será que alguém confia neste Ministério da Educação?
Será que alguém confia nos actuais sindicatos?
Será que alguém confia nas orientações fornecidas por alguns estudiosos influentes (politicamente) das Ciências da Educação?
Nós não precisamos de teorias irreais, nós não precisamos de decisões políticas voluntaristas e utópicas, nós não precisamos de sindicatos que só vêem greves. Precisamos de análises realistas, avaliações concretas e soluções.Mas acima de tudo, precisamos que se entenda, de uma vez por todas, que um professor é um professor.
E ser professor não é ser pai dos alunos, nem educador de infância, nem polícia, nem...
É apenas (e já não é pouco) ser professor.
E afinal o que é ser professor. Esta é que é a questão!
Comentário ao comentário:
Se não confiamos nas pessoas que nos representam o melhor é procurarmos outras pessoas credíveis. As pessoas que lideram os governos, sindicatos, conselhos executivos, etc.,etc. submetem-se ao sufrágio. Há que procurar alternativas porque na maior parte dos casos ainda não foram esgotadas todas as possibilidades. Eu tenho a perfeito noção de que estou a reduzir o problema. Mas, antes de procurar soluções complexas é melhor esgotar as soluções mais simples. Ou não?
Se o problema não é das pessoas então reformem-se as organizações. Pois… Claro que estas organizações que nos representam são muito complexas e, porventura, irreformáveis, como dizia um amigo de tertúlia.
Escreveu o miguel sousa Homepage 28.01.06 - 11:02 pm #
Miguel para ela [ministra da educação] e para os Albertos J. Jardins que mandam nos sindicatos, ECD resume-se a direitos e a deveres, a reformas, a subidas na carreira, o resto não tem expressão....que estás à espera, vai ser mais do mesmo, só que com a agravante, vamos voltar a perder.
Comentário ao comentário:
É necessário ouvir as associações profissionais e as instituições responsáveis pela formação de professores. Há silêncios comprometedores…
Adenda: O António [Carlos] está de volta com o seu restaurado Didáctica da Invenção
Adenda II: Enquanto preparava esta entrada, o Rui juntou o seu olhar.
Escreveu o Rui Homepage 29.01.06 - 5:45 pm #
Não quero ser pessimista nem redutor, mas cá para mim, enquanto houver milhares de professores a quererem entrar nas escolas, os governos vão fazer o que lhes apetecer e o que der melhores números, ie, menos gastos financeiros e mais alunos passados. Por causa de não terem falta de professores, atender ao bem estar pedagógico destes será a última das suas preocupações, se é que a chegam a ter...
Comentário ao comentário:
A força do professorado é, paradoxalmente, a sua fraqueza. Perto de 200 mil activos empregados e alguns milhares de activos no desemprego.
Pensemos na agro-pecuária: quando a oferta de cabeças de gado é maior do que a procura, baixa o preço do gado. Será assim?
Escola aos quadradinhos...
"Na escola aos quadradinhos, os alunos têm muitas gavetas na cabeça.
A gaveta da Matemática, a gaveta do Inglês, a gaveta da Língua Portuguesa...
A maior parte das gavetas não têm qualquer tipo de comunicaçao entre elas.São gavetas que muitas vezes estão cheias de papeis, mas desorganizados, o que faz com que seja difícil encontrar "aquele papelinho".
Outra vezes as gavetas estão quase vazias. Ou então têm pequenos pedaços de papel, que não fazem sentido - como se de um puzzle com muitas peças perdidas se tratasse.
As gavetas são abertas e fechadas ao longo do dia.
Muitas vezes sem uma razão verdadeiramente importante.Situações há em que acabam mesmo de deixar de se abrir.
E surgem as elevadas taxas de "gavetas encravadas"."A educação básica é um indispensável «passaporte para a vida» que faz com que os que dela beneficiam possam escolher o que pretendem fazer, possam participar na construção do futuro colectivo e continuar a aprender." (Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI)
Responde a "Escola aos Quadradinhos" a este desafio?"
27 de janeiro de 2006
Navegação à vista…
Estamos a pouco mais de um mês do início da negociação e não se percebe se o ME irá aproveitar esta oportunidade para promover uma discussão que ultrapasse os muros da escola e que envolva todos os agentes educativos. É que a definição do conteúdo funcional do professor remete a discussão para o plano conceptual. Antes de definirmos o perfil ocupacional do professor é necessário definirmos a escola que queremos e o seu lugar na comunidade. As funções que o professor há-de desempenhar derivam de um movimento prospectivo que situe a escola num tempo vindouro.
A escola do futuro é, a meu ver, o quadro de referência para a definição das funções do professor. E que tipo de funções serão essas?
De docência?
De administração e gestão?
De investigação?
De acção social escolar?
De orientação escolar e vocacional?
De extensão educativa e de apoio à comunidade?
Estou apreensivo. Receio que este ME não tenha ritmo para acompanhar as exigências deste tempo e que a sua iniciativa bloqueie com a gestão corrente.
25 de janeiro de 2006
Todas (des)iguais…
Se exceptuarmos as inúmeras reuniões formais, é invulgar descobrir o prazer de uma pequena cavaqueira, uma simples troca de ideias alusivas à escola, um assinalar da actualidade política [educativa]. E o que dizer de uma saltada em direcção à utopia? Será que ninguém sente a falta de uma escola da tertúlia?
Tirem-me deste filme!
24 de janeiro de 2006
Política educativa…
Como interpretar o alheamento dos professores por esta temática?
23 de janeiro de 2006
19 de janeiro de 2006
...
Sentei-me pregado ao teclado com a intenção de abordar dois assuntos que me ocuparam a atenção durante uma parte do dia. Foi sol que durou pouco! A memória foi assaltada por assuntos mais importantes e a subjectividade tomou conta de mim.
Foi aí que deixei correr a aragem…
Mestres e discípulos
Durante algum tempo ficara apreensivo. Eram uma afronta e uma ingratidão as pequenas desavenças. Por breves momentos, a irreverência era o sinal que eu teimava em não querer perceber. A rejeição não fora comemorada efusivamente! Hoje, só a distância me permite ver que a perda pode ser uma oportunidade!
"[…] O Mestre aprende com o discípulo e é modificado por esta inter-relação através de algo que, idealmente, se converte num processo de troca. O acto de dar torna-se recíproco, como nos meandros do amor. No dizer de Paul Celan: «Sou mais eu quando sou tu.» Os Mestres repudiam os discípulos, considerando-os indignos ou desleais. O discípulo, por sua vez, sente que ultrapassou o Mestre e que deve rejeitá-Io de modo a assumir a sua própria identidade (Wittgenstein ordenar-lhe-á que o faça). Esta vitória sobre o Mestre, com os seus componentes psicanalíticos de rebelião edipiana, pode provocar sofrimento traumático, como acontece no adeus a Virgílio no Purgatorio, de Dante, ou em The Master of Go, de Kawabata. Ou pode constituir uma fonte de satisfação vingativa, tanto na ficção - Wagner triunfa sobre Fausto - como na realidade - Heidegger leva a melhor sobre Husserl, humilhando-o." (Steiner, G., 2003, p. 15)*
* George Steiner “As lições dos Mestres”. Ed. Gradiva.
Adenda: Reflectindo é um novo ponto de passagem. Está aqui: http://canseiras.blogspot.com/
16 de janeiro de 2006
Quando o político é decrépito…
A Isabel pergunta no comentário colocado na entrada anterior: [Para nós que andamos por cá…pela blogosfera] o que vale a pena discutir? … Talvez valha a pena discutir o que nos inquieta. Talvez… apesar de uma voz determinística me sussurrar ao ouvido dizendo: olha que quase tudo ficará na mesma. Uffa… quase tudo! E tem sido este QUASE que me tem mantido por aqui. João Paulo Serralheiro diz, e muito bem, que juntos temos que reinventar o sistema educativo…
…quem vier por bem que venha também! ;-)
Adenda: Hoje, deixei-me enredar por algum tempo. Foi um tempo de teia [http://tempodeteia.blogspot.com/]
15 de janeiro de 2006
Uma nova Página da Educação.
João Paulo Serralheiro teve uma deriva pela blogosfera que interrompeu abruptamente. Foi uma passagem efémera Rio Acima, cujo blogue continua recheado de textos que vale a pena reler. É com saudade que recordo algumas discussões interessantes que mantivemos por aqui, sobretudo porque me fazem reavivar a chama que dá mostras de afrouxar.
13 de janeiro de 2006
Blogues na educação
A votação deve ser feita no blogue Os BLoPEs.
Depois de participar na votação, aproveite para lançar o seu olhar pela blogosfera. Vá com vontade de se deixar surpreender. Bom fim-de-semana.
12 de janeiro de 2006
Estabilidades
Usando o dogma da estabilidade, o argumento “pedagógico” irrefutável, ninguém ousará questionar se a estabilidade per si é positiva para as escolas. Foi isto que fez o ME. Utilizou a seu favor o argumento da estabilidade que era usado pelos sindicatos que pretendiam forçar a abertura de um maior número de quadros na escola. Uma vez mais, o governo antecipou-se e ganhou. Causou dificuldades ao movimento sindical que, sem poder contar com o apoio da opinião pública, sabe que as suas reivindicações serão entendidas como um novo movimento corporativo porque são prejudiciais aos interesses das escolas e dos alunos. É aflitiva a incapacidade dos sindicatos e dos professores em demonstrar a incoerência das medidas do governo: ora, se a questão da estabilidade é genuína por que razão não se abrem vagas nos quadros de escola e, desse modo, se acautela, por muito mais tempo, a estabilidade do quadro docente?
A discussão em torno da questão da estabilidade não me satisfaz. Quando me dizem que é preciso estabilidade na escola eu questiono: para quê? Se a escola dos projectos e das actividades não-lectivas está a definhar, por que razão é preciso manter os mesmos professores na escola? Para uma actividade lectiva assente, invariavelmente, numa organização do trabalho na sala de aula, na classe ou na turma, direccionada para um aluno-tipo [que ninguém conhece]? Será para isto que se pretende manter os professores nas escolas por mais tempo? Será?...
11 de janeiro de 2006
Pontosnosii
Na caixa de correio entrava um e-mail de um grande amigo que me prevenia da entrada em cena de uma nova revista dedicada à coisa educativa. Obrigado, Manel pela chamada de atenção."estará à sua disposição na 2ª terça–feira de cada mês, com o jornal Público.
será a revista da Educação de que os professores necessitam: independente, rigorosa e intransigente com a demagogia dos poderes instituídos.
pretende dinamizar o debate das grandes questões educacionais que se colocam à sociedade, porque acredita que não há democracias fortes sem a participação dos cidadãos.
nasce para ajudar a colocar a Educação no topo das prioridades nacionais.
é uma iniciativa da Texto Editores.
Visite o nosso website www.pontosnosii.pt "
10 de janeiro de 2006
Adenda...
No jornal Público de hoje:
“Insucesso escolar atinge 16 em cada 100 alunos
Isabel Leiria
Dados de 2003/2004 do Gabinete de Informação e Avaliação do Sistema Educativo mostram poucas evoluções nas taxas de aproveitamento.
No ano lectivo de 2003/2004, num universo de quase um milhão e 400 mil matriculados no ensino regular, 223.676 alunos não conseguiram transitar de ano. Ou seja, 16 por cento dos estudantes do básico e secundário chumbaram ou desistiram.São estes os últimos dados disponibilizados pelo Gabinete de Informação e Avaliação do Sistema Educativo (GIASE) relativos às taxas de aproveitamento. No essencial, confirmam que poucos progressos tem havido desde meados da década de 90. E que os anos correspondentes à transição de ciclo - 5.º, 7.º e 10.º - continuam a ser dos que mais dificuldades causam.Se em 1995/1996 a taxa de retenção no ensino básico se situava nos 13,8 por cento, oito anos mais tarde a percentagem está ainda nos 12 por cento. Ainda assim, desce pelo segundo ano consecutivo. Ao nível do ensino secundário não houve qualquer progresso. Em 1995/1996, chumbaram 33,1 por cento dos matriculados. Oito anos mais tarde e algumas oscilações depois, o insucesso chega a ser ligeiramente maior: 33,8 por cento.Dentro da escolaridade obrigatória, o nível de ensino mais problemático continua a ser o 7.º ano, com quase um quarto dos estudantes (31 mil ao todo) a ficarem retidos ou a desistir. Mas o insucesso começa logo no 2.º ano da escola (a lei não permite que haja retençõe no 1.º). Em 2003/2004, não transitaram 12,3 por cento dos alunos matriculados. O caso dos Açores destaca-se das demais regiões do país por apresentar uma taxa de retenção invulgarmente elevada: praticamente 1500 alunos num total de 3400 chumbaram no 2.º ano de escolaridade.Globalmente, a situação melhora à medida que se avança no 1.º ciclo, para voltar a piorar no início do 2.º ciclo. O aumento do número de disciplinas e de professores e a maior complexidade das matérias parecem trazer dificuldades acrescidas e o certo é que a taxa de retenção/desistência duplica de 7,8 por cento no 4.º ano para 14 por cento no 5.º. […]”
É caso para perguntar se é mera coincidência ou celeridade informativa?
8 de janeiro de 2006
O regresso às turmas de repetentes
Esta medida legislativa suscita a discussão em torno de uma problemática que tem sido central nos discursos políticos e pedagógicos – a exclusão escolar. Nos últimos anos, a “retórica inclusiva” tem sido ineficiente na resolução dos problemas da exclusão e até seria paradoxal que a escola se transformasse no oásis inclusivo num deserto de exclusão social que marca o mundo contemporâneo. O problema da exclusão encontra-se fora e dentro da escola. E medidas legislativas avulsas dirigidas à escola serão sempre inconsequentes enquanto não coexistirem com efectivas políticas de redistribuição. Mas, de facto, a escola continua a ser um motor de exclusão. João Barroso(1) reduz, de um modo esquemático, as formas de exclusão produzidas pela escola a quatro modalidades:
“A escola exclui porque não deixa entrar os que estão fora.
A escola exclui porque põe fora os que estão dentro.
A escola exclui 'incluindo'.
A escola exclui porque a inclusão deixou de fazer sentido.”
Este despacho enferma de um mal. Ao mesmo tempo que aponta o caminho da diversidade de oferta coarcta a iniciativa comunitária ao definir uma forma de organização exclusiva: "Estes currículos destinam-se a grupos específicos, com um mínimo de dez elementos, de alunos até aos 15 anos de idade, que configurem casos de insucesso escolar repetido."
Nota de rodapé maior do que o corpo do texto: (1) […] "No primeiro caso, a exclusão está relacionada com a ‘desigualdade de oportunidades’e realiza-se através de mecanismos sobejamente conhecidos, como sejam: a influência das diferentes origens sociais dos alunos nos seus percursos escolares; a estruturação da oferta educativa em função de factores económicos, culturais e sociais; a falta de apoios diferenciados; a hierarquização dos graus, etc. No segundo caso, a exclusão está relacionada, fundamentalmente, com as questões do insucesso e abandono escolares.
Quanto às duas últimas modalidades, elas são mais subtis e não têm merecido a mesma atenção dos investigadores e cientistas da educação. No caso da "exclusão pela inclusão", o que está em causa, sobretudo, é a imposição de modelos de organização pedagógica e padrões culturais uniformes, o que agrava o desfasamento entre a oferta e a procura escolares. No caso da "exclusão pelo sentido", assistimos aos efeitos de um confronto de lógicas heterogéneas de "consumo" escolar em que muitos alunos não encontram na escola um sentido para a sua frequência, quer ao nível do saber partilhado, quer ao nível da sua utilidade social, quer ainda como quadro de vida.Ainda que estas quatro modalidades de exclusão sejam determinadas por muitos factores exógenos à escola (políticas educativas, economia e organização social), existem factores endógenos que contribuem grandemente para a sua existência e/ou para o agravamento dos seus efeitos. Entre estes últimos, são de destacar os factores organizacionais, não só os que estão relacionados estritamente com o trabalho pedagógico, mas também os que estruturam a escola no seu conjunto, enquanto organização, e regem as relações entre os seus diferentes intervenientes (administração, professores, alunos e suas famílias)."
[Barroso, J. (2003). Factores organizacionais da exclusão escolar – A inclusão exclusiva. In: David Rodrigues (Org.), Perspectivas sobre a inclusão. pp. 25-36. Porto Editora, Porto.]
6 de janeiro de 2006
A cambalhota
Cerca de 16% dos alunos açorianos do ensino público regular chumbou no ano lectivo de 2004/2005, menos 3,5% do que no ano anterior, anunciou hoje a Direcção Regional de Educação (DRE)."
A comunicação social deu uma preciosa ajuda ao governo preparando o terreno social para que os ataques desvairados à escola e aos seus actores fossem anuídos pela opinião pública.
Será um problema meu, obviamente, mas estou com um leve pressentimento de que esta pequena notícia lançará o mote para uma cambalhota na estratégia do governo: Chegou a hora de apaparicar as escolas.
Adenda: Acrescento à lista de visitas rotineiras o blogue Diário de um professor. Bem-vindo, JP.
Avaliação de professores
A hipótese já tinha sido admitida pelo secretário de Estado Adjunto da Educação, Jorge Pedreira, e é agora contemplada no projecto para um novo decreto-lei relativo ao recrutamento de professores, entregue anteontem aos sindicatos: o concurso para 2006/2007 terá a validade de três anos e só a partir de 2009/2010 é que passará a ser quadrienal.Significa isto que a abertura de vagas de quadro só se fará, por regra, de quatro em quatro anos, e que as colocações que daí resultarem mantêm-se obrigatoriamente válidas por esse período. Nos anos em que não há concurso, as necessidades que surgirem poderão ser preenchidas através do destacamento de profissionais integrados no sistema (mas que não têm aulas para dar ou escola atribuída) e por contratação de professores.No caso dos que já pertencem aos quadros, terão de permanecer na escola atribuída até que se realize um novo concurso. Em relação aos contratados, é admitida a renovação da colocação, por períodos de um ano, até ao limite máximo de três. Mas a escola tem de concordar. […]” (Público 6/01/06)
Mas a escola tem de concordar…
Quem decide/concorda? O conselho executivo ou conselho pedagógico? Quem avalia os professores? Quem define os critérios de avaliação? Que instrumentos de avaliação utilizar? Quem controla o processo de avaliação?
3 de janeiro de 2006
...
É com esta triste notícia que abro o ano.
A educação ficou mais pobre!
31 de dezembro de 2005
A culpa revisitada.

Acabei o ano de 2003 preocupado com o problema da culpa. Considerava que o sentimento de culpa em doses elevadas podia instigar os professores ao cinismo, ao esgotamento e em última instância ao abandono do ensino. Pensava que seria mais fácil lidar com as armadilhas da culpa se, na escola situada, os professores adoptassem um conjunto de soluções terapêuticas, designadamente, baixando as exigências da prestação de contas e da intensificação do ensino; reduzindo a dependência em relação ao cuidado pessoal e ao tratamento dos outros; criando, ao nível do estabelecimento de ensino, comunidades de colegas que trabalham em colaboração, estabelecendo os seus próprios limites de exigência profissional e permanecendo ao mesmo tempo empenhadas num aperfeiçoamento contínuo. Ao enfatizar as causas exógenas do sentimento de culpa terei depreciado os problemas derivados de uma cultura docente individualista que balcaniza as relações profissionais. O défice de discussão intra-muros e a ausência de colaboração acabaram por encostar decididamente os docentes a uma parede de lamentações e não se vislumbra qualquer tipo de reacção.
O sentimento de culpa que tomou de assalto a classe docente tem vindo a agravar-se nos últimos anos. E o que se dispensa neste momento é a vitimação e o fado do coitadinho. Há que aproveitar o virar do ano para virar uma página da nossa postura profissional. São os meus votos para o próximo 2006.
29 de dezembro de 2005
Atados
É verdade que nos últimos anos tem havido um enorme esforço financeiro para apetrechar as escolas de meios informáticos. Ainda não temos motivos para embandeirar em arco, mas os progressos revelados pelas estatísticas são inequívocos.
É verdade que as escolas têm mais computadores. Isso não significa que não subsistam problemas de manutenção das máquinas, que o índice de utilização seja pequeno, nem tão-pouco, que o número de computadores ligados à rede por professor [um computador por cada 70 professores?] seja reduzido.
É verdade que a ministra da educação parece estar sensível às carências das escolas [e que bom seria se as dificuldades se limitassem à falta de computadores…] e já deixou claro que a intenção do governo, ainda nesta legislatura, passará pela reabilitação do parque escolar.
São algumas verdades que pintam de cinzento um quadro negro. Melhorar as péssimas condições de trabalho dos alunos e dos professores é louvável. Mas não chega. E francamente, não encontro motivos para grandes festejos. Nem a velha forma escolar será beliscada com mais tecnologia e com as paredes pintadas, nem a mesma organização escolar sofrerá qualquer fractura. Mas isto é conversa para outra oportunidade. O que está aqui em discussão é um despacho que revela um centralismo sufocante e castrador que tem marcado a relação que o ME quer estabelecer com as escolas. Apetece perguntar: e agora? Qual é o passo seguinte?
A meu ver, este tipo de intervenção favorece a desresponsabilização das escolas na medida em que o que deve ser feito não pode ser sempre antevisto pela tutela, e coarcta a iniciativa dos actores locais que se limitam a esperar por uma nova orientação.
Despachos deste tipo devem ser evitados porque são redundantes. As escolas são obrigadas a realizar planos de formação e planos de actividades subordinados ao projecto educativo. Se estes documentos são alegóricos porque emergem de um formalismo bacoco então o melhor é procurar as causas da subversão ao invés de incrementar ainda mais a burocracia.
Propostas?
Se a tutela duvidar da capacidade das escolas em definir o crédito global de horas, seria prudente acompanhar de perto [as visitas relâmpago da IGE são inócuas] o desenvolvimento do projecto educativo e a concretização do plano de actividades.
26 de dezembro de 2005
Balanço...
Desde o primeiro dia que o outròólhar se escreve no plural. Realmente, têm sido vários olhares instigados por sentimentos diversos e antagónicos(?): a alegria de informar e ser informado, o desagrado pelas desinteligências, o prazer das relações, e a dor (de ver definhar um ofício nobre)… sim, dor! “Onde há maior sensibilidade é mais forte o martírio” terá afirmado, e bem, Leonardo Da Vinci.
Conto muitas palavras amargas nestes dois anos de escrita quase diária. Foram registadas cerca de 37000 visitas [30000 terão sido minhas] e produzidas, aproximadamente, 700 entradas. Alguns textos estão marcados pelas vicissitudes de um tempo instável que nos obriga a questionar permanentemente o sentido do nosso labor. Vejo inconstância na escrita. Por breves momentos, noto-lhe um tom mórbido e gasto. É verdade que já viveu dias melhores. Já acompanhou uma blogosfera fulgurante no debate, intensa no despique, generosa na aceitação da opinião de “fora”. Essa blogosfera está a definhar ou terá mesmo falecido. E a escrita acompanhou solidariamente esse “apagão”, aligeirando-se. Se procurasse razões metafísicas para explicar esta viagem diria que uma boa parte dos bloggers iniciaram o seu regresso à caverna. Procuram o mesmo buraco de onde saíram um dia, desejando reencontrar os companheiros que lá ficaram? Não. Procuram outro destino. Procuram outra caverna. O destino do viajante só adquire sentido se se mantém em trânsito. Os bloggers, acompanhados ou solitariamente, tornam o encontro inevitável!
Dois anos de encontros e reencontros! Ainda bem que nos cruzámos por aqui.
Adenda:
Falava de encontros e reencontros…
O Paulo é um viajante que se encontra em trânsito desde o início do mês e só agora nos cruzamos pela blogosfera.
Bem-vindo caro colega e podes desde já contar com a minha visita diária ao teu blogue Precessão.
http://precessao.blogspot.com/
[Sobre o ensino e educação todos têm uma visão. Este é um país com dez milhões de alunos ou ex-alunos. Todos têm uma opinião sobre o que é ser professor e ensinar. Ora isto é algo único não se verificando o mesmo com qualquer outra profissão.]
21 de dezembro de 2005
Bom Natal!
Um bom Natal para todos os bloggers, colegas e amigos.
20 de dezembro de 2005
Ufa…
Enfim, já respiro de alívio…
Adenda: Não deixe de ler "Gerir o tempo" no blogue Inquietações Pedagógicas.
19 de dezembro de 2005
Ora essa... (II)
Completa agora o raciocínio: "Eu percebo isso. Mas não são um, nem dois. A maior parte dos professores têm a vida acomodada a esta situação. Ora, os problemas que temos à espera de resolução não se resolvem mantendo a actual situação."
Maria de Lurdes Rodrigues (Pública – 18/12/05)
Aqui está o reconhecimento que faltava. Afinal, as reivindicações dos professores eram legítimas e justas. Só não percebi o modo pelo qual a ministra ressarcirá os professores pelos danos [morais e financeiros] causados pelas medidas que foram tomadas para resolver a actual situação.
18 de dezembro de 2005
Ora essa…
Maria de Lurdes Rodrigues (Pública - 18/12/05)
17 de dezembro de 2005
Maniqueísmos
A resistência aos exames que é revelada nos diversos comentários e textos que vou produzindo, decorre do facto de considerar que na tensão entre as desvantagens e as vantagens dos exames, as desvantagens têm mais força. Observemos vantagens e desvantagens dos exames.
Recorrendo a um especialista em educação [creio que os defensores da tese pró-exame não consideram o Professor Domingos Fernandes um especialista em “eduquez”], vejamos as possibilidades que decorrem da realização dos exames.
Das vantagens vislumbram-se as seguintes possibilidades:
1. Exercer um efeito moderador importante nas avaliações internas.
2. Induzir práticas inovadoras de ensino e de avaliação. [Ainda não consegui perceber de que modo é que os exames induzem a inovação. Pelo que me é dado observar noto uma estéril reprodução de práticas de ensino configuradas pelas provas modelo de exame…]
3. Contribuir para avaliar o sistema educativo e ajudar a melhorar a tomada de decisões a todos os níveis.
4. Alertar as escolas para a necessidade de melhorarem os seus projectos educativos. [Isto é, o que as escolas têm de fazer é elaborar projectos educativos à medida das expectativas do administrador, do ME, e não e função dos interesses comunitários. Há uma grande contradição nos discursos oficiais…]
5. Dar indicações úteis às escolas, aos professores e aos alunos acerca do que é importante ensinar e aprender. [Está aqui a razão pela qual nestes 135 anos de governo da educação dos portugueses só três ministros lograram completar uma legislatura]
Por outro lado, os exames também possuem desvantagens que não é possível ignorar:
1. Centram-se sobretudo nos conhecimentos académicos, prestando relativamente pouca atenção a competências úteis, relacionadas com a vida real.
2. Condicionam os objectivos, as estratégias, o envolvimento e as atitudes dos alunos em relação às aprendizagens, nem sempre pelas melhores razões. Exames que usam perguntas objectivas e de resposta curta tendem a deixar de avaliar aprendizagens consideradas fundamentais, como é o caso da resolução de problemas.
3. Podem induzir práticas fraudulentas. Trata-se de uma questão séria em muitos países, onde a corrupção, a compra de cópias de enunciados de exames, a substituição de alunos sujeitos aos exames ou a cumplicidade entre professores vigilantes e examinandos são práticas que acontecem com mais ou menos frequência. [Creio que este argumento também pode ser usado para a avaliação interna]
4. Podem induzir as escolas a concentrarem os seus esforços nos alunos que têm mais possibilidades de ter sucesso nos exames.
5. Podem discriminar, em vez de integrar, alunos. Particularmente no que se refere a certos grupos pertencentes a minorias de qualquer natureza.
É frequente ouvir dizer que os professores que colocam obstáculos à realização dos exames fazem-no por receio ou por alguma inquietação, que advém de pretensos maus resultados dos alunos, resultados esses que reflectirão más práticas de ensino. A meu ver, estas afirmações são maniqueístas e demagógicas e que para serem levadas a sério teriam de considerar a avaliação aferida como uma outra forma de se obter informação de qualidade sobre o sistema apoiando, de igual modo, decisões políticas e administrativas, e dispensando, desta forma, a realização dos exames.
Por outro lado, há a questão da eficácia. É que se for provado que através dos exames é possível determinar os maus desempenhos dos professores, não percebo a razão pela qual se deixam impunes os prevaricadores que, ao longo de tantos anos [de exames e de maus resultados], se fartam de enganar alunos.
É caso para dizer: Estão à espera de quê?
16 de dezembro de 2005
A escola calou-se!
Duas medidas legislativas marcaram a agenda do primeiro período escolar: O aumento do tempo de permanência do docente na escola e o diploma que reclama o envolvimento dos professores na elaboração dos planos de apoio para os alunos do EB com maiores dificuldades de aprendizagem. Li resmas de textos sobre os assuntos e a tónica dos discursos incidia, invariavelmente, sobre os efeitos imediatos destas medidas nas aprendizagens dos alunos. Não me lembro de ter lido qualquer abordagem ao tema que incidisse nos efeitos das medidas sobre a [pretensa] alteração da atitude reflexiva do professor. Mais tempo na escola deveria corresponder a mais tempo para pensar a escola e o aluno. E não me refiro a uma reflexão sobre a política educativa ou à análise de cariz sociológico que situe a escola neste tempo. Estou a pensar na reflexão sobre as questões concretas, como por exemplo, a análise das relações e práticas educativas ou a análise das condições do exercício da profissionalidade. Faz-nos falta pensar a escola situada. E já que não é possível construir espaços de debate dentro da escola usemos a grande assembleia em que se transformou a blogosfera.
Isto a propósito de uma troca de comentários no Micómio que me deixaram a pensar na precariedade do professor do séc. XXI.
15 de dezembro de 2005
...
Parafraseando o velho professor: quando me fazem de burro há que aproveitar a oportunidade para dar um coice.
14 de dezembro de 2005
Para os viciados na Net :-)
13 de dezembro de 2005
Orgulhosamente filhos de Rousseau (1)
[…] alguns discursos sobre a educação têm vituperado a pedagogia, a sua preocupação com a igualdade de oportunidades, sobretudo com a igualdade de oportunidades de sucesso, com a centração do processo do ensino-aprendizagem nos sujeitos (não os concebendo apenas, como meros objectos) desse mesmo processo, etc. A contraproposta é a da pedagogia do esforço, do aprender-sofrendo, da elevação do nível pela via da espinhosa subida aos cumes do saber, numa nova perspectiva elitista, fundada agora no mérito dos desempenhos. À preocupação com a educação enquanto meta da formação substitui-se a procura da performance, isto é, a subsunção do ensino-aprendizagem à produção de perfis terminais de sujeitos que venham a desempenhar eficaz e eficientemente diferentes funções sociais e económicas.
Os professores ao integrarem no seu discurso profissional a performatividade como critério pedagógico dão o segundo, e talvez definitivo, passo para a sua desqualificação. É que a performatividade, enquanto critério pedagógico, tem como pressuposto a morte do professor, isto é, a sua substituição por monitores de informação mecânicos, informáticos, telemáticos muito mais proficientes nessa função do que ele.
É, de facto, paradoxal que condenações recentes da chamada «radical demissão da autoridade dos professores» (ver, p.e., M. Fátima Bonifácio, Público, 15 de Fev.) se baseiam numa concepção do professor que parece, nos tempos em que vivemos, condenar este mesmo professor à sua própria morte. Isto é, temos de nos perguntar em que é que assenta a autoridade do professor numa sociedade onde a transmissão de informação e de ideias se realiza de uma forma muito mais eficaz através dos meios de comunicação do que através de um professor-expositor, estruturado pelo magister dixit.
Efectivamente, se o poder do professor vem da legitimidade que o Estado fornece à sua actuação e do prestígio que ele na comunidade constrói e esta lhe confere, a sua autoridade dimana, além disso, do modo como ele articula esse poder e a sua especialização académica no contexto da sala-de-aula e nos diferentes espaços e tempos da escola onde exerce a sua profissão. A sua autoridade, portanto, dimana deste plano que é, em última análise, pedagógico, no sentido restrito e amplo do termo.
Não há dúvida de que a evolução recente da sociedade industrial obriga a uma nova avaliação da fonte de autoridade do professor. E curiosamente embarcamos nesta nova avaliação sabendo que numa sociedade como a portuguesa a especificidade do trabalho pedagógico do professor ainda está por desenvolver, especialmente no que diz respeito aos ensinos secundário e superior onde a «competência científica expressa no grau académico» (conferida pela academia, como lembra F. Bonifácio no artigo acima citado) aparentemente basta para autorizar o que o professor faz na escola e na sala-de-aula. No fundo, os professores não são precisos, sendo antes necessários transmissores e avaliadores de conhecimentos eficazes.
Todavia, e contraditoriamente, no seu discurso identitário os professores parecem procurar muito mais a legitimação da sua autoridade na especialização académica que adquiriram do que no âmbito específico e actual da sua profissionalidade: a pedagogia. Pela despedagogização da profissão docente dão, portanto, os professores um passo definitivo para a sua própria desqualificação.
Além de ser irónico este apelo ao professor durkheimiano de há quase um século atrás – especialmente num momento em que mais do que nunca o professor precisa de justificar o que transmite e a maneira como avalia o conhecimento -, constitui também uma nítida desqualificação do professor como pedagogo, do professor como especialista em Ciências da Educação, com os seus conhecimentos sobre o processo do ensino-aprendizagem, mas também das dimensões sociais da sua profissão e, de uma forma importante, de como evitar indoutrinação, promovendo uma educação orientada para a exploração reflexiva e recíproca dos princípios de verdade e de justiça.” [pp. 41-44]
(1) António Magalhães, Stephen Stoer (1998). Orgulhosamente filhos de Rousseau. Colecção Andarilho, Profedições.
12 de dezembro de 2005
O sistema, o estado e o eduquez.
Isto a propósito deste texto "Eduquês" escondido com ministra de fora” assinado por Guilherme Valente [Público de 12/12/05 (edição reservada a assinantes)], que foi vítima da sua própria argumentação. É o que eu costumo chamar de autofagia argumentativa.
[PS: Para quem não teve oportunidade de ler o texto eu tenho Email… ;-) ]
9 de dezembro de 2005
8 de dezembro de 2005
6 de dezembro de 2005
O que fazer da autonomia sem colaboração?
A Grã-Bretanha caiu numa armadilha. [...] “O perigo da focalização dos governos na autonomia das escolas é que eles passam demasiado tempo a pensar nas estruturas, esquecendo o ensino e a aprendizagem em si mesmos e em como o facto de os melhorar poderia levar à criação de modelos adequados a seguir”. [...]
Não queremos cair na armadilha! As questões da autonomia podem ser analisadas sob o ponto de vista da colaboração. Vejamos:
Os autores de referência que se têm dedicado a pensar os problemas da autonomia referem, invariavelmente, uma relação umbilical com o projecto educativo de escola. É a especificidade do projecto educativo que concebe a singularidade de uma escola e a torna diferente de todas as outras. Se me deixar levar por um modesto exercício intelectual afasto os constrangimentos relativos à celebração dos contratos de autonomia. Assumo que as escolas entendem a autonomia como um processo que se constrói na procura e definição da identidade do sistema pelos próprios actores e na capacidade de se organizarem. E admito um consenso generalizado em torno do conceito de autonomia: é um processo que resultou da negociação de todos os actores que fazem parte do sistema escola. Este cenário afasta-se do modelo holandês [autonomia decretada] porque a autonomia, nesta perspectiva, deve ser reclamada, conquistada, e nunca, imposta por decreto.
Encontro-me numa fase em que procuro mapear um problema.
- Há ou não autonomia pedagógica que conceda à escola as condições para a reorganização dos planos de estudos [matriz curricular] dos alunos?
- A declarada autonomia concede à escola a possibilidade de tomar decisões ao nível pedagógico, curricular, e poder na gestão de recursos da escola e de pessoal?
Estou a pensar numa verdadeira “revolução organizacional” que se fundaria numa outra lógica de lidar com o saber. Vejamos um esboço académico para o 3º ciclo do ensino básico: A sala de aula abandonaria a configuração tradicional e assemelhar-se-ia com um centro de recursos. É uma alteração que implicaria, forçosamente, o redimensionamento e a reforma dos espaços escolares; A organização disciplinar proposta na Escola da Ponte [não torça o nariz, por enquanto... ;)] seria o ponto de partida para um novo ordenamento disciplinar: a linguística (Português, Ingês, Francês, Espanhol, ….), lógico-matemática (a Matemática, a Física e a Química,…) a naturalista (Geografia, Biologia, História, …), identitária (Educação Física e Filosofia, …) e artística (Educação Visual, Tecnológica, Musical,…). A Informática seria uma área de ligação e de suporte instrumental. Os departamentos disciplinares persistirão, lado a lado com outras unidades que se desenvolvem em resposta a desafios contínuos – equipa educativa que planeia a ligação dos alunos ao mundo do trabalho, a equipa para as relações com a comunidade, etc.,etc.
Regresso, de novo, ao problema inicial: a operacionalidade da autonomia remete-nos para problemas relacionados com a colaboração... huummm….
5 de dezembro de 2005
Colegialidade
“É preciso que as escolas façam projectos à sua medida e que transformem o processo de concepção do projecto num momento significativo de valorização pessoal e profissional dos seus membros.”
A colaboração e a colegialidade positiva tem sido apontada como promotoras do crescimento profissional e do desenvolvimento das escolas a partir de dentro, assim como formas de assegurar a implementação de mudanças introduzidas externamente (as reformas, por exemplo) (Hargreaves, 1998: p. 209). No cerne da edificação do projecto educativo, muito perto das culturas de colaboração positivas, estamos, de novo, a apelar à colegiabilidade como um meio para a concretização eficaz das reformas decretadas. Estamos, uma vez mais, a olhar a colegiabilidade como elemento essencial na construção do projecto educativo de escola. Contudo, a colaboração e a colegilidade não estão imunes à crítica. E a maior parte das críticas tem-se centrado mais nas dificuldades de implementação e nas questões relativas ao tempo durante o qual os professores têm a possibilidade de trabalhar juntos e à falta de uma cultura de cooperação de muitos professores. Um outro conjunto de críticas refere-se ao seu significado. As discussões em torno da colaboração e colegilidade são realizadas como se houvesse uma ampla compreensão. Ora, na prática, existe uma dificuldade de entendimento relativamente ao seu significado. A colaboração e a colegialidade podem assumir formas muito diferentes, designadamente, o ensino em equipa, a planificação em colaboração, as conversas nas salas de professores ou fora das salas de aula, as inúmeras pequenas acções de ajuda e conselhos relativos aos recursos, etc., etc.
“De facto, o primeiro problema a que procura responder o projecto educativo é o de construir uma linguagem comum no sentido de viabilizar a acção comunicativa, isto é, a abertura à diferença e à interinfluência. Sabe-se como a prática comunicacional no interior das escolas, constitui um problema institucional crónico, para não dizer constitutivo da sua própria cultura organizacional.”
As lideranças da escola têm de fazer o trabalho de casa...
[PS: Só agora percebi o verdadeiro alcance das medidas hostis dirigidas ao tempo do professor: O espírito de grupo saiu reforçado (risos)]
Destaque na imprensa...
Então aqui vai…
"EDUCAÇÃO POLÍTICA PRECISA-SE (Público 3/12/2005)
Há um grande vazio na definição da política da educação em Portugal. A ideia é comum a Ana Benavente, João Barroso e Roberto Carneiro. Depois das grandes reformas dos anos 80, parece ter-se perdido a dimensão ideológica do debate educativo, centrando-se este mais em pequenas medidas de cariz técnico. O que preocupa os investigadores, que partilham uma visão comum do que as escolas do ensino básico e secundário necessitam para responderem aos desafios que lhe são propostos: uma grande dose de autonomia, algo que o poder político continua a recusar-lhes. Por Leonete Botelho
Aescola pública, tal como hoje existe no país, não tem projecto nem tem futuro. Mas isso não quer dizer que deva estar condenada ao desaparecimento, antes pelo contrário: ela pode e deve ser "refundada", pode e deve apostar num projecto próprio e evoluir no sentido de uma real autonomia - pedagógica, administrativa e financeira -, diferenciando a oferta pública, acolhendo a pluralidade social e pondo fim à neutralidade de projectos que hoje torna a escola cinzenta e sem identidade.
Em pinceladas largas, é coincidente o retrato da educação em Portugal desenhado por três especialistas de diferentes quadrantes ideológicos ouvidos pelo PÚBLICO - o ex-ministro de Cavaco Silva, Roberto Carneiro, a ex-secretária de Estado da Educação de António Guterres, Ana Benavente e o investigador no domínio da política e da administração educacional João Barroso. Todos têm pontos de vista convergentes, tanto no diagnóstico como na principal linha de terapia: a autonomia das escolas.
"Continuamos sem uma definição clara de qual é a orientação política da educação e o vazio que existe hoje deriva desta ausência de política educativa", avalia João Barroso, actual presidente do conselho directivo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa. "Isto é mais notório porque a tendência hoje é para despolitizar a educação e olhar para a intervenção no campo educativo apenas de um ponto de vista técnico, como se o problema fosse os instrumentos e não os objectivos", afirma.
"Chegamos a uma situação em que os ministros não dizem que tomam medidas porque são aquelas que servem as suas políticas, mas apenas porque as têm de tomar, em função de interesses externos: a globalização, a competição, o orçamento", acrescenta. "E o que é importante na política, que é fazer escolhas, não é feito", remata.
No mesmo sentido, Ana Benavente considera que se "perdeu a dimensão ideológica do debate educativo", e que existe hoje a tendência de fazer "de cada pequenina medida de gestão uma bandeira política, muitas vezes contra alguém", como diz acontecer agora com as aulas de substituição. "Em Portugal, com os índices que nós temos, a Educação faz falta como do pão para a boca, e não podemos desperdiçar recursos. Mas as políticas muito partidarizadas, muito centralizadas, mediatizadas e uniformizadas não dão bom resultado", afirma.
O "falhanço" das reformas
Para João Barroso, a situação actual deriva, em grande parte, do "falhanço rotundo" das reformas educativas dos últimos 20 anos. "Hoje já ninguém fala em reformas e estas estiveram longe de atingir os objectivos anunciados. O discurso messiânico do Homem Novo, de que era possível fazer a reforma e pô-la em prática, falhou por completo e isso explica muitas das frustrações que hoje vivemos", considera.
João Barroso diagnostica também um falhanço a nível dos discursos ideológicos, tanto do discurso "mais progressista da igualdade de oportunidades, da escola para todos", como do discurso mais neoliberal, no sentido de "atrelar a educação ao emprego e ao mercado de trabalho, criar o mercado da educação, promover a gestão empresarial das escolas".
Se este último não teve grande concretização a nível dos ensinos básico e secundário, já a chamada "escola para todos" acabou, na opinião dos três especialistas, por se tornar uma escola neutra, sem identidade. "O que é errado no modelo da escola pública é confundir igualdade com uniformidade", afirma Barroso. "Pior desigualdade do que dar o mesmo a toda a gente", resume.
Por outras palavras, Roberto Carneiro considera também que "o princípio da neutralidade filosófica da escola é mortal: nenhuma educação é neutra, toda a educação tem de ter preferências, tem de haver projectos educativos", sublinha. Em seu entender, só há uma maneira inteligente de interpretar a "neutralidade" que está na Constituição: "A neutralidade do Estado está em fomentar uma pluralidade de projectos nas escolas públicas de forma a que haja uma oferta plural."
Embora considere que a igualdade das escolas é "um mito" baseado na igualdade de parâmetros, e que na verdade as escolas são todas diferentes, também Ana Benavente reconhece que ainda são muitas as "escolas correntes-de-ar" - sobretudo nas periferias das grandes cidades e no meio rural -, que sofrem todas as consequências das políticas educativas e estão sujeitas a grande instabilidade.
A autonomia
como caminho
Embora tenham pontos de partida diferentes e possam divergir nos meios para lá chegar, os três investigadores apontam um sentido único para a melhoria da educação: a quebra da padronização e o reforço da autonomia das escolas, que deverão construir projectos educativos em diálogo com a comunidade em que se inserem.
Roberto Carneiro - que recorda ter introduzido o tema através do Decreto-Lei 43/89, o único que não levou a Conselho Nacional de Educação e acabou por ser aprovado "à pancada" em Conselho de Ministros, onde caiu por terra a autonomia financeira que propunha-, considera que o essencial é que "as comunidades tomem conta da escola, definam o seu projecto, escolham o seu director e os seus professores". A escola não tem de deixar de ser pública, "ela é eminentemente pública porque é comunitária e não porque pertence ao ME".
"Só quando tivermos escolas públicas especializadas em música, em artes, com um projecto mais cristão ou mais budista ou mais laico, mas uma identidade própria, então naturalmente a escola pode abrir-se a uma selecção melhor por parte dos pais", afirma.
Para Ana Benavente, há exemplos na história que mostram que é possível conciliar qualidade com educação para todos, caminhando para o que chama de "escola inteligente", que ultrapassa o ensino expositivo e a compartimentação dos saberes e incentiva os espaços de diálogo interdisciplinar na escola. "Importante é diferenciar, seja pública ou privada. O melhor das privadas - um corpo docente estável, uma escola com identidade e autonomia - nós também queremos na pública", defende.
"Numa escola pública, o projecto educativo tem de ser plural, porque igualdade é acolher a diversidade", sublinha João Barroso. "Por isso têm de construir mecanismos para que as pessoas participem, discutam, negoceiem, façam contratos, assumam compromissos".
Só assim, considera, se vai criar "uma pressão sobre os professores, sobre os pais, sobre a gestão das escolas para definir claramente o que querem fazer, como querem fazer, com que resultados e com que meios". E depois contratualizar com a administração, de forma a que as duas partes assumam as suas responsabilidades.
O problema é que a autonomia é "uma retórica sem prática". Apesar de estar na lei há muitos anos, apenas um contrato foi celebrado até hoje. Porquê? "É uma questão política, de poder", responde Roberto Carneiro. "Quem tem o poder dificilmente o distribui."
João Barroso subscreve, mas vai mais longe: "Não pode haver um projecto educativo local se não houver um projecto educativo nacional, e hoje a sociedade portuguesa não tem projecto político definido. Não há educação sem política. Repolitizar a educação é fundamental."
4 de dezembro de 2005
Breves
…logo pela manhã. A família decidiu instalar-se na bonita biblioteca municipal sob o pretexto de colaborar numa pequena tarefa escolar a pedido da herdeira. Foi com surpresa e algum desencanto que encontrámos o local desértico…
Que desperdício!
Daniel Sampaio…
…retoma o tema das aulas de substituição na Xis do Público.
Os mesmos argumentos com nova roupagem.
“Educação política precisa-se”
As opiniões da Ana Benavente, João Barroso e Roberto Carneiro convergem em torno da necessidade do reforço da autonomia das escolas. O projecto educativo local desenhado pelas escolas é um elemento estruturante para a contratualização dos níveis de autonomia.
Está em curso a recuperação de uma das medidas mais marcantes do ex-ministro Marçal Grilo.
2 de dezembro de 2005
Demissões II
"Respostas da escola
Na escola do primeiro ciclo de Carrazeda detectaram-se dois irmãos, de 6 a 8 anos pejados de piolhos.(...) Esta situação, se não fosse resolvida, para além dos inconvenientes para as duas crianças, traria um problema de higiene pública para toda a comunidade escolar implicada. (...)
Num tempo de novos paradigmas familiares, de surtos migratórios que condicionam as relações sociais, de discriminação social e de criação de fossos sociais cada vez mais definidos, por falta de modelos de referência para os jovens, de aumentos da criminalidade e delinquência juvenis, num tempo em que os antigos meios de socialização vêem a sua influência cada vez mais reduzida (família, Igreja, clubes, partidos, movimentos associativos), exige-se à instituição escolar a responsabilidade de dar resposta a todos os problemas da sociedade.
É à escola que todos apontam o dedo, no sentido de resolver os problemas que eles mesmos, pais, instituições e poder político, não o sabem ou podem fazer. Não é difícil criar uma lista das responsabilidades a ela atribuídas: transmite conhecimentos, certifica saberes, gera valores humanos, estrutura aprendizagens, desenvolve aptidões, incrementa paradigmas, molda comportamentos, integra socialmente, prepara para a cidadania, ensina a democracia, substitui o encarregado de educação na transmissão de valores disciplinares e de exigência...
O fardo parece tornar-se insuportável para esta instituição social. É fácil atribuir ao sistema escolar a responsabilidade por qualquer falha de um cidadão ou de um grupo (...). Os condutores têm acidentes porque a escola não lhes soube ensinar as regras de trânsito. Os jovens metem-se na droga e enveredam pela delinquência porque o professor não lhes soube transmitir os valores da cidadania...
Voltando ao caso com que iniciámos este escrito, conseguiu-se com as boas graças do presidente da junta comprar um champô desparasitante e, recorrendo aos balneários da EB 2, 3 e à boa vontade de um professor e de um funcionário, desparasitar as cabeças dos alunos referidos. Foi esta a resposta que se deu e à primeira vista a mais acertada. Porém, se reflectirmos um pouco mais não estará também a instituição, ao resolver problemas que não tem de solucionar, a contribuir para uma cultura da irresponsabilidade de outros organismos sociais?"
José Alegre Mesquita
Carrazeda de Ansiães
30 de novembro de 2005
Demissões
Vemos resultados dos alunos convertidos em classificações e professores a discutir se o domínio cognitivo vale 50, 90 ou 100% da avaliação sumativa interna. Participamos em inúmeras discussões surrealistas donde emergem revelações sinistras e… obscenas...
Ah… para completar o quadro falta acrescentar a inércia dos pais e o alheamento dos alunos.
A partir deste cenário identifique um dos factores responsáveis pela perda de sentido do trabalho pedagógico.
28 de novembro de 2005
Tempo...
Adenda: Não sei se é influência epicurista, um pousio regenerador, ou a consequência de uma inquietação estéril e cansativa. Pode até ser tudo ou… nada.
25 de novembro de 2005
24 de novembro de 2005
Sugestão de leitura.
As muletas…
Mas nós embarcamos. E só nos apercebemos quão distantes as opiniões destes especialistas se encontram do conhecimento circunstanciado quando eles tocam nos assuntos que mais nos ocupam. O clique estala quando as suas opiniões são dirigidas para uma área de conhecimento que julgamos dominar e não encontram eco na realidade por nós percebida.
Isto para dizer que, de um momento para o outro, a escola ficou reduzida às aulas de substituição e ao trabalho docente. Não, não retomarei o equívoco enfadonho gerado pelas aulas de substituição. Prefiro recolocar velhas questões que necessitam de outro olhar. Deixem-me então arrumar algumas ideias que ainda não perderam actualidade:
- A escola insiste na sua tradição unidimensional quando ninguém ousa defender a “unidimensionalidade” da pessoa;
- A escola é uma organização “imutável” [as palavras são do Rui Canário] e nenhum governo ousa apontar uma mudança de paradigma;
- Os problemas da inclusão e da diversidade reclamam uma reentrada na agenda da escola;
- O parque escolar continuará a servir as necessidades de organização de uma escola do passado;
- A formação inicial de professores é um baldio de ideias onde poucos se atrevem a entrar;
- A formação contínua de professores não incorpora a inovação;
- O Ministério da Educação promete autonomia às escolas e reforça mecanismos de controlo;
- …
22 de novembro de 2005
Argumento da autoridade?
Não me refiro, obviamente, à jornalista que moderou o debate e que se limitou a reproduzir uma opinião muito bem propagada pelos fazedores de opinião do regime. Estou a pensar nas personalidades convidadas. Ainda conseguem recuperar a imagem, o ar de espanto que foi reflectido nas várias expressões faciais, as posturas petrificadas e a ausência de um mísero argumento?
Resquícios...
Não sei quantificar,… não sei dizer o número de vezes em que me senti caminhar num deserto...
Ainda bem que me vou cruzando, através das páginas de um livro ou de uma aparecida fugaz pela televisão, com António Nóvoa. Pois é. A profissão professor não passa sem uma profunda reconversão. Não uma reconversão qualquer no sentido da desqualificação funcional. O que faltou frisar? Uma pequena adenda: faltou dizer que a profissão professor reconfigurada exige uma escola metamorfoseada. Isto para não dizer que uma transformação profissional exige uma nova escola.
Haja vontade e acuidade dos próprios assim como é requerida uma capacidade de entender [ver longe] os problemas educativos daqueles que nos (des)governam.
21 de novembro de 2005
Impasse.
Um olhar provocador...
- Ao não reflectirmos a escola abdicamos da decisão, renunciamos ao que queremos da escola. Ao não definirmos uma agenda [como foi referido pelo Manuel no comentário colocado mais em baixo ], a nossa agenda, deixamos a “escola vivida” subjugada ao poder central e exposta a decisões iníquas.
- A haver uma vontade colectiva dos professores em assumir as rédeas dos destinos das escolas ela não se materializa em acções concertadas e concretas.
- Os conselhos executivos [quantos?] estão definitivamente remetidos a lógicas de permanência nos cargos de direcção optando, demasiadas vezes, pelo mais fácil: funcionar como uma espécie de correia de transmissão do poder central sem interferir e orientar a liderança para a inovação.
- Os constrangimentos que se colocam ao trabalho do professor configuram o Adamastor da nossa autonomia. Ao invés de servirem de desafio e suscitarem a transcendência servem para legitimar a resignação.
E agora?...
19 de novembro de 2005
Demagogia?
“É muito importante que no interior das escolas, mas não só, se abra um debate sobre estas questões [referia-se a um conjunto de problemas pretensamente mencionados em relatórios nacionais e internacionais]. Que os relatórios de avaliação e documentos de diagnóstico sejam efectivamente lidos e divulgados para que possamos todos reflexivamente encontrar e concretizar soluções.”
Há muito tempo que venho denunciando o défice de discussão no interior das escolas.
Há muito tempo que apelo à iniciativa dos professores para que fomentem os espaços de discussão intra-muros cada vez mais marcados pela burocratização dos actos educativos.
Há muito tempo que desafio as lideranças da escola para que promovam o trabalho colaborativo utilizando redes de comunicação facilitadas e mediadores expeditos e entusiastas.
Em cada dia que passa e por cada medida legislativa tomada, sinto que caminhámos no sentido oposto. Há como que um apelo à acefalia: A intensificação do trabalho docente é a prova de que não tem havido vontade de envolver os professores nas tomadas de decisão sobre o destino da escola.
E já agora: O que pensa a Sra. Ministra fazer para promover a reflexão nas escolas? Será irrelevante a questão do tempo do professor? E os seus conselhos executivos? Será que estão interessados em discutir, abertamente, a escola?
Cansado e fora de horas…
Alguém lhe chamou, tentando circunscrever a ideia, espírito de sacrifício. É simplificar algo demasiado complexo! Alguns abrem caminho por “umbiguismo”, outros por altruísmo. Será sempre algo muito forte o que nos faz mover e arrastar pelo espaço os quilómetros que for preciso e nos faz perder a noção do tempo durante esse tempo. Que motivação é esta que junta no mesmo local gente tão diversa, radicalmente diferente, não só no plano ideológico mas, e sobretudo, nos seus projectos individuais?
17 de novembro de 2005
16 de novembro de 2005
Menos tempo de preparação, mais trabalho de preparação.
Com boa vontade vou acreditar que não foi o sucesso administrativo a determinar o surgimento deste diploma. Com a mesma boa vontade vou pensar que as medidas “pedagógicas burocratizadas” [ufffa… não resisti a um palavrão] e previstas para os alunos com 3 ou mais negativas atacarão, com sucesso, o problema do insucesso e do abandono.
O paradoxo que emerge desta medida é óbvio: Por um lado, a administração reduz o tempo de preparação do professor; por outro, a mesma administração incrementa o trabalho de preparação. Confuso?
Sem precisar de cronómetro, é óbvio que a pedagogia diferenciada na sala de aula [num ápice, a pedagogia não diferenciada foi legitimada], como propõe o diploma no seu ponto 3, alínea a, requer um maior investimento do professor do que a outra [;o)], a “pedagogia não diferenciada”; As aulas de recuperação e as actividades de compensação [extraordinárias ou não, pagas ou gratuitas] exigem mais tempo de preparação. Ou não?
No cerne da indignação dos professores não temos o problema das paupérrimas condições de trabalho, como reclamam os sindicatos. Com as mesmíssimas condições de trabalho, os professores suportariam por mais algum tempo o esquecimento a que a escola e os alunos têm sido entregues. Não fora este ataque sistemático à dignidade profissional, tudo seria diferente, digo eu.
14 de novembro de 2005
Uma breve experiência
Foram duas semanas de trabalho com a equipa responsável pela elaboração dos programas. Duas semanas de trabalho diário intenso para a compreensão da lógica de funcionamento do curso, duas semanas de experiências de operacionalização.
Exigia-se uma nova atitude perante a escola: Dos alunos, professores, encarregados de educação e órgão de gestão. Faltou a comunicação. Faltou a escola. A escola balcanizada ditou a sua lei. O desafio proposto passava pela afirmação de um nova organização escolar que admitia espaços de aula “deslocalizados” das fronteiras físicas da escola, alteração dos tempos lectivos em função da actividade, mudanças na forma escolar que valorizasse os saberes não adquiridos por via escolar. Era necessário derrubar as resistências administrativas, nomeadamente o controlo do tempo do professor e mobilizar o conselho de turma para a articulação curricular [que desafio imenso]. Ganhámos a primeira batalha e perdemos a segunda. É que as práticas colaborativas dão-se mal com qualquer tipo de colaboração artificial. A territorialização das práticas educativas ganhava aqui um novo folgo ao superar a forma escolar e a organização escolar.
Da administração chegavam apelos para o envolvimento de todos os professores no projecto de trabalho e definiam-se metas e prazos impraticáveis. Estranhamente, ninguém pareceu surpreendido e até foi considerado normal que os discursos não fizessem eco nas escolas situadas.
Passou um ano. Sentámo-nos frente a frente e partilhámos experiências, decepções e inovações. Saímos desapontados. A escola recusa mudar. Paradoxalmente, a administração não a quer ver mudar. Faltou o planeamento, faltou uma visão de médio e longo prazo, faltaram os meios, faltou a mobilização. É certo que o caminho se faz caminhando mas um caminho sem gente de nada serve. Faltou o envolvimento, faltou partilhar o sentido da mudança.
Como diz o Rui Canário e eu acredito: “a inovação sob tutela corresponde a um paradoxo, que é o de pretender que as escolas e os professores sejam ensinados a ser criativos e autónomos, o que é, obviamente, uma impossibilidade.”
Uma pequena proposta...
Os professores reclamam, reclamam,... e não dizem nada... ;o)
1º Os alunos devem ou não usufruir de uma escola culturalmente rica? A resposta é consensual…
2º O que é uma escola culturalmente rica? Será diferente da escola actual. Esta é apenas, institucionalmente, unidimensional: tem apenas a dimensão curricular estrita, constituída pelas disciplinas, seus programas e respectivo sistema de avaliação. Esta dimensão reduz a educação a um processo puramente intelectualista.
3º Na escola, deve ou não haver lugar a actividades de livre de escolha e de frequência voluntária dos alunos? Se a escola não virar as costas à sociedade onde se insere, não lhe resta alternativa. Coarctar os espaços e os tempos livres é constranger o processo de autodeterminação dos alunos.
4º Como é que se organiza uma escola pluridimensional? Que propostas concretas e alternativas sugerem os professores para melhorar o ensino? Atente-se aos relatos da época em que decorreu a breve experiência da escola cultural. O meu receio é que as medidas coercivas sobre o tempo não-lectivo dos professores obstruam a possibilidade de recuperar a escola personalista.
5º A organização escolar está a seguir os passos da organização desportiva: viver da carolice e da desqualificação dos profissionais da educação é um preço demasiado elevado para ser pago pelas próximas gerações.
13 de novembro de 2005
Comentários extraviados
Tentarei reparar a situação... :o(
12 de novembro de 2005
"Aulas de substituição
Na sala de professores há uma nova linguagem a marcar o quotidiano docente. Os professores referem-se constantemente a TE, TS, Tsupervê, TCD, TDT, TLR. Quer isto simplesmente dizer Tempo Escolar, Tempo de Substituição, Tempo Superveniente, Tempo de Coordenação de Departamento, Tempo de Direcção de Turma, Tempos Lectivos Remanescentes. Falta o TI, o Tempo Individual, para completar as 35 horas. Uma maravilha de novidades.
A sala de professores é uma praça pública, despida de templos a divindades, de monumentos a figuras célebres e de raríssimas "lojas" educativas. Se não há pelourinho, há tribunal das 8h00 às 18h20. Ali, na sala, abrigados do sol e da chuva, alguns professores aguardam o "que der e vier", quando estão em TS.Esta situação fez-me lembrar uma passagem bíblica do Novo Testamento: dos trabalhadores da vinha. O proprietário saiu à procura de trabalhadores para a vinha, ao preço de "um euro", para fazer o que fosse preciso, naturalmente. Outro "senhor" poderá contratar um trabalhador para trabalhar. Será para qualquer trabalho que precisar: levantar uma parede ou paliçada, rachar lenha, cevar porcos, pastorear ovelhas, semear trigo, carregar água, enfardar palha, colher frutos... À sala de professores não vem o "proprietário", mas vem o encarregado...A esta predisposição para a realização de múltiplas tarefas chama o secretário de Estado, Valter Lemos, "defesa de uma escola de qualidade". A ministra da Educação, justificando a medida com certas disfuncionalidades existentes que devem ser corrigidas, acrescenta: "... quantos professores de Português não gostariam de ir à escola do 1.º ciclo ler poesia ou fazer umas graças?" Ler poesia, sim, senhora ministra. Mas o que quer dizer com "graças"? Serão graçolas? Ah! Depois do professor-baby-sitter, eis agora o professor-entertainer. O melhor era constituir equipas de "gatos fedorentos", não? A "contra-informação" não seria conveniente, pois não?
A qualidade de ensino que o ministério defende não se compadece só com boa-vontade, com "paus para toda a colher". A ocupação de tempos vazios, os tais "feriados", tem de ser estruturada, planificada, enquadrada e adequada a cada ano curricular e não feita ao "deus-dará", de um dia para o outro, ao sabor da maré ou da ondulação como está a acontecer.
As ditas actividades escolares, que não serão aulas de substituição, devem nascer de projectos pensados, discutidos, criativos, enriquecedores. Os tais tempos lectivos não devem ser unipessoais, mas interdisciplinares e desenvolvidos por equipas educativas. Para isso é preciso planificação. Planificar significa tempo. Realizar significa dispor de recursos financeiros, porque recursos humanos existem. São necessários espaços que não há. Para se ser feliz bastará "o amor e uma cabana"? É arqueológica a expressão que sem ovos... Nós já sabemos que a ministra não tem ovos. E quer comer a omoleta?! A senhora ministra até pode retorquir que "quem não tem cão caça com gato". Pois sim. Mas será que quer ratos na ementa da Educação? Aos professores não interessa uma vida de "huno".O Ministério da Educação engendrou uma ideia e lançou-a ao "mar" e disse do cais: voga, voga e "seja o que deus quiser"; que os ventos te sejam favoráveis. Aos conselhos executivos e aos professores disse tão-somente: "Agora desenrasquem-se." O meu tio Sebastião costuma dizer de outro modo: "Agora, cozei-vos." Ou será cosei-vos?"
Ribeiro Aires
Lisboa
Esta opinião também é minha.
9 de novembro de 2005
Pausa…
8 de novembro de 2005
"Uma escola só para alguns"
“Quinta medida: a reprovação passaria a ser absolutamente excepcional, por forma a que o aluno pudesse concluir os 12 anos de escolaridade obrigatória em turmas com alunos do seu escalão etário (a diferenciação de saberes e competências faz-se através dos níveis).”
De um ponto de vista organizativo, a medida parece-me arrojada e revolucionária; do ponto de vista pedagógico, os diferentes ritmos de aprendizagem seriam determinantes no processo educativo; do ponto de vista institucional, a escolas assumiriam a centralidade nas políticas educativas…
Ficarei a matutar nos porquês..
5 de novembro de 2005
Escola, escola… quem és tu?
Destaque para duas entradas: O Miguel, no Escolaridades, recuperou o texto do Pedro Strecht [que se encontra mais em baixo] para espevitar a discussão em torno das boas e das más escolas [o quê? Estou a adulterar a discussão? ;o)]; O Rui, no Blog dos (In)docentes, num excelente exercício de emancipação, provoca a nossa reflexão acerca de uma pretensa neutralidade axiológica do professor aproveitando as questões relacionadas com a abordagem da Educação Sexual na escola.
Aproveito para partilhar convosco este desafio que me entrou pela caixa de correio e que foi remetido por um “velho” companheiro de viagem. É uma questão que pode entroncar nos dois textos que acabei de divulgar:
«Que deve fazer um professor, em cuja aula, um aluno confessou que há mais de um ano conduz a mota com que vem para a escola, e não tem carta de condução?»
4 de novembro de 2005
“Cão apenas cão
Pedro Strecht (Pedopsiquiatra)
É muito pouco o que nos últimos anos se tem feito para investir condignamente na educação dos mais novos, quer isoladamente, quer nas suas múltiplas ligações às áreas da saúde, da protecção social, da justiça e do emprego.
Foi recentemente publicado um estudo da investigadora Margarida Gaspar de Matos, professora da Faculdade de Motricidade Humana que se tem destacado na área da infância e adolescência e que, entre outros, coordenou em 2002 um estudo da Organização Mundial de Saúde que, só em Portugal, contou com a realização de mais de seis mil inquéritos a alunos de cinco regiões do país que frequentavam os 6º, 8º e 10º anos de escolaridade.
Desta vez, foram quase mil os casos estudados de rapazes e raparigas das mesmas idades, tendo por objectivo "compreender as características específicas dos estilos de vida e hábitos de saúde dos adolescentes residentes em bairros desfavorecidos do ponto de vista sócio-económico". Para quem trabalha neste campo, os resultados não enganam e, infelizmente, também não surpreendem. "Estamos perante um grupo de jovens tristes", dizia a investigadora numa entrevista ao jornal PÚBLICO.
De facto, que dizer de números tão expressivos como os 61,1 por cento de adolescentes que se dizem sentir deprimidos, dos 53,2 por cento que se descrevem como tendo mau humor e dos 61,4 por cento que se acham nervosos? Que é impossível não parar para pensar e desejar para este grupo de jovens, afinal tão sofridos e desamparados no seu mal-estar, que é necessário fazer qualquer coisa que impeça a possibilidade repetida de, nestes inquéritos, se lerem frases como "Às vezes estou tão triste que não aguento", "Às vezes, fico sozinho na escola", ou outras equivalentes como as que nos narrava uma psicóloga de um serviço de Psicologia e Orientação de uma escola de Lisboa tida como problemática: "O meu pai é desatento à minha vida escolar" ou "Em casa sinto-me sempre sozinho, por isso ponho-me a jogar computador..."
Já há tempos atrás, outro estudo tinha revelado que os alunos das escolas portugueses eram, dentro da União Europeia, os que se descreviam com mais sintomatologia depressiva, quer ela fosse expressa através das clássicas alterações do humor, quer pelas queixas somáticas (do corpo), ou pelos mais importantes problemas de comportamento e dificuldades de aprendizagem.
Daí a necessidade de se poder olhar para este grupo de rapazes e raparigas com um olhar de presença e não de esquecimento, e com uma atitude de intervenção que, sem rodeios, procure ir à raiz sócio-familiar dos seus problemas, pois só esses explicam ainda outros dados encontrados no mesmo estudo, de que são exemplo os mais de 3 por cento que dizem deitar-se com fome, o que aponta para a gravidade de carências básicas pelas quais têm diariamente de passar alguns destes adolescentes das zonas de Marvila, Loures, Amadora e Oeiras.
Claro que, infelizmente, estas zonas não são excepção, pontos negros de um país cuja realidade da infância e adolescência está longe de ser vivida num padrão mínimo de decência. Basta analisar o ranking das melhores escolas nacionais, publicado faz poucos dias pelo quinto ano consecutivo, para se perceber que, novamente, são as escolas particulares as que ocupam sistematicamente os primeiros lugares do top. E quais são as últimas de uma longa lista de mais de outras 500? Habitualmente as mesmas: as que servem populações mais carenciadas, isoladas, inseridas por isso em zonas de grande esquecimento: Pampilhosa da Serra, Porto Santo, Ponta Delgada, Penamacor, Murça, Ourique, Alfândega da Fé, Câmara de Lobos, Lisboa, São João da Pesqueira, Proença-a-Nova, só para citar algumas dos 15 últimos postos.Não é difícil a uma escola minimamente organizada, com um corpo docente estável e coeso, favorecer um melhor nível de aprendizagem, se os seus alunos provêm de famílias com mais recursos sociais, culturais e económicos. Também não é difícil fazê-lo, se, muitas vezes, algumas condicionam as entradas desses mesmos alunos através de exames prévios a disciplinas como a Língua Portuguesa ou a Matemática e, se algo corre mal, impedem matrículas nos anos seguintes (nisso há ainda honrosas excepções). Por isso, como já foi escrito, uma boa escola mede-se muito mais pela forma como intervém no seu grupo de alunos mais difíceis do que através do que realiza com bons estudantes.
Assim, o ranking que anualmente se publica só parece servir a possibilidade de escolha (para quem tem obviamente essa possibilidade), de um estabelecimento de ensino, quase sempre particular, que garanta uma boa fiabilidade face àquilo que não há pai nenhum que não deseje: o melhor para os seus filhos. Para quem pode, essa não é uma atitude criticável. Mas o problema não reside aí; o problema coloca-se em quem não pode. Que fazem então os pais de milhares de crianças e adolescentes que também esperam poder dar o melhor para os seus filhos e, simplesmente, não conseguem chegar a determinado patamar de gastos económicos?
O que a realidade bem demonstra é que uma boa parte desses servirá para engrossar o batalhão dos esquecidos, arremessados para uma escola pública de um "salve-se quem puder", onde, em algumas circunstâncias, um destino de uma rapaz ou de uma rapariga é uma mera questão de sorte... ou de azar.
Parece pouco. É aliás muito pouco o que nos últimos anos se tem feito para investir condignamente na educação dos mais novos, quer isoladamente, quer nas suas múltiplas ligações às áreas da saúde (sobretudo, a mental, como tão bem demonstra o estudo da referida investigadora), da protecção social, da justiça e do emprego. Depois, aparecem dados tão relevantes como estes, e que fazem então muitas pessoas com responsabilidade dirigente? Parecem simplesmente abrir a boca de espanto, como se esta fosse uma realidade ausente de uma parcela importante do nosso país.
Como descrevia ainda Margarida Gaspar de Matos, numa frase que subscrevemos totalmente, "a escola protege". Pois que quem está na escola e aprende dela não foge para engravidar, para consumir álcool e todo o tipo de drogas, para se revelar forte e notado na pequena marginalidade ou delinquência, ou para simplesmente se apagar como cidadão, no enorme bando de omissos ou esquecidos do sistema.
Há ainda um longo caminho a percorrer para que se possam ouvir ou ler cada vez mais frases de um conteúdo oposto, como estas obtidas numa prova projectiva em alunos do 9ºano: "Em casa sinto-me sempre relaxada", "O meu pai é meu amigo", ou ainda "Na escola eu estou bem e gosto de lá estar com os meus amigos".
Mas, para isso, temos que abolir diferenças que só recordam a velha música para crianças de José Barata Moura: "Eu sou o cão Dom Pantaleão/ E eu cá sou o cão apenas cão."
3 de novembro de 2005
Autonomia docente
1) A criação da Ordem reforçaria a credibilidade da função docente na opinião pública;
2) A Ordem mobilizaria os professores evitando a dispersão de energias [a diversidade do movimento sindical actua em movimento contrário] “balcanizando” a corporação;
3) O terceiro argumento reporta-se ao controlo da qualidade do docente através de “um exame sério e rigoroso, de dez em dez anos, por forma a verificar a sua capacidade em termos de conhecimentos científicos e pedagógicos”.
Foquemo-nos na sustentabilidade dos três argumentos: Em primeiro lugar, nenhuma Ordem controlará as causas exógenas da degradação da função docente, causas essas relacionadas com o amplo movimento social que relativiza o valor da escola e que, por arrastamento, desvaloriza o papel do professor; Em segundo lugar, uma Ordem excessivamente interventora correria o risco de se “partidarizar” [a partidarização é uma das críticas assacadas ao movimento sindical] degradando, consequentemente, o espírito corporativo; O terceiro argumento, prontamente contestado pelo PJ [comentário colocado no Micómio], não encontra eco na tradição portuguesa que, como foi relembrado, não inclui o exame a não ser nos casos em que os candidatos à profissão não são creditados. Poder-se-ia questionar se a ausência de tradição deste tipo de prática a torna irrelevante, mas não é este o assunto que me interessa discutir. O que suscitou esta pequena reflexão foi o argumento de fundo [referido pelo PJ] contra a criação da Ordem dos Professores e que conduzirá a discussão para o domínio da autonomia: “Trata-se do grau de autonomia das funções docentes” que, no caso do professor do ensino básico e secundário é diminuta quando comparada com a autonomia dos colegas do ensino superior e inócua quando equiparada às profissões liberais.
Ora, é a discussão sobre a autonomia docente que me atrai. A autonomia [científica?] dos docentes do ensino básico e secundário não é comparável à autonomia dos docentes do ensino superior no que concerne à possibilidade de “criar o seu” programa, prosseguir indicações curriculares restritas à instituição e proceder a uma avaliação própria. Contudo, ao entendermos a autonomia na perspectiva de Contreras (1999:204) “ [(…) um processo de emancipação, o que requer uma análise das condições da prática e do pensamento”], invocamos a independência intelectual dos docentes que se justifica pela ideia da emancipação pessoal da autoridade e do controle repressivo, da superação das dependências ideológicas ao questionar criticamente as concepções de ensino e de sociedade. É uma crítica às demandas da comunidade, mais ou menos próxima [e relevo neste ponto a crítica à própria instituição], que impulsiona os professores do básico e do secundário para a primeira linha autonómica podendo deixar para trás [nesta corrida esotérica] os seus colegas do superior que se vêem coarctados, no seu elevado espírito crítico, pelo hermético modus vivendi instalado nas Universidades e Politécnicos.
2 de novembro de 2005
Proximizade
Proximidade e mão amiga. "Proximizade", feita do entusiasmo voluntário de quem quer ajudar a combater a apatia, a dispersão e a insensibilidade que nos ameaça se continuarmos indiferentes ao que se sabe e ao que se vê.
Aqui, já está a acontecer.



