13 de outubro de 2005
Alarme [falso?].
... o cinismo está a tomar conta da escola!
Atenção...
... "em vez de se confiar nelas, fecham-se as pessoas num regime de prescrições e de autorizações prévias que não pode senão desmobilizá-las, desresponsabilizá-las, encorajá-las a fazer batotices e artimanhas para fugir a ordens excessivas ou absurdas." (Perrenoud, :o)
Atenção…
... o formalismo exacerbado que decorre das recentes medidas que diminuem o tempo de preparação dos professores está a produzir estragos de alcance indeterminado.
Atenção…
... não se entretenham com os educadores de bancada porque esses… estarão bem longe da fogueira no momento de apagar o fogo!
12 de outubro de 2005
Professor de bancada
A aversão que sinto por esta tese decorre da aceitação de que a educação não é um processo apassivante de mera transmissão cultural, mas tem de ser um processo activante de assimilação, crescimento e desenvolvimento pessoal, como diria o professor Patrício. A educação é acção, é relação! O mundo visto da bancada ou, na versão «pós-moderna», do sofá, é alienante. Assim como será alienante a educação sem epiderme. Educar na bancada é, paradoxalmente, estar por dentro cá fora.
A apologia da bancada não será uma forma camuflada de “voyerismo”? Será que esta doença [o “voyerismo”… uma doença?] só se manifesta no fenómeno desportivo porque é a coisa mais séria das coisas menos sérias?
E para as coisas sérias como a economia [risos], a política [uma orgia de risos], a justiça [choro] ou a educação [risos intervalados com choro]?
Não será um absurdo assumirmos a condição de juízes de bancada, médicos de bancada, economistas de bancada, padres de bancada, polícias de bancada e, por que não, professores de bancada?
Blogueducação
O Blogeducação parece renascer das dificuldades e dos obstáculos que marcam o dia-a-dia escolar. Até quando?
10 de outubro de 2005
Avaliação da reforma
Este estudo, que se prolongará por três anos escolares, com início durante o próximo ano escolar, será executado por uma equipa especializada coordenada pelo Prof. Doutor Luís Capucha, tendo incidência nos seguintes domínios:
- Efeitos da reforma na taxa de escolarização;
- Qualidade das aprendizagens;
- Qualidade dos processos de transição nos percursos de vida;
- Custos do sistema e pertinência e eficácia do co-financiamento.”
Nota 1.
Apesar de tardia [responsabilidade que não pode ser imputada aos actuais inquilinos da 5 de Outubro], esta iniciativa governamental releva uma lacuna grave de planeamento do anterior executivo e ridiculariza a utilização dos vocábulos “rigor” e “exigência” que, como todos se recordarão, era usado e abusado, por tudo e por nada, no sector educativo. Deixemos o defunto em paz…
A proposta metodológica para o acompanhamento e avaliação da reforma do ensino secundário pode ser encontrada (on-line) na página oficial do ME.
Nota 2.
Depois de uma leitura rápida do documento, fixei-me no seu principal objectivo:
“[…] a partir da observação do conjunto das dinâmicas implicadas no processo e da verificação em pormenor do modo como elas se estão a reflectir no terreno, fornecer as indicações práticas necessárias à monitorização da reforma e à introdução dos ajustamentos necessários à sua efectiva implementação, com vista a romper com o crónico problema do desajustamento entre os quadros normativos e os resultados das práticas efectivamente implementadas no terreno.” (p. 12)
Terei entendido correctamente? Então o que se pretende é aferir resistências e obstáculos à implementação das mudanças no sistema e aplicar-lhes os devidos correctivos? Parece-me bem. Mas… não será tarde demais?
É “que nenhuma reforma educativa importante nasce sem ter sido preparada por uma parte dos docentes e dos estabelecimentos de ensino, quer no terreno, quer no registo das representações.” [Perrenoud, novamente ;)]
9 de outubro de 2005
:o(
Lastimavelmente perdi não só os endereços de e-mail como a maioria dos materiais em anexo. Agradeço desde já aos colegas e amigos o favor de me enviarem os vossos contactos para o meu endereço habitual.
7 de outubro de 2005
5 de outubro de 2005
[Ex]citação.
Evoco Perrenoud depois da minha análise sobre o tempo do professor ter desembocado na ideia de que o ofício de professor, tal e qual o conhecemos, pode estar em risco de extinção.
“[..] Em que sentido queremos fazer evoluir o ofício de professor? No sentido de uma autonomia profissional acrescida e reconhecida com a contrapartida de uma maior responsabilidade? Ou para a multiplicação de prescrições e controlos?
[…]
Uma "proletarização" moderna espreita o professorado em todos os países onde a explosão de serviços especializados em didáctica, em avaliação e em tecnologia tem permitido uma produção prescritiva cada vez mais rica. Os instrumentos estão ao alcance da mão, a tentação é forte para multiplicar grelhas, sequências, esquemas. Nada nos diz que todos os países irão resistir a essa tenção e caminhar para a profissionalização do ofício de professor.
De resto, não é certo que toda a gente tenha interesse nisso: a profissionalização aumenta as responsabilidades, mas também a autonomia dos docentes; pode, por isso, enfraquecer o poder que sobre eles pretendem exercer tanto os quadros como os membros da noosfera, uns em nome dos textos oficiais, outros em nome dos saberes propriamente ditos. Este poder, já se viu, é largamente ilusório, mas a ilusão basta para alguns e é mais fácil e habitual prescrever do que levar a cabo e suscitar a reflexão. Tendo em vista a proliferação dos especialistas, a tendência dominante pode ser de aumentar as prescrições, os controlos, a regulamentação e de burocratizar um pouco mais o sistema.
Para lutar contra esta tendência, é necessário dar prioridade à evolução progressiva e global do ofício. Far-se-á tanto mais voluntariamente o luto de uma hipertrofia das prescrições quanto nos dermos conta de que não temos meios de as combinar num controlo perfeito ou que não temos â coragem de enfrentar as tensões que suscitarão.
Apostar no desenvolvimento de saberes partilhados, na construção de competências profissionais mais concisas, na prática reflexiva, no trabalho sobre a ética e as finalidades é também ser coerente com os paradigmas que pretendem orientar o desenvolvimento da educação escolar: sócio-construtivismo, educação para a cidadania, tomada de consciência da relação com o saber, formação de competências, autonomização do sujeito, etc.
É preciso, no entanto, ter em conta que a profissionalização não terá efeito senão a médio prazo, que nada de decisivo se fará num ano, nem mesmo em cinco. Colocar o assunto da pilotagem nesta perspectiva a médio prazo, leva a abandonar o forcing para impor ideias ou dispositivos isolados - módulos, percursos diversificados, ajuda metodológica, projecto pessoal do aluno - para dar prioridade à formação contínua das pessoas, aos projectos escolares, aos processos de inovação endógenos, às disposições que facilitam a cooperação e a prática reflexiva.
É, evidentemente, uma estratégia fundada numa aposta e em valores. Cada um tem o direito de desenvolver uma visão da pilotagem pela acumulação de prescrições. Se formos nesse sentido, no entanto, o mínimo que poderemos fazer é fazê-Io seriamente, velar para que as prescrições sejam realistas, não contraditórias, inteligíveis, credíveis, apoiadas pelos diferentes actores. E de activar um sistema de controlo eficaz.
Desenvolver a profissionalização ou pilotar as práticas, aumentando a parte prescrita do trabalho de ensino? A maioria dos sistemas mantém vivas essas duas alternativas e evita fazer uma opção. Se bem que, de decénio em decénio, se organizam colóquios para lamentar a impossibilidade de pilotar verdadeiramente as práticas pedagógicas...
Quanto a mim, escolhi o meu campo e não tenho nenhuma intenção de contribuir para uma engenharia da prescrição e do controlo. Isto não significa que, como pesquisador, não esteja pronto a defender qualquer prática pedagógica. Mas não pretendo que as práticas mais prometedoras sejam impostas por uma pilotagem burocrática. As práticas só terão sentido e eficácia se forem livremente escolhidas, na base de um raciocínio profissional e de uma reflexão ética que ninguém pode decretar. Mas, também, de saberes partilhados.” pp. (77-78)
Philippe Perrenoud (2002). Aprender a negociar a mudança em educação.
?
Um dia de campanha que não correu bem para o candidato da coligação PSD/CDS-PP à Câmara de Sintra. Numa visita ao Centro Comunitário de Casal de Cambra, Fernando Seara envolveu-se em confrontos. A associação já condenou a actuação do candidato, considerando-a «deplorável». Entretanto, Fernando Seara já rejeitou as acusações.
( 23:05 / 01 de Outubro 05 )
O candidato da coligação PSD/CDS-PP à Câmara de Sintra visitou, este sábado, o Centro Comunitário de Casal de Cambra em acção de campanha que não terminou da melhor forma.
Segundo a direcção da associação, a actuação de Fernando Seara foi «deplorável». Tudo aconteceu na altura em que o candidato visitava o ginásio onde decorria uma aula de Educação Física.
Em declarações à TSF, Teresa Elias, da direcção do Centro Comunitário de Casal de Cambra, explicou que Fernando Seara envolveu-se em confrontos com um dos professores.
«O professor de Educação Física, que não sabia da visita, quis continuar a sua aula, chamando os alunos, que eventualmente estavam distraídos, para prosseguir a aula», disse.
Fernando Seara que, segundo Teresa Elias, «não deverá ter gostado da atitude do professor», dirigiu-se a este, advertindo-o para o modo como estava a lidar com as crianças.
Aquela responsável acrescentou que Fernando Seara «colocou as duas mãos na cara do professor», sublinhando que, a partir daí, veio o «descalabro» com algumas atitudes «inadequadas» por parte do candidato.
Fernando Seara refuta acusações
Entretanto, Fernando Seara negou à TSF que tenha tido uma atitude ameaçadora durante a respectiva visita, esclarecendo que apenas pretendia corrigir a atitude de um professor que, no seu entender, lhe pareceu «incorrecta».
O candidato da coligação PSD-CDS/PP esclareceu ainda que Teresa Elias, que deu a voz à indignação, é candidata à autarquia nas listas do PS.”
In: TSF on-line [link]
3 de outubro de 2005
Tecnocracia.
O tempo de preparação pode ser definido como o tempo que os professores gastam fora das salas de aula e o seu uso tem gerado acesas discussões, dentro e fora das escolas.
O grande público não compreende muito bem para que é que serve o tempo de preparação. Mesmo as pessoas mais próximas dos professores, amigos e familiares, desconhecem o que se faz neste tempo e quais os benefícios para a função docente. Há quem considere o uso do tempo de preparação uma regalia injustificada e não é por acaso que os políticos e tecnocratas o transformaram num alvo apetecível de controlo do trabalho docente.
Opinião contrária é a da maioria dos professores. Argumenta-se que o tempo de preparação é essencial e influencia, inquestionavelmente, a qualidade na educação para as crianças e jovens. Funciona como um contrapeso ao processo de intensificação e parece contribuir de forma a inverter a sua espiral.
O tempo de preparação não sendo nenhuma panaceia limita-se a oferecer oportunidades. Por um lado, apela às culturas de colaboração, ao combate ao individualismo e a um conjunto de oportunidades de utilização deste tempo para os docentes se reunirem, planificarem, ajudarem-se uns aos outros e discutirem questões durante o dia escolar normal e promoverem um trabalho mais criativo. O objectivo da utilização deste tempo é contrariar os efeitos da intensificação do trabalho. Por outro lado, as perversidades do tempo de preparação nem sempre conduzem a acréscimos no tempo de preparação. Efectivamente, nem sempre os fins a que se destina o tempo de preparação são os desejados pelos seus defensores. Os aumentos de tempo de preparação reduzem a qualidade do trabalho quando os professores são afastados das suas turmas para se dedicarem a outras áreas de trabalho. Um aspecto que constitui uma perversidade e que coarcta o potencial do tempo de preparação é o incremento de reuniões e de tarefas de teor administrativo numa lógica de colaboração artificial intensificando ainda mais o trabalho do professor.
2 – Mais do mesmo…
As recentes medidas coercivas tomadas pelo executivo sobre o tempo dos professores, aliás muito bem preparadas pela comunicação social, aparecem à opinião pública apoiadas por um argumento que seria, garantidamente, bem acolhido por todos: requalificar o tempo de permanência do aluno na escola com actividades educativas. Ora, o que não foi explicado é que essas actividades podiam ter entrado no tempo lectivo do professor se houvesse uma intenção genuína da administração em garantir projectos de qualidade para a ocupação do tempo livre do aluno. O que aconteceu, na verdade, foi uma operação política bem engendrada que visou unicamente reduzir a despesa no sector: Menos professores para o mesmo trabalho.
Atente-se como se procurou explorar a questão da perversidade do tempo de preparação para garantir a anuência da comunicação social tendencialmente hostil ao trabalho docente. Os representantes das associações de pais preferiram remeter-se a um silêncio comprometedor como se a questão da intensificação do trabalho docente não existisse.
E a reacção dos sindicatos?
Os sindicatos têm demonstrado uma inoperância, sofrida, motivada pela crise profunda em que se encontra o movimento sindical. A ideia que passa nas escolas é que não existe estratégia de modernização da estrutura sindical e que o tempo acentua uma eventual falta de representatividade. Por analogia é possível dizer-se que a descrença dos professores nos sindicatos é a descrença dos cidadãos nos seus representantes políticos.
E a reacção dos professores?
A partir da blogosfera é possível perceber o ambiente que grassa na escola. A indignação é generalizada devido à indiferença da tutela pelos problemas dos docentes. E da indignação à radicalização dos discursos foi um passo acelerado. Fizeram-se contas ao tempo gasto no trabalho de preparação e não faltaram promessas de cumprimento zeloso do horário estipulado. Receio que o engodo lançado pela administração sirva para funcionalizar ainda mais o trabalho docente. Espero que os docentes percebam que o que está em jogo é uma tentativa de transformar o professor num operário da educação, cada vez menos qualificado, cada vez mais tecnocrata. Como consequência desta metamorfose, o ofício de ser professor está, efectivamente, em risco de extinção.
1 de outubro de 2005
Intenções…
Como é que o governo convencerá os alunos [e as famílias] a desviarem-se do "apelativo" prosseguimento de estudos?
30 de setembro de 2005
Não contem comigo!
Peço desculpa aos meus caríssimos colegas que subscrevem esta missiva mas eu não contribuo para este peditório. Embora compreenda a revolta dos docentes [até porque sinto na pele as vergastadas públicas] pela inaceitável afronta à dignidade profissional não penso que o passo em frente para o abismo profissional venha a resolver o problema central que é, a meu ver, a falência do modelo educativo societal e, em particular, o fracasso dos modelos escolares. Não contribuo para esse peditório mesmo que o actual executivo me convide a dar esse passo.
Não estou disponível para o reconhecimento público da extinção do ofício de ser professor!
29 de setembro de 2005
Diário de bordo
Os dias correm à minha frente. Na verdade, não tenho memória de um início de ano lectivo calmo, sossegado, rotineiro. Como sempre, o corre-corre reparte-se entre actividades lectivas, encontros com alunos, prestação de esclarecimentos, busca de espaços de aula adequados à tipologia das actividades propostas, contactos entre pares para coordenar actividades conjuntas. Pelo meio, um tempo para a pesquisa de materiais na biblioteca, levantamento de fotocópias na reprografia e uma pausa para um café.
Sensações:
Tenho a clara noção de que me deixei enlear no trabalho intensivo e que pagarei, mais cedo ou mais tarde, o preço desta entrega. O meu desejo é conservar o discernimento de forma a gerir o ritmo de trabalho sem prejuízos para a minha sanidade mental.
Expectativas:
Amanhã reunirei com os encarregados de educação de uma turma de alunos mal orientados. Tenho uma certeza: Encontrarão pela frente um professor satisfeito com a vida que leva e regressarão a casa convencidos de que não estão sós.
28 de setembro de 2005
Olhares de fora: O “umbiguismo”
Neste curto período de governação tem sido visível a incidência de acções executivas direccionadas para o trabalho docente. Os holofotes da opinião pública foram fixados aí e com a ajuda preciosa da comunicação social foi construído o cenário de uma presumível doença que afecta o sistema educativo: O professor é o cancro da educação e há que lidar com ele com cautela porque existe o risco da cura acabar com o doente. Este é o sentimento profundo do professor. Dirão que existe um problema de auto-conceito e de auto-estima. Será essencialmente um problema de auto-estima. Talvez só assim se justifica o exacerbado egocentrismo que parece ter tomado conta da escola.
27 de setembro de 2005
Ser professor
“Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece a manhã.
Ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele lança
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe um grito que um galo antes lançou
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia ténue,
se vá tecendo, entre todos os galos.”
25 de setembro de 2005
Estados de espírito
Uma colega desabafa, no clímax do braço de ferro entre os professores e o ME, durante a época de exames de Julho:
- Já me lembrei de rumar para um país qualquer e mudar de vida… fiz-me professora com um sonho e agora? De certeza que não me sairia mal a vender papel higiénico… ou outra tralha qualquer. Tenho a certeza que serei sempre uma boa profissional.
- E o que farás a seguir, quando perderes o sonho?
- ???
Observem como este desabafo encerra dois estados de espírito antagónicos: Por um lado, a colega revela um profundo descontentamento com a conjuntura da educação em Portugal, uma visão pessimista da profissionalidade que admite a ruptura, o abandono da profissão.
Por outro lado, percebe-se que o discurso encerra uma enorme confiança nas possibilidades pessoais, uma visão optimista da suas capacidades individuais que lhe permite enfrentar qualquer desafio, inclusivamente, o começar do zero. Emerge a plasticidade do professor constantemente solicitada pela sua prática docente.
Outro exemplo:
Multiplicam-se os sinais de desconforto pela situação vivida nas escolas. Por um lado, sucedem-se os relatos de uma resistência mais ou menos activa às exigências desqualificantes da função docente. O controlo burocrático estupidificante exige que o professor se apresente a um funcionário zeloso e marque a sua presença em cada 45 minutos do tempo de escola. Se este quadro revela um problema não deixa de apontar uma solução: Os conselhos executivos não podem ser mais papistas que o papa e cuidar, através de acções organizativas inteligentes, do ambiente da escola. Na ânsia de cumprir as determinações hierárquicas não podem perder de vista as superiores necessidades dos alunos e da escola. E isso só é possível com a adesão dos professores… Os professores estão pessimistas com os efeitos das mudanças impostas.
Por outro lado, a situação favorece a criação de pequenas comunidades que aproximam a vida profissional e pessoal dos professores, de um modo que apoia o seu crescimento e permite que os seus problemas sejam discutidos. Se observarmos a mudança sob este ponto de vista, há um enorme optimismo.
Quando falamos de pessimismo e optimismo não podemos ignorar o investimento de cada um na profissão. Altas expectativas defraudadas têm os seus custos. É normal que o sentimento dos professores [principalmente dos que investem seriamente na sua profissão] seja de desânimo quando percepcionam um ataque à sua dignidade profissional. É preciso discernir, no meio deste fogo cruzado, quais são os verdadeiros desafios que temos de enfrentar. E não podemos desperdiçar a nossa energia em diálogos surdos. Já todos percebemos que este ME é autista e que por via da sua estratégia de acção política transformou os professores em adversários. Já todos percebemos que, no emaranhado da comunicação social, não podemos confundir uma notícia de um artigo de opinião; há fazedores de opinião que, por variadas razões, abrem caminho às tomadas de decisão políticas adoptando, assertivamente, discursos optimistas ou pessimistas acerca do ensino; que existem muitos órgãos de gestão excessivamente zelosos cuja única preocupação é demonstrar, perante a administração central, a sua qualidade de alunos exemplares.
É preciso avaliar correctamente a situação e reorganizar o sentido profissional! Dizer-se optimista ou pessimista de pouco vale para enfrentar a conjuntura. A distância que separa o pessimismo do optimismo é muito curta. E um sentimento efémero. Mais importante do que revelar o nosso pessimismo ou optimismo, há que reflectirmos, avaliarmos, partilharmos, cooperarmos, desenvolvermos verdadeiras culturas de escola que rejeitem a funcionalização do professor. Que rejeitem a passividade, o acriticismo e a subserviência. E isso não depende dos outros. Depende da forma como nos situamos na profissão.
23 de setembro de 2005
Ser professor com prazer!
Fiquemo-nos pelas causas mais próximas: Já o percepcionara com a escrita do Manel, Sofia, Gustavo, Miguel e, recentemente, com os textos e comentários da Isabel. Não pretendo desconsiderar todos os outros colegas com quem tenho partilhado ideias, comentários, sentidos da escola e crenças do ensino, uns mais novos e outros mais experientes, alguns do superior, a maioria do não inferior [utilizando uma expressão do meu amigo Miguel]. Todos têm sido marcantes. Mas, estes meus confrades da escola têm sido especiais! O que trespassa das suas escritas é a inquietude perante a adversidade. Mesmo nos momentos em que o esmorecimento parece tomar conta da vontade de cada um emerge, resplandecente, o desejo de mudança. Eu sei que esse desejo de mudança ultrapassa os muros da escola onde trabalham: Ultrapassa as intenções. Estou convicto de que nos seus dialectos não cabe a palavra resignação: Mesmo que ela seja apregoada só pode ser entendida como um grito de revolta, quiçá um sinal de impotência perante a grandeza do desafio, um vómito provocado por um sentimento de injustiça. Independentemente do brilho da escrita de cada um há uma cumplicidade latente que só pode derivar da enorme satisfação de ser professor. E gostar de ser professor é cada vez mais difícil nos tempos que correm. É por estas e por outras [e não faltarão oportunidades de as revelar] que ainda vale a pena andar por cá!
22 de setembro de 2005
:o(
Não fico alheio às conversas e aos desabafos e não sinto indiferença pelas aberrações geradas por um sistema educativo cego, impessoal. Exagero?!
As escolas de faz-de-conta vivem dois mundos distintos: o mundo da representação formal com os seus mapas da distribuição de serviço, a prestação de contas, o controlo, o controlo do controlo, a montra da escola; e o mundo real, das relações pessoais, da epiderme, das sensações e sentimentos.
O que é que separa estes dois mundos? Por que separam estes dois mundos?
:o)
CAPITALISMO IDEAL
Você tem duas vacas. Vende uma e compra um boi.
Eles multiplicam-se, e a economia cresce. Você vende a manada e aposenta-se. Fica rico!
CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas. Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas. Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas. Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite.
Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquemon e vende-os para o mundo inteiro.
CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas. As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacas. Elas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas. Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.
Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas. Conta-as e vê que tem cinco. Conta de novo e vê que tem 42. Conta de novo e vê que tem 12 vacas. Você pára de contar e abre outra garrafa de vodka.
CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua. Você cobra para guardar a vaca dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas. E reclama porque o rebanho não cresce...
CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas. Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas. Uma delas é roubada. O governo cria O IVVA -
Imposto de Valor Vacuum Acrescentado. Um fiscal vem e multa-o, porque embora você tenha pago correctamente o IVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.
O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos do seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha 200 vacas e para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspector das finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho...
Os politécnicos e a ocupação dos tempos livres.
Este curso de formação acelerada é apresentado como uma boa forma de «ocupar os jovens» que não puderam entrar no ensino superior. Será uma boa forma de vigiar os jovens durante mais algum tempo enquanto o mercado de trabalho continua saturado.
O governo agradece e o mercado das explicações floresce!
21 de setembro de 2005
As promessas são para cumprir.
Um dia, Deus, muito insatisfeito com a humanidade e os seus pecados, decidiu pôr fim em tudo.
Deus reuniu então todos os líderes mundiais para comunicar-lhes pessoalmente a sua decisão de acabar com a humanidade em 24 horas.
Deus disse:
" Reuni-vos aqui para comunicar que extinguirei a humanidade em 24 horas".
E o povo dizia:
" Mas, Senhor..."
" Nada de MAS, este é o limite, a humanidade vai abandonar a Terra para todo o sempre!
Portanto, voltem aos respectivos Países e digam ao Povo que estejam preparados. Têm 24 horas!
O primeiro a reunir o povo foi Bush.
Em Washington DC, através de uma mensagem à nação, Bush disse:
"Americanos, eu tenho uma boa notícia e uma má notícia para dar." A boa notícia é que Deus existe e que ele falou comigo. Mas, claro, já sabemos disso. A má notícia é que esta grande Nação, o nosso grande Sonho, só tem 24 horas de existência. Este é o desejo de Deus".
Fidel Castro reuniu todos os cubanos e disse:
" Camaradas, povo Cubano, tenho duas más notícias. A primeira é que Deus existe... sim, eu vi-o, estava mesmo à minha frente!!! Estava enganado este tempo todo... A segunda má notícia é que em 24 horas esta magnífica Revolução pela qual tanto temos lutado, vai deixar de existir."
Finalmente, em Portugal, José Sócrates dá uma conferência de imprensa:
"Portugueses, hoje é um dia muito especial para todos nós.
Tenho duas boas notícias.
A primeira boa notícia é que eu sou um enviado de Deus, um mensageiro, porque conversei com ele pessoalmente.
A segunda boa notícia é que, conforme constava do Programa do Governo e apenas em 24 horas, serão erradicados para sempre o desemprego, o analfabetismo, o tráfico de drogas, a corrupção, a pedofilia, os problemas de transporte, água e luz, habitação, nada de burocracia, e o mais espectacular de tudo:
O IVA vai acabar assim como a miséria e a pobreza neste País!! O Governo cumpriu tudo o que prometeu!!!"
20 de setembro de 2005
Malhar em ferro frio (III)...
Porque os tempos que correm exigem um retorno ao problema da culpa.
A culpa
A sociedade portuguesa alimenta uma desconfiança em relação à escola, criticando-a com razão e sem ela. As sondagens da opinião pública confirmam a tendência em pedir à escola tarefas de enquadramento das crianças e jovens. A escola de massas não tem conseguido responder à população discente heterogénea.
Nesta medida, as situações de mal-estar na escola multiplicam-se e não afectam unicamente os alunos. Sendo certo que na escola actual (marcadamente tradicional) os alunos têm motivos de sobra para não se sentirem bem, por que será que muitos professores vivem emoções de ansiedade, frustração e culpa?
Recorrendo ao trabalho de Hargreaves (1998)[1] aprendemos a lidar com o problema da culpa e percebemos que em doses moderadas, ela pode representar um factor de motivação, de inovação e de aperfeiçoamento. O problema é quando a culpa está ligada a sentimentos de frustração e ansiedade podendo tornar-se um factor limitador para o trabalho e para a vida do professor.
Ao tomarmos consciência das armadilhas que no ensino criam os tais excessos de culpa será possível conviver com estes sentimentos e procurar que eles sejam fonte de cuidado e preocupação pelos outros, no seio da comunidade profissional de ensino.
Sendo possível lidar construtivamente com os problemas da culpa, quando ela é sentida em doses elevadas o comportamento dos docentes pode degenerar no abandono do ensino, em problemas de esgotamento, no cinismo e outras reacções negativas. Os antídotos para resolver estes problemas actuam, na perspectiva do autor, nos sintomas e não nas causas de tais comportamentos.
Uma parte da solução para as armadilhas da culpa encontra-se a montante da escola. Há que travar a euforia legislativa que tem contagiado, fatalmente, os diversos governos.
A outra parte da resolução do problema terá de ser encontrada na própria escola, no âmbito da sua diminuída autonomia, através dos actos de gestão e no domínio da formação contínua de professores.
Hargreaves (1998) propõe um conjunto de soluções para lidar com as armadilhas da culpa que têm sido adoptadas em alguns locais:
“1. Baixar as exigências de prestação de contas e de intensificação do ensino. (...) Deter a burocracia, reduzindo a ênfase que é colocada sobre os resultados dos testes e outras formas impressas de prestação de contas.
2. Reduzir a dependência em relação ao cuidado pessoal e ao tratamento dos outros, enquanto motivo primordial subjacente ao ensino elementar, em particular, ampliando a definição de cuidado, de modo a que este abarque não só uma dimensão pessoal, mas também uma dimensão moral e social, e equilibrando os propósitos educativos de importância equivalente,
3. Aliviar a incerteza e a natureza aberta do ensino, criando, ao nível do estabelecimento de ensino, comunidades de colegas que trabalham em colaboração, estabelecendo os seus próprios limites de exigência profissional e permanecendo ao mesmo tempo empenhadas num aperfeiçoamento contínuo. Tais comunidades também podem aproximar a vida profissional e pessoal dos professores, de um modo que apoia o seu crescimento e permite que os seus problemas sejam discutidos, sem receio de reprovação ou de punição (Idem: 177) ”.
A incursão à problemática da culpa legitima-se a partir do momento em que assistimos ao avanço de uma política e prática neoliberal e neoconservadora. A análise deste tipo de questões em países como o Canadá, Estados Unidos da América e Grã-Bretanha poderá oferecer algumas pistas para melhor compreendermos o que se passa hoje em dia no nosso país. Mas seria um erro ficar por aqui. A questão principal continuará a ser a identificação dos constrangimentos que asfixiam a acção educativa e, simultaneamente, encontrar ferramentas adequadas que potenciem a qualidade do nosso trabalho.
30 de Dezembro de 2003
[1] Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempos de mudança – O trabalho e a cultura dos professores na idade pós-moderna. Editora McGraw-Hill. Amadora.
Malhar em ferro frio (II)...
O professor vive no meio desta encruzilhada e deverá de ter uma perspectiva tão polivalente quanto possível para dar respostas às finalidades da educação díspares, como deixei implícito atrás. O nosso trabalho não se limita a cumprir orientações do ME, CE, ou dos EE. É um exercício permanente de desconstrução da realidade em que vivemos para “dar aquilo que os alunos necessitam”.
Os professores sabem que ser professor é muito mais do que dar aulas e corrigir testes! Bastará vaguear por uma escola para perceber esta evidência. Isto não significa que alguns [muitos?] professores satisfaçam as “exigências” de muitos [todos?] encarregados de educação e se limitem a preparar os alunos para os testes e exames. Isto não significa que muitos professores se limitem a guardar os alunos mantendo-os numa situação de “vigilância” porque a escola também serve para os ocupar. À falta de trabalho a escola também serve para guardar adultos jovens!
Os professores sabem que ser professor é muito mais do que dar aulas e corrigir testes! Os professores sabem que ser professor é muito mais do que guardar crinaças e jovens!
Há professores que sempre trabalharam em vãos de escada, em corredores barulhentos, em saunas convertidas em espaço de aula. Sempre o fizerem e continuarão a fazer enquanto sentirem inviolada a sua dignidade profissional. Os professores sempre souberam diferenciar as prioridades.
O artigo de opinião do Dr. Daniel Sampaio é um apenas sinal de que o processo de legitimação das paupérrimas condições de trabalho já se iniciou.
E isso é perigoso porque é a dignidade profissional que está em jogo.
Malhar em ferro frio…
Como é que os professores receberam e perceberam as sugestões do Dr. Daniel Sampaio? Alguém acredita que os professores desconhecem a verdade La Paliciana de que ser professor não é apenas dar matéria e corrigir testes? A questão não deve ser colocada no saber ser professor. A tónica discursiva deve recair no poder ser professor. Embora os constrangimentos físicos do parque escolar não devam ser depreciados nesta imensa discussão do que é ser professor em Portugal no séc. XXI, que outros constrangimentos impedem o professor de o ser?
É aqui que o nosso olhar terá de ser dirigido para as políticas educativas neoliberais que têm sido desenvolvidas pelos governos do bloco central e tentar perceber como é que o tempo se transformou no elemento fulcral do conflito entre o ME e os professores.
19 de setembro de 2005
O professor operário
"A lista de professores
As recentes decisões do Ministério da Educação não suscitaram apoio significativo da maioria dos docentes. Percebe-se que assim seja: a premência política do anúncio, motivada pela necessidade de apresentar algo de positivo num comício após as férias, prejudicou o debate sereno da iniciativa ministerial. Teria sido preferível que as novidades fossem comunicadas aos professores e pais no início da próxima semana e no seu ambiente próprio: a escola. A verdade é que estas medidas podem alterar o clima de muitos estabelecimentos de ensino. Por exemplo, a decisão de atribuir aos Conselhos Executivos (CE) a responsabilidade da fixação dos professores às escolas, de modo a aproveitarem os tempos sem aulas para outras actividades, pode ser de uma importância decisiva no apoio aos alunos.
Muitos críticos entendem que os professores não podem ser obrigados a estar na escola, porque lá não possuem o mínimo de condições de trabalho. Em casa, estudam melhor, preparam aulas e testes, até reflectem mais sobre o ofício de ensinar. Como poderão apoiar os alunos em escolas degradadas, sem espaço, sem gabinetes disponíveis, sem bibliotecas modernizadas e, sobretudo, sem a "orientação" do Ministério? No intuito de contribuir com algumas ideias, meras sugestões de ocupação dos professores para o período em que deverão estar na escola sem aulas, aqui deixo uma lista de possíveis actividades docentes:
1. Reunião informal do Conselho de Turma. Local: recanto da Sala de professores. Encontro de docentes de uma turma para discussão de problemas, definição de estratégias, aferição de métodos.
2. Atendimento de alunos. Local: mesa do refeitório ou sala de aula disponível. Horário: uma hora por semana, sempre no mesmo dia. Ouvir os alunos, detectar problemas e encaminhar para soluções. Articular com Director de Turma (DT) e psicólogo, caso exista. Incentivar na escola a criação de Mediadores escolares, já existentes em alguns locais.
3. Apoio a alunos com dificuldades escolares. Locais: mesmos do ponto 2. Encontros com alunos para tirar dúvidas, incentivar pesquisa, aconselhar novos métodos de estudo. Pode evoluir para aulas mais sistemáticas de disciplinas em défice de aprendizagem.
4. Atendimento de pais, para além do escasso tempo que o DT costuma atribuir a esta tarefa. Local: sala de aula disponível, recanto do ginásio. Os pais gostam de conhecer os professores dos filhos e querem colocar questões a que o DT não sabe responder.
5. Decoração da escola. Local: corredores mal pintados e cheios de comentários, paredes dos pátios, salas de aulas degradadas. Em articulação com os professores de Desenho, constituição de grupos de alunos e de professores para feitura de quadros, painéis, azulejos.
6. Organização de debates, exposições, vinda de personalidades à escola. Local: recanto da Sala de Professores, recanto do ginásio. Com a colaboração dos alunos e a partir das suas ideias, obtidas através de uma "Caixa de Sugestões".
7. Conversa com Auxiliares de Acção Educativa. Local: mesa do funcionário, recanto do corredor. Para discussão de questões de disciplina e dos problemas da escola.
8. Conversas com os alunos sobre a escola. Local: ginásio. Incentivar os alunos a participarem na vida da escola, ouvindo-os sobre o seu quotidiano escolar. Aceitar as suas sugestões construtivas e encaminhá-Ias para o CE. Organizar assembleias de Delegados de Turma.
Muitas mais ideias poderão surgir. O que é essencial é que os docentes entendam que ser professor é muito mais do que dar a matéria e corrigir testes!"
Daniel Sampaio
XIS do Jornal O Público de 17 de Setembro
[O negrito é meu]
Será que este texto [não o dissocio das medidas que o suscitaram] fez despoletar o alarme da dignificação da função docente?
18 de setembro de 2005
Rotinas
Ontem, encontrei-me com Steiner. É a segunda vez que sucede depois de ter sido impregnado pelas Lições dos Mestres durante as últimas férias [confesso que a minha cultura geral não me permitiu sair da caverna como gostaria]. O título e o nome do autor sobressaíram de um conjunto de livros encaixados uns nos outros, mais desalinhados do que o costume.
O Elogio da transmissão – O professor e o aluno, é um diálogo entre Cécile Ladjali, professora do ensino secundário num liceu dos arredores de Paris, e George Steiner, e constitui uma “ocasião para a reflexão sobre a indispensabilidade do recurso aos autores clássicos, à prática de uma pedagogia de exigência, à alegria de ensinar e aprender.” (1)[contracapa]
Depois de ler algumas linhas recuperei polémicas antigas em torno dos programas de Português e os discursos dos pregadores do caos.
Tenho em mãos uma boa leitura para os próximos dias!
(1) Steiner, G.; Ladjali, C (2005). Elogio da Traansmissão - O professor e o aluno. Publicações Dom Quixote.
15 de setembro de 2005
Segredem ao ouvido da ministra.
Ora, a meu ver, é a presunção de que o individualismo é uma fraqueza e não uma força que é preciso desmistificar: O pressuposto de que o individualismo anda associado a más práticas é tão falacioso como a suposição de que a colaboração é sempre genuína.
Legislar impondo culturas colaborativas é um erro que só alguns dos “privilegiados” que trabalham nas escolas podem aferir convenientemente.
Desenganem-se!
Educação Física
Bem-vindos.
[Está aqui.]
13 de setembro de 2005
Outro lado da orientação
Não foi possível avançar muito mais na conversa em direcção às questões de pormenor organizacional e aos obstáculos que tiveram de ser removidos.
Mas ficou a ideia de que ainda é possível quebrar algumas mordaças numa escola de modelo único.
12 de setembro de 2005
Orientação
Nota 1: Quem acompanha estes adolescentes [como professor, pai ou mãe] sabe que as suas decisões são fortemente influenciadas pelas opiniões dos pares e por um conjunto de circunstâncias marcantes [normalmente de curto prazo] relacionadas com o sucesso/insucesso nesta ou naquela disciplina.
Nota 2:O acompanhamento das famílias foi pobre para não dizer inexistente. Como era habitual nas relações entre a escola e a família, os encarregados de educação não faziam parte de uma estratégia de divulgação e sensibilização das lógicas de funcionamento dos cursos.
Exemplo 2. Recordam-se da reportagem da SIC sobre uma escola da Damaia, - Escola Doutor Azevedo Neves –?
O Gustavo não deixou fugir este apontamento: “O presidente do CE, José Rocheta, é uma figura singular. Procura pessoalmente os alunos que faltam às aulas, num vaivém solitário da escola aos seus bairros de residência, trata de problemas de legalização junto das autoridades... É a prática da escola inclusiva, sem o glamour da teoria e da retórica. 20 valores.”
Adenda 1:
"O projecto é sempre mais uma filosofia de acção do que uma técnica. É que os problemas concretos, até quando se procura materialmente identificá-los, são sempre simbolicamente condicionados, isto é, dependentes de quadros de significação próprios que organizam diferentes percepções do concreto. Como os quadros de significação são função da prática social e profissional e dos diferentes interesses nela inscritos, que, por sua vez, a vão modificando, a diversidade de leituras do concreto sobe à medida que se fecham as práticas, constituindo isso o obstáculo central do projecto educativo. Ao mesmo tempo, porém, a sua legitimação de fundo. De facto, o primeiro problema a que procura responder o projecto educativo é o de construir uma linguagem comum no sentido de viabilizar a acção comunicativa, isto é, a abertura à diferença e à interinfluência. Sabe-se como a prática comunicacional no interior das escolas, constitui um problema institucional crónico, para não dizer constitutivo da sua própria cultura organizacional."
Adenda 2: Podia ter denominado o texto da seguinte forma: Como é que a partir de uma entrada despida se convida o leitor para uma leitura profunda?
10 de setembro de 2005
Um caso de (des)orientação.
A discussão da escola tem sido fértil em discussões praticistas que visam satisfazer os caprichos da tecnocracia. São projectos, planos, mapas, conselhos, resmas de papel que é escrito para relatar pseudo intervenções. O poder central não encontrou formas mais eficazes de controlar as escolas e os professores. Criaram-se rotinas que subverteram o sentido da acção pedagógica. O registo transformou-se num fim em si mesmo.
O tempo de discussão e de reflexão escasseia. Paradoxalmente, a escola não pensa a educação nos seus diversos níveis de análise. Não existe a tradição da escola pensar a educação e as tertúlias quando acontecem são deslocadas para um covil qualquer sob um pretexto gastronómico.
Este blogue tem sido um prolongamento de um conjunto de discussões com outros intervenientes e simultaneamente transformou-se num bloco de notas. São apontamentos mais ou menos fundamentados, muitas vezes pouco sistematizados, sem pretensões académicas. Será um discurso de impotência sobre a coisa educativa uma vez que, por norma, não conduz a conclusão nenhuma, como diria o PJ [um comentador que estimo e que por vezes deixa aqui a sua marca].
É isso mesmo: um discurso inconclusivo. E ainda bem!
9 de setembro de 2005
(Des)Orientação…
Isto a propósito de dois comentários [do Miguel e do MJMatos] que li no blogue Que Universidade que nos convidam a pensar nas questões da orientação escolar e que não me deixaram indiferente.
Voltarei ao assunto, sem soluções na manga.
8 de setembro de 2005
Representações…
A propósito da entrada anterior, sempre que a discussão incidia na avaliação normativa havia como que um apelo à imagem que retirei do Profidências.[Tenho pena que o quadro fique incompleto, sem uma imagem referente à perspectiva criterial.]
7 de setembro de 2005
Retiro
Sem rodeios e subterfúgios têm sido dissecadas práticas educativas e reveladas dúvidas, incertezas, razões, sentidos. Que boa demonstração de responsabilidade e maturidade profissional sem o estigma dos créditos para progressão na carreira!
O meu desejo é que a generosidade e o saber estar na profissão [e não me venham falar das franjas de inúteis] não seja recompensada com vergastadas em praça pública.
6 de setembro de 2005
Um novo blogue
5 de setembro de 2005
Faz de conta.
A escola, por enquanto sem alunos, sacode o torpor das férias.
Encontros e reencontros, olhares que se cruzam, recuperam-se algumas ideias pendentes.
Há uma vaga conformista, um encolher de ombros, palavras para quê?
Ninguém duvida que a opinião pública será fustigada com a contra-informação. Tudo correrá conforme previsto, as aulas começarão no dia agendado, os alunos serão bem recebidos e guardados nas escolas.
O país do faz de conta parece ansiar por escolas a fingir.
3 de setembro de 2005
Curiosidades ou talvez não
Adenda: Depois de analisar a sequência de comentários [em particular o comentário do Dr. Justino] e a intervenção sagaz do crack, penitencio-me pelo facto de ter ampliado neste espaço a provocação da “pseudo” Mariana Cascais. A cobardia é deplorável e não encontrará refúgio no outroolhar. Por este facto fica a referência ao que interessa verdadeiramente – a escola do Dr. Justino.
2 de setembro de 2005
Pensar a educação (IV)
A assunção do paradigma do professor reflexivo pode denunciar esta contradição e inverter o curso dos acontecimentos.
A escola mudou e os professores não sobreviverão profissionalmente se não perceberem que o ser professor e o professor construtor da educação não se reduz ao saber técnico. Os problemas sociais que se transformaram em problemas escolares exigem do professor outros saberes e outros olhares sobre a sua profissão.
O problema da escola é um problema de método [deixem-me ser mais afirmativo]. É a diversidade dos problemas sociais que torna as escolas diferentes assim como serão diferentes os caminhos que nos conduzem às soluções.
Uniformizar tem sido a solução da administração. Desejar que a administração uniformize tem sido a atitude prevalecente no professorado. E como a autonomia não se faz por decreto, vamos lá mexer esse cu e usar o poder que temos para construir a nossa escola.
31 de agosto de 2005
Pensar a educação (III)
A LBSE demarca os limites da intervenção do Estado nas questões educativas.
Se os princípios gerais que enformam as mudanças na educação enfatizam o primado pedagógico sobre o administrativo, o “político” está na decisão dos educadores e dos professores.
O que é que se deve esperar de um Estado centralizador?
Adenda - Breves questões retóricas:
Quem são os principais destinatários dos discursos do primado do pedagógico sobre o administrativo?
Por que razão a administração decide impor o pedagógico ao administrativo? Isto é, se o pedagógico é prioritário por que motivo decide anular essa prioridade?
29 de agosto de 2005
Pensar a educação (II)
Erradicar o analfabetismo; Dar prioridade à escolaridade obrigatória; Afastar os incompetentes; Apostar na formação de técnicos qualificados; Modernizar o ensino básico; Organização e vontade política; Investir nas novas tecnologias; Revalorizar a profissão docente; Computadores, ciência e tecnologia; O regresso de Roberto Carneiro [presumo que este depoimento procurava enfatizar a reforma que ele dirigiu]; Educação para a Cidadania; Debater ideias; Apostar no Ensino Técnico e Profissional; Educação de qualidade para a primeira infância; Escola de hoje ensina pouco; Rigor e qualidade; Acabar com o analfabetismo; Reforçar a segurança; Educação para a cidadania; Qualidade no ensino; Reforçar o ensino técnico e profissional; Investir seriamente na educação; Mais tecnologias da informação; Melhores condições de trabalho nas escolas; Arrumar a casa [desorganização interna]; Ensino superior e investigação [maior investimento]; Estabilidade do corpo docente é fundamental; Contrariar o abandono escolar.
Apesar de se verificar algum acordo quanto à identificação dos aspectos mais críticos do funcionamento do sistema educativo, o seu diagnóstico e, em particular, a escolha das soluções e a avaliação dos resultados por elas alcançados, revelam uma forte clivagem política em função de diferentes posicionamentos ideológicos quanto às finalidades da educação, papel do Estado, intervenção comunitária, organização da administração pública, etc. Justifica-se por isso um debate sobre a “repolitização” da educação e da escola (1).
Voltarei ao assunto.
(1) BARROSO, J. (2003). A Escola Pública – Regulação, Desregulação, Privatização. Porto. Edições ASA.
Adenda:
Fumo branco para as listas de colocação de professores.
Adenda II:
“Miguel, fiquei confusa com "Justifica-se por isso um debate sobre a “repolitização” da educação e da escola", talvez pq não conheço o contexto de "repolitização" em J. Barroso. Claro que tudo é político, o susto é que isso signifique: tudo é partidarização, contra o disposto no artº 2º da Lei de Bases que abaixo citaste. Mas aguardo o teu "voltarei ao assunto".”
Calma Isabel, “ainda” não temos motivos para alarme. Não te vou fazer esperar pelo esclarecimento.
Deixa-me lá contextualizar as ideias de João Barroso e tentar justificar a referência que fiz ao respeitável autor.
A partir dos finais da década de 80 a discussão sobre os temas e intervenientes do sistema educativo foi tomada de assalto pelos analistas, editorialistas e comentaristas da imprensa, especialistas em tudo e em coisa nenhuma. Artigos de opinião assinados por figuras públicas [e outras menos públicas (professores, empresários, encarregados de educação, etc.)] e outras intervenções oscilam entre dois registos discursivos radicais: a dramatização da crise e a diabolização da mudança. No primeiro caso, é um discurso que se baseia no empolamento dos problemas existentes para depois sugerir mudanças radicais inspiradas ou no regresso “às boas receitas do passado”, ou nas politicas neoliberais já ensaiadas nos finais das décadas de 80 pelos governos conservadores dos Estados Unidos e no Reino Unido e depois generalizados a outros países. No segundo caso, verifica-se um estado de suspeição sobre tudo o que pretende alterar o status quo. “Quaisquer tentativas de introduzir uma mudança na regulação e organização da escola, ou de alterar as relações de poder existentes no seio da administração e das escolas são vistas como comandadas por forças ocultas que visariam destruir a lógica do serviço público […] e os pressupostos que presidiram à sua expansão”. (p.11)
Como refere ainda João Barroso, “Num e noutro caso reina uma visão maniqueísta em que de um lado estão os «bons» e «espertos» […] e do outro lado estão os «maus» e «estúpidos» que não aprenderam nada com as lições do passado” (ibidem)
Em Portugal, o discurso da dramatização da crise é hegemónico. Os alvos do discurso são: o Estado, as Ciências da Educação, os professores e os seus sindicatos. As receitas para sair da crise são em geral, as mesmas: redução do papel do Estado na educação [privatização da escola pública], gestão empresarial, subordinação das questões pedagógicas aos critérios da eficiência e qualidade, definidos segundo uma lógica de mercado; redução dos poderes dos professores e dos seus sindicatos corporizada com o aumento da influência dos pais e das empresas na configuração da oferta educativa e sua gestão. Este discurso passou muito bem para a opinião pública [Apple considera que este discurso já foi absorvido pelo senso comum] e segundo Barroso, “as perspectivas e soluções destes críticos não passam de réplicas descontextualizadas de posições e iniciativas adoptadas, desde há algum tempo, em outros países e sobre os quais existe hoje uma discussão fundada em investigação consistente e empiricamente sustentada, embora insuficiente.
Os debates e as investigações produzidas nos mais diversos países têm sido eclipsados pelo discurso tecnocrático e gerencialista dos que encaravam o mercado como uma fatalidade e a “gestão empresarial “ como único modelo de sucesso. Daí que se justifique a “repolitização” do debate sobre educação e a escola na medida em que a identificação dos aspectos mais críticos de funcionamento do sistema educativo, o seu diagnóstico, e a escolha das soluções e a avaliação dos resultados por ela alcançados, revelam um forte clivagem política, quer em termos convencionais de «esquerda» «direita», quer em função de diferentes posicionamentos ideológicos quanto às finalidades da educação, papel do Estado, etc.
Está mais claro? ;)
26 de agosto de 2005
Vamos pensar a educação?
Quem me conhece sabe do meu apreço pelos desafios [atitude que terá sido inscrita na minha personalidade pela prática desportiva sistemática]. Saber provocar e deixar-se provocar é um factor essencial para o desenvolvimento pessoal. Saber avaliar as capacidades pessoais é a chave para o salto qualitativo instigado pelo desafio. Isto serve para o desporto e servirá também para a vida na sua integridade.
Antes de ser criticado por um eventual arrojo desmedido quero deixar claro que o alcance das minhas ideias não fará mossa aos fazedores de opinião consagrados e aos verdadeiros especialistas em ciências da educação. Como um simples professor [de ginástica, utilizando uma expressão tão do agrado do meu amigo e colega Miguel Sousa] não pretendo mais do que pensar em voz alta e poder contar com a vossa ajuda preciosa para ultrapassar as minhas limitações intelectuais e profissionais.
Deixando para trás as questões pessoais, olho para o desafio e vejo nele uma tamanha envergadura que terei de definir as condições de realização e as expectativas de sucesso.
Como poderei eu garantir um debate se desconheço o entusiasmo dos meus leitores sobre esta matéria? Numa primeira fase, posso fazer o que já fiz por aqui: lançar os foguetes e apanhar as canas. Isto é, posso contar com os meus heterónimos [não é para levar a sério]; Posso ficcionar; Posso, simplesmente, colocar um conjunto de questões para, em amena cavaqueira enquanto se saboreia um petisco, apontar um caminho para a coisa educativa.
Se quiséssemos uma coisa séria, um estudo científico por exemplo, que legitimaria políticas interesseiras, formávamos uma comissão de estudo com especialistas isentos. Como não queremos legitimar coisa nenhuma deixamos correr as ideias e a escrita. Pode ser? Ah… e o sucesso? O sucesso é aquele que o homem quiser. E pronto, creio que estão garantidas as condições para avançarmos.
E como o melhor é começar pelos princípios, há um princípio da lei de bases do sistema educativo (LBSE) que me faz alguma confusão.
Diz o artigo 2º o seguinte:
a) O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas;
Afinal, de que é que estamos a falar? De uma educação neutra? Alguém me pode ajudar a interpretar este articulado?
Como li algures, (…) to be continued.
Descobertas
E se tiver tempo, não deixe de percorrer as ligações de cada um dos blogues. Pode ser que ainda se surpreenda com o que se faz por aí.
Apropriação
Não deixe de ler esta entrada.
25 de agosto de 2005
Retorno ao serviço
Encontrei no site do ME uma selecção de textos de apoio ao currículo e avaliação elaborados por uma equipa de trabalho coordenada pelo professor Domingos Fernandes.
Acredite que os textos merecem um olhar mais demorado. Se pretender aceder aos textos [formato PDF], eles estão aqui:
1. O modelo curricular do ensino secundário
Educação para a Cidadania
Aula de Ciências do Futuro
Modelos de Desenho Curricular
Aprendizagem Baseada em Projectos I
Aprendizagem Baseada em Projectos II
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas I
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas II
Aprendizagem Baseada na Resolução de Problemas III
Educação para a Cidadania Democrática
Promoção e Educação para a Saúde
Educação Ambiental
Educação Rodoviária
2. A avaliação no contexto da revisão curricular
Avaliação e Desempenho
Avaliação Criterial / Avaliação Normativa
Explicitação de Critérios - exigência fundamental de uma avaliação ao serviço da aprendizagem;
Avaliação Formativa: algumas notas
Instrumentos de avaliação: diversificar é preciso
Observe! Vai ver que encontra.
Que instrumentos utilizar na observação?
Se quer saber, porque não pergunta?
Questionário na sala de aula
Testes: sim ou não?
Testes: objectivos ou não objectivos, eis a questão!
Portfolios: para uma avaliação mais autêntica, mais participada e mais reflexiva
Auto-avaliação
Que instrumentos utilizar na observação?
Perguntar para compreender melhor: a entrevista
Experimentar pode ser "Voar para outro espaço"
Avaliação sumativa: algumas notas
Registos de avaliação: burocracia ou pedagogia?
Avaliar para diferenciar. Diferenciar para aprender
Diferenciação do ensino na sala de aula
Diferenciar as pedagogias para promover a igualdade. Porquê?
Pedagogias diferenciadas para a educação multicultural. Como? (I)
Pedagogias diferenciadas para a educação multicultural. Como? (II)
Bom proveito!
24 de agosto de 2005
Persistir no analfabetismo motor
A discussão que se seguiu ao alargamento do horário escolar no 1º ciclo do ensino básico incidiu nas vicissitudes da oferta do Inglês. As restantes actividades de complemento curricular [os clubes escolares e o desporto escolar por exemplo] nunca mereceram o destaque que lhes é devido porque vivemos num tempo em que só existe o que é mediático. Malogradamente, os problemas da educação motora das crianças e jovens portugueses só entram nos cardápios das preocupações dos (ir)responsáveis políticos quando associados às notícias da epidemia da obesidade infanto-juvenil: casa arrombada trancas na porta. Presumo que o tempo para uma discussão séria sobre esta matéria não tardará. [O RSS do Público alerta-me, neste momento, para a existência de um debate público sobre obesidade infantil na Polónia: "Coca-Cola vai retirar refrigerantes das escolas básicas". Sugiro uma visita ao blogue Educar para a Saúde.]
Durante o curto período em que se esgrimiram argumentos sobre as consequências do analfabetismo linguístico e da emergência do domínio da língua de sua majestade, desejei que a discussão sobre o Inglês rebocasse o problema do analfabetismo motor que afecta, gravemente, a população infanto-juvenil. Esperei que emergisse, por via da discussão sobre as actividades de complemento curricular, o problema das actividades curriculares. Aguardei que o Ministério da Educação, embalado por um acesso repentino de seriedade na discussão dos problemas educativos, fizesse cumprir o “obrigatório”, o curricular, e deixasse para outras núpcias o que é facultativo, o que complementa o currículo obrigatório.
Creio que as minhas expectativas saíram goradas. Presumo que nunca poderia sair satisfeito porque fui castigado por um problema de entendimento [benigno], uma desarrumação qualquer que não me permite compreender o que é o curricular, o complemento curricular, o extracurricular, o lectivo e o extralectivo. Será, porventura, um problema meu. Adiante.
Deixando para trás os equívocos conceptuais, olho para o quadro em que se desenvolvem as actividades físicas no 1º ciclo. Mais importante do que saber se é obrigatório ou facultativo é saber de que modo o Estado garante o desenvolvimento integral dos nossos alunos. É apenas disso que se trata. E uma Escola que não ultrapassar os obstáculos que se colocam ao desenvolvimento das actividades físicas desportivas não pode ambicionar a oferta de actividades do desporto escolar. E que obstáculos são estes? Refiro-me aos eternos problemas que tardam em ser debelados:
- A tipologia da grande maioria dos edifícios das escolas do primeiro ciclo não proporciona as condições mínimas para um trabalho sério na área das expressões psicomotoras;
- Nem todas as autarquias perseguem o critério de qualidade na contratação dos recursos humanos porque seleccionam professores coadjuvantes de Educação Física pouco qualificados [a baixo custo];
- A formação de banda larga dos professores do 1º ciclo, numa escola excessivamente intelectualizada, acaba por relegar para segundo plano as áreas das expressões.
A atalho de foice é possível relançar a reflexão sobre o papel da escola no desenvolvimento do desporto português porque já se percebeu que o Associativismo Desportivo não é capaz de responder às necessidades manifestas do país desportivo real [cf. Jorge Araújo in: Horizonte, nº 119, p. 34].
Escolas que fingem a auto-avaliação?
“A actividade de aferição Efectividade da Auto-Avaliação das Escolas pretende constituir-se como parte integrante de uma cultura de reflexão institucional sobre os dispositivos de avaliação implementados pelas escolas.
Tem, assim, como propósito o desenvolvimento e a consolidação de uma atitude crítica e de auto-questionamento relativamente ao trabalho realizado nas escolas, suporte essencial do seu planeamento estratégico.” (p. 3)
A questão norteadora que instiga a reflexão é a seguinte:
[…] “Qual é a efectividade da auto-avaliação que a escola faz da qualidade do seu funcionamento e dos serviços que presta, por forma a desenvolver acções que contribuam para reforçar os seus pontos fortes e superar os pontos fracos?” (p. 4)
O quê? A meta-avaliação é conversa da treta?
Adenda: A pretensa ausência de meta-avaliação será um problema relacionado com a falta de método?
22 de agosto de 2005
O governo do piano
O governo, enquanto se manteve enclausurado nos gabinetes a estudar os dossiês, alimentou na opinião pública lusitana um fascínio do mesmo tipo que o “homem do piano” criara na opinião pública inglesa, no dia em que a estranha figura apareceu numa estrada da ilha de Sheppey.
O silêncio [e a quebra dele] foi o denominador comum destas duas figuras de ficção.
Os cronistas do regime não deixaram escapar as diferenças de postura relativamente ao anterior executivo onde a incontinência verbal daria o seu lugar a um silêncio profundo, prenunciador de algo positivo. Era pelo menos assim que clamavam as crónicas da época. Do lado do governo, as peças musicais dos “coelhos” pianistas criavam o ambiente favorável para a implementação das reformas essenciais ao desenvolvimento do país e pronunciavam uma ruptura com o passado no que se diz respeito à conduta dos actores políticos.
Até que um dia o pianista cansou-se de estar calado e as músicas perderam o seu encanto. Nesse dia, quando abriu a boca para dizer quem era, deixou claro que as nomeações para os altos cargos políticos obedecia a um único critério - a partidarização do estado. Os portugueses, que se tinham mostrado fascinados pelo seu comportamento, não descartam a possibilidade de que o homem estivesse actuando durante todo este tempo.
Por mim, não lhe dava a alta. Seria o seu castigo pela desilusão que nos causou.
Novo blogue
Adenda: O Transitando metamorfoseou-se em Micómio e já abriu as suas portas. Boa notícia!
21 de agosto de 2005
O patinho feio.
Nas escolas, os inspectores são “pessoas estranhas ao serviço”. A IGE é, efectivamente, o tentáculo mais activo do ME. É o “braço armado” [perdoem-me a expressão] do ME. E como ninguém gosta de se sentir controlado, a IGE constitui uma "ameaça" permanente, principalmente, quando se instala, quando assenta arraiais no conselho executivo de uma escola. As organizações educativas são complexas, geradoras de conflitos. Embora as actividades de provedoria e de acção disciplinar configurem a existência de conflitos [inevitáveis] e de eventuais queixas dos utentes e dos actores educativos, não deixam de ser actividades que visam a salvaguarda, a defesa e a promoção dos direitos e interesses legítimos dos cidadãos e a equidade e justiça do Sistema Educativo. A actuação deste ou daquele inspector que manifesta uma postura autocrática e “pouco amigável” é reprovável, contudo, não deverá ser generalizável. Por outro lado, a acção da IGE não se circunscreve às actividades de provedoria e de procedimento disciplinar. A actividade da IGE prolonga-se nas actividades de aferição e de produção de materiais de apoio à gestão escolar que devem ser disponibilizadas às comunidades educativas para discussão intra-muros.
As actividades de aferição não se têm repercutido nos trabalhos das assembleias de escola e dos conselhos pedagógicos. E a meu ver, o apoio externo não deve ser encarado como um mal necessário ao desenvolvimento dos projectos educativos das escolas. Bem pelo contrário, o apoio externo deve ser aproveitado para desencadear mecanismos de participação alargada na construção de projectos educativos singulares. Daí que a interrogação da Isabel (IC) [num comentário à entrada anterior] não seja despicienda: “Não acham que "prioridades políticas" [referia-se às intervenções sistemáticas da IGE que decorrem das prioridades políticas estabelecidas para a Inspecção-Geral da Educação] deixa alguma apreensão? É que eu continuo a ver muita nebulosidade entre prioridades políticas e prioridades sérias e isentas quanto ao sistema educativo.”
Voltarei ao assunto.
20 de agosto de 2005
Auto-avaliação
E por falar em auto-avaliação, estranhamente [digo eu], o trabalho da Inspecção-Geral da Educação (IGE) tem passado despercebido nas reflexões que temos mantido por aqui. A IGE desempenha, com autonomia administrativa e técnica, funções de auditoria e de controlo do funcionamento do sistema educativo no âmbito do ensino não superior. A IGE, para além das intervenções pontuais, ou seja, aquelas que não susceptíveis de previsão ou de programação prévia, nomeadamente, as actividades de Provedoria e Acção Disciplinar, desenvolve intervenções sistemáticas, ou seja, aquelas que são susceptíveis de programação prévia. Refiro-me às actividades de Acompanhamento, de Controlo, de Auditoria e de Aferição. Como se lê no site da IGE, “Poder-se-á dizer que as intervenções sistemáticas decorrem das prioridades políticas estabelecidas para a Inspecção-Geral da Educação e que as intervenções pontuais resultam da situação concreta da vida nas escolas e do que dela decorre e suscita a intervenção da IGE”.
A questão da qualidade do sistema educativo tem sido, insistentemente, aflorada nas discussões mais ou menos mediáticas. A IGE, como seria de esperar, no âmbito das suas funções, não ficará indiferente à promoção da qualidade nos estabelecimentos de educação e de ensino. Este é, aliás, um dos objectivos da actividade Efectividade da Auto-Avaliação das Escolas realizada no âmbito da aferição da qualidade dos níveis de qualidade alcançados no planeamento, na organização e na realização da prestação educativa.
Querem ver que encontrei matéria para me ocupar nos próximos dias [de férias]?
18 de agosto de 2005
Novo blogue
“Conheço uma escola onde os professores grevistas estão a ser convocados para "serviço de apoio ao Conselho Executivo", ainda que os vice-presidentes do dito não saibam (sic) em que consiste o serviço, uma vez que (sic) só o Presidente sabe para que é que os convocou. O engraçado é que os professores convocados são os grevistas: ou seja, quem fez greve está convocado, quem não fez está de férias por antecipação. Alguém conhece mais casos destes?”
16 de agosto de 2005
Uma página da educação
Isto a propósito de um editorial do João Paulo Serralheiro que comenta um texto de um «FAST-THINKER» da nossa comunicação social.
Deixo aqui um pequeno excerto e a respectiva ligação só para despertar a curiosidade.
[…] “1. Começo por lhe dizer que quando o oiço ou leio percebo com facilidade onde lhe dói. Você clama contra as regalias e privilégios dos que você apelida de «populares» mas ai de quem lhe toque, mesmo que com uma flor, num dos seus muitos privilégios e regalias.
É um facto, em Portugal a sua opinião conta. E isso é terrível porque você emite opiniões sem medir as razões que as sustentam. Custa-me dizer-lhe, mas você constrói opinião com base em palpites, em suposições, em ideias feitas e preconceitos. Por isso você me parece um «fast-thinker», um «penso rápido» da comunicação social. Você é socialmente perigoso. Em vez de ajudar a curar você infecta as feridas.
2. No seu discurso, escrito e falado, confunde conceitos como privilégios, regalias, direitos adquiridos, direitos contratuais, conquistas da revolução. Reduz estes conceitos tão diversos a uma mesma coisa. Tal confusão leva-o a cometer erros de apreciação e a cometer injustiças em relação a milhares de pessoas.
Estes conceitos, quando se aplicam, não se aplicam só ao sector público mas também ao sector privado. É tão privilegiado o indivíduo que arranja um emprego no sector público à custa duma cunha como o que arranja emprego no sector privado com a mesma cunha. E, tendo em conta as médias de remuneração do trabalho em Portugal, é tão privilegiado o indivíduo que obtém rendimentos acima dos dez mil euros por mês no sector público como o é o que os obtém no sector privado. Porventura os dois rendimentos são legais e legítimos mas não deixam de ser um privilégio seja ele obtido no público ou no privado.” […]
14 de agosto de 2005
Desfechou
Estou convencido de que recuperei energias que me permitirão, vagarosamente, lançar o meu olhar para a escola. Repito, vagarosaammennnnteeee…
E por falar em vagarosamente [;)] tive o privilégio e um grande prazer em conhecer pessoalmente um amigo virtual de longa data: O Manel Da Escola e do Crónicas do Deserto. O encontro prometido tardou em concretizar-se, mas valeu a pena. E foi nesse Alentejo profundo que a conversa fluiu, bem regada com um excelente tinto da região e muito bem acompanhada pelas iguarias que a Dulce [mas que simpatia…] nos presenteou.
Belo retorno!
